Valéria Piassi

Arquiteta e sonhadora. Gosta de colecionar sorrisos, amigos, livros e músicas prediletas.

Moradia é urgência. Existe arquitetura em um assentamento informal?

O que você entende por arquitetura? Podemos enxergar um barraco em uma favela como parte da arquitetura de uma cidade? Será mesmo que demolir as moradias existentes e construir um edifício mais moderno e bonito poderia levar dignidade aos habitantes de uma favela?


cms-image-000398471.jpg Foto utilizada em artigo do escritor Davison Coutinho para o Jornal do Brasil, encontrada no site brasil247.com

A primeira vez que vi uma favela estava sentada no banco de trás do carro dos meus pais e era uma criança. Aquilo me assustou e encantou ao mesmo tempo, me assustou porque eu não conhecia aquele excesso de informação, tantas janelas e tijolos empilhados. Encantou porque todas aquelas casinhas sobrepostas, com suas cores, formas e tanta vida latente me fizeram enxergar uma imensidade que eu não conhecia.

Algum tempo depois tive a oportunidade de entrar em uma favela do Rio de Janeiro, já cursava a faculdade de arquitetura e urbanismo e o objetivo era estudar o prédio do Pedregulho (projetado por Affonso Eduardo Reidy) que se situa ao lado da favela de Tuiuti. Por um lado descem de um ônibus universitário cerca de quarenta jovens estudantes de arquitetura, com seus pertences devidamente escondidos de qualquer perigo. Na recepção algumas crianças, moradores da comunidade e curiosas por saber o motivo daquela visita. Qual dos lados se sentia mais ameaçado?

pedregulho.jpg Vista do conjunto habitacional do Pedregulho. Imagem retirada do site www.uol.com.br

Pareceria contradição dizer que admiro a forma de habitar daquelas pessoas? Grande parte de quem mora ali, fez seu lar de um barraco, sua casa, seu local de descanso e sua proteção. Mas o que é arquitetura dentro de uma área de favela? E qual o papel do planejamento urbano?

Sabemos que o ideal é mutável – de acordo com determinado contexto – e muitas vezes inatingível, partindo da teoria arquitetônica o ideal seria que todos tivéssemos casas com estrutura de qualidade, materiais resistentes e bom desempenho termo-acústico. Mas, e quando a pobreza não permite? E quando a dignidade de alguém está colocada em xeque por não ter onde dormir? Se um homem constrói com todo cuidado um cômodo para abrigar sua família, em um terreno que não é seu, a arquitetura está ali? Um grande arquiteto, Ludwid Mies van der Rohe, disse que a arquitetura começa quando empilhamos dois tijolos com cuidado, aí ela começa. Será mesmo que uma moradia na favela não possui nada de arquitetura?

Para aquele que não tem nada, para aquele que levou toda sua família para habitar as ruas, arquitetura talvez seja excesso, assim como banquetes em churrascarias ou compras em lojas de grife. A busca é por dignidade e proteção. Ressalto aqui um texto escrito por Wellington Cançado: “Nessas situações, a urgência da proteção é tão massacrante que uma mísera lajinha a 5 metros de altura pode ser um abrigo familiar. Assim como o frio é psicológico, arquitetura também deve ser.” Enquanto alguns passam dias em dúvida sobre qual pastilha usar no lavabo da sua casa, outros não tem o essencial, como saneamento básico.

Há pouco tempo uma arquiteta ganhou destaque no meio da arquitetura por trabalhar em favelas na índia. Seu trabalho não é criar lindas casas empregando os elementos tradicionais de arquitetura, Julia King foi além das definições teóricas. Ela enxergou a real necessidade da comunidade.

“Eu poderia ter construído uma biblioteca ou uma estação de ônibus, mas o que era mais necessário era esgoto - fazer o que a comunidade não poderia fazer por si só para que pudessem seguir com o que eles fazem muito bem, que é fazer cidades a partir de casas... Procuro inspiração (ou oportunidades) nas pessoas e lugares ao invés de procurar por pessoas e lugares que recebam minhas ideias.” (Julia King)

Não temos tempo para esperar grandes prédios, moradia é urgente, é necessidade básica do homem. E construir suas próprias casas é algo que os habitantes de uma favela aprenderam muito bem. A favela tornou-se um espaço legítimo da cidade. Mas a cidade ainda não vai ao encontro desses espaços. O que parecemos não entender é que não há arquitetura sem a rotina dos moradores, podemos confirmar essa afirmação observando todas as “instalações” que brotam com frequência funcionando como moradias. Em contraposição, podemos observar a grande quantidade de prédios desocupados no centro de São Paulo, são construções imensas, devidamente projetadas. Porém vazias e inacabadas. Sabemos que um edifício desocupado no centro de uma cidade gera desuso de uma grande infraestrutura existente. Enquanto que um assentamento urbano informal densamente povoado fica de fora de uma necessária intervenção urbana.

De acordo com dados oficiais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), coletados durante o censo de 2010, cerca de 11,4 milhões de pessoas vivem em favelas por todo o país. O que quer dizer que cerca de 6% da população do Brasil vive sem acesso a estrutura urbana ideal.

Em assentamentos informais falta acessibilidade, falta saneamento, falta salubridade, falta segurança, falta estrutura urbana. E enquanto intervenções governamentais não acontecem – não em escala ideal pelo menos – algumas comunidades começam a se destacar através de seus próprios moradores, pelo trabalho colaborativo.

É o caso de um sistema de entrega de cartas iniciado na Rocinha. Em uma favela os números de casas não são mapeados pelo correio e suas ruas são estreitas, a dificuldade para receber a correspondência exigia que os moradores buscassem por elas em bares e comércios próximos. Três amigos encontraram no problema uma possibilidade de criar uma empresa, o Carteiro Amigo, fundada por Carlos Pedro da Silva, Silas Vieira e Elaine Ramos. A agência pede uma pequena quantia mensal dos moradores, as cartas são enviadas ao endereço da agência e entregues porta a porta. 1_rocinha_night_2014_panorama.jpg Vista da favela da Rocinha. Imagem retirada do site pt.wikipedia.org

Casos assim mostram o quanto um planejamento urbano focado poderia beneficiar e até mesmo envolver as comunidades menos estruturadas. O importante aqui deixa de ser o que é ou não arquitetura, o importante é o quanto a cidade está conectada em todas as suas partes. Um simples cômodo construído, sem muita estrutura, em um terreno impróprio faz parte da cidade assim como uma casa de alto padrão construído em um condomínio de luxo.

Um barraco situado na favela da Rocinha é arquitetura? Talvez essa não seja a resposta que precisamos no momento. Talvez o papel da arquitetura seja enxergar a real necessidade de cada caso, possibilitar melhorias que possam valorizar a vida e o mecanismo da cidade como um todo. Definir o que é ou não é arquitetura deixa de ser o primordial, urgente é encontrar um meio de suprir as necessidades básicas da população. Desenvolver políticas de integração e possibilitar acessibilidade, saneamento e dignidade, este é o ponto vital que precisa estar no centro do debate.


Valéria Piassi

Arquiteta e sonhadora. Gosta de colecionar sorrisos, amigos, livros e músicas prediletas..
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