Valéria Piassi

Arquiteta e sonhadora. Gosta de colecionar sorrisos, amigos, livros e músicas prediletas.

Sociedade em transformação, arquitetura em transformação

Assim como a sociedade se transforma, a arquitetura se transforma. Temos alterado constantemente nossa forma de habitar e de nos relacionar com os espaços edificados, como a arquitetura pode adaptar-se às alterações sem perder valor?


medianeras-2011-3.jpg Imagem do filme Medianeras: Buenos Aires na era do amor virtual

Muitas vezes, questionamos sobre o papel da arquitetura para a cidade, será que ela deve ser considerada essencial ao homem? Considero que a arquitetura pode, e deve, ampliar o nível de qualidade de vida humana, ela conecta espaços e pessoas, e pode causar sensações físicas e emocionais. E os seus efeitos não são condicionados ao nível social da construção. De pequenas casas a imensos edifícios, as construções serão melhores quando aspectos arquitetônicos forem levados em consideração.

Ao longo dos séculos, a arquitetura passou por muitos processos de adaptação e mudanças. As tipologias foram sendo alteradas de acordo com as necessidades dos seus usuários, de acordo com os materiais disponíveis no mercado e as exigências socioeconômicas e culturais da época. Aquilo que antes era tido como “sagrado” em uma casa foi aos poucos sendo substituído pelo prático, troca que não desmereceu a arquitetura, apenas afirmou o quanto ela é dinâmica e acompanha o ritmo da sociedade e seus costumes.

A princípio, o homem desenvolveu a arquitetura de acordo com suas necessidades e desejos, bastava a proteção do frio, do vento, da chuva, do calor, da violência e de olhares curiosos. Para isto bastava apenas construir resistentes paredes e teto. Com o passar do tempo outros aspectos começaram a ser relevantes, o homem resolveu abrir pequenos vãos nas paredes, no intuito de ver o que se passava lá fora. A paisagem da cidade passava a fazer parte do interior de uma casa. Devido as características dos materiais disponíveis no mercado da época, os vãos de janela eram pequenos e as espessuras das paredes eram imensas. Com o passar do tempo o processo de construir as janelas foi se desenvolvendo cada vez mais, hoje podemos abrir grandes vãos ou até mesmo criar paredes de vidro, já que possuímos matérias de alta resistência e durabilidade. As paredes tornaram-se esbeltas e altas, prédios ganharam altura e casas foram empilhadas, terrenos ficaram menores (na tentativa de comportar a população que cresce exponencialmente). Devido à pequena metragem dos terrenos, os pátios foram reduzidos e em seu lugar surgiram pequenos poços de luz.

Construir em grandes territórios urbanos é condição de poucos, grandes lotes são raros e caros. Dessa forma, arquitetos precisaram se adaptar com projetos reduzidos e a difícil tarefa de acomodar famílias em apartamentos de cinquenta metros quadrados.

Talvez o roteiro do filme argentino, Medianeiras: Buenos Aires na era do amor virtual, tenha sua razão ao afirmar que os arquitetos possuem grande responsabilidade na qualidade de vida de um morador. No filme o personagem principal (Martin), que vive em um pequeno apartamento em Buenos Aires faz a seguinte afirmação:

“Estou convencido de que as separações e os divórcios, a violência familiar, o excesso de canais a cabo, a falta de comunicação, a falta de desejo, a apatia, a depressão, os suicídios, as neuroses, os ataques de pânico, a obesidade, a tensão muscular, a insegurança, a hipocondria, o estresse e o sedentarismo são culpa dos arquitetos e incorporadores”

tumblr_n0930pUk7u1sjt8p1o1_1280.png Imagem do filme Medianeras: Buenos Aires na era do amor virtual

Exagero ou não, sabemos que nossas emoções podem ser alteradas pelo contato com um determinado ambiente. Passe um dia todo fechado em um cômodo mal iluminado e com pouca ventilação e no final da tarde você terá sintomas de um cansaço extremo. O ambiente e o sujeito possuem relação direta e colaborativa, um pode modificar o outro, pois existe comunicação e troca constante.

javier-drolas-as-martin-in-sidewalls-2011-1.jpg Imagem do filme Medianeras: Buenos Aires na era do amor virtual, momento depois que Martin quebra a parede para instalar uma janela

O arquiteto Louis Kahn, em uma conversa com estudantes no ano de 1968 disse que arquitetura precisa reprogramar um projeto, não basta desenvolver o essencial. Não basta anotar o que o morador deseja e realizar. É preciso olhar além e enxergar as reais necessidades de determinado prédio e seus ocupantes. Somos nós, arquitetos e urbanistas os responsáveis por desenvolver meios de habitar ou ocupar melhor um espaço. Manter uma estrutura tradicional de casa e ignorar a forma de viver dos ocupantes é como ignorar a cultura e desejos daquele núcleo de pessoas.

0023.jpg Na imagem Louis Kahn projetando - Fonte: www.gemmaiobrien.wordpress.com

Ainda no livro Conversa com Estudantes, Louis Kahn faz a seguinte reflexão:“Eu não conheço melhor serviço que um arquiteto possa prestar, como profissional, do que o de compreender que todo edifício deve servir à instituição do homem, quer seja ela a instituição do estado, quer a da casa, ou a da aprendizagem, da saúde, ou do lazer. Uma das grandes deficiências da arquitetura, hoje, é que essas instituições não estão sendo definidas, mas apenas dadas por um programa, e transformadas em um edifício."

Temos alterado constantemente nossa forma de habitar e de nos relacionar com os espaços edificados, as famílias estão menores, elas passam pouco tempo em casa, crianças estão cada vez mais ocupadas e conectadas, e condições financeiras estão longe de serem ideais na maioria das casas no Brasil.

Resta a arquitetura um trabalho árduo e instigante. Desenvolver espaços salubres e saudáveis, utilizar da melhor forma os materiais e tecnologias disponíveis, dispor os espaços de forma a integrar ao máximo as pessoas, criar volumetrias harmônicas e ampliar a qualidade de vida humana são as exigências mínimas da sociedade atual. Mas o papel da arquitetura hoje é enxergar além do mínimo.

A arquitetura não encontra função se não for pensada para o homem. É preciso desenvolver uma arquitetura menos popular e mais humana, mais voltada para as sensações espaciais e conforto térmico. E dessa forma muda-la o tempo todo, este é um processo constante e que talvez nunca termine. Assim como a sociedade se transforma, a arquitetura se transforma.


Valéria Piassi

Arquiteta e sonhadora. Gosta de colecionar sorrisos, amigos, livros e músicas prediletas..
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