Valéria Piassi

Arquiteta e sonhadora. Gosta de colecionar sorrisos, amigos, livros e músicas prediletas.

Cidades: Para pessoas ou para automóveis?

Estacione o carro por algumas horas e tente percorrer o seu percurso caminhando, você vai perceber que a cidade parece não ter sido pensada para pedestres. Quando andamos estamos sendo inconvenientes e atrapalhando o fluxo tão contínuo e veloz, não somos bem vindos. Mas como valorizar e proteger a parte integrante do trânsito que é muitas vezes ignorada: o pedestre?


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Você já ficou sem carro? Foi pra algum lugar de ônibus ou avião e chegando lá ficou a mercê de taxis e caminhadas? Muitas vezes estamos tão acostumados a deslocamentos por veículos automotivos que alguns detalhes nos passam despercebidos. Quando viajo de férias gosto de não precisar dirigir ou procurar uma vaga de estacionamento no meio do caos, mas muitas vezes o trânsito intenso e o despreparo das cidades dificultam uma simples caminhada.

Mesmo em grandes centros, algumas cidades parecem não ter sido pensada para pedestres. É como se ele não fosse bem vindo ali, a impressão é que quando andamos estamos sendo inconvenientes e atrapalhando o fluxo tão contínuo e veloz (tanto do automóvel como da vida). Em grandes centros é comum encontrar grandes vias de trânsito rápido com três ou quatro faixas de rolamento em cada sentido, e é bem ali que você precisa atravessar para chegar até a farmácia ou mercado mais próximo. Talvez você encontre uma passarela ou semáforo para atravessar, basta caminhar uns quinhentos metros e esquecer a regra que uma reta é a distância mais curta entre dois pontos.

Já em cidades menores o problema está na falta de semáforos para pedestres. Você precisa atravessar a rua, mas a sinalização não te inclui. Então você aguarda o semáforo para automóveis fechar, mas ao atravessar um carro faz a conversão, te obrigando a parar repentinamente sobre a faixa. A questão é que sempre existe a possibilidade de você não perceber a tempo. Estive há pouco tempo em uma pequena cidade litorânea, fui de férias e resolvi não alugar carro. O plano era ficar pela região do hotel, me deslocar caminhando e apenas se necessário utilizar um serviço de taxi. Mas algumas horas foram suficientes para que eu percebesse que a cidade não estava preparada para visitantes sem automóveis (apesar da grande quantidade de turistas visitando a região).

Calçadas esburacadas, faixas de grama sem acesso para travessia, inexistência de faixa de pedestres e iluminação falha em vários trechos tornaram o passeio dificultoso e me encheram de uma sensação de insegurança em muitos momentos. A falta de ambientes para alimentação por perto dificultou ainda mais o passeio, percorrer dois quilômetros a pé não é tarefa difícil, mas percorrer dois quilômetros de um trajeto escuro com calçadas esburacadas e descontínuas e nenhuma sensação de segurança é do tipo de tarefa que poucos gostam. Pior ainda é perceber que o serviço de táxi da cidade não está disposto a te atender bem. Essa simples percepção comprova a nítida interferência que um projeto urbano (ou falta de um) pode ter no dia a dia do ser humano. Talvez não fosse preciso viajar para notar esses detalhes, porém enquanto estamos atrás do volante fica mais difícil perceber como o pedestre perdeu espaço na cidade.

Basta estacionar o carro por algumas horas do seu dia, e percorrer algum trajeto na sua própria cidade. Fiz a experiência por aqui e cheguei às mesmas conclusões. Calçadas de passeios são descontínuas, cada proprietário instala o piso ou acabamento que achar melhor, assim enquanto você percorre cerca de 750 metros o piso muda frequentemente de padrão. Você está caminhando por uma calçada lisa e de repente cai em outra cheia de buracos. Você encontra uma região pavimentada com piso tátil, mas de que serve isto se a pavimentação termina junto com aquele lote? Andando um pouco para longe do centro, algumas quadras te forçam a trafegar pela rua, isso porque é comum encontrar desníveis e até degraus em calçadas.

Em dias quentes é agradável caminhar por ruas arborizadas, elas aumentam o conforto térmico e causam impacto positivo na paisagem da rua. E apesar de uma lei que específica o plantio de uma árvore por lote, é comum encontrar quadras com uma ou nenhuma árvore. A justificativa? A maioria das pessoas quer se livrar de folhas caídas na sua calçada. Atitudes que priorizam unicamente o proprietário do imóvel.

Enquanto dentro do lote o proprietário constrói unicamente para si e seus convidados, da divisa frontal do terreno para fora tudo é coletivo. Seja o jardim criado nas calçadas, árvores plantadas ou mesmo o revestimento utilizado. Desde que algo seja coletivo, precisa ser pensado para o bem comum.

A Lei Federal nº 9.503/97 define calçada como a parte da via, normalmente segregada e em nível diferente, não destinada à circulação de veículos, reservada ao trânsito de pedestres, e quando possível, à implantação de mobiliário urbano, sinalização, vegetação e outros fins. São esses os requisitos mínimos para uma calçada, que ela favoreça com segurança o deslocamento do pedestre. Calçamentos escorregadios, interrupção e desníveis em áreas públicas podem causar acidentes, dificultar ou até mesmo impossibilitar acessos.

A cidade é formada por detalhes que fazem parte do planejamento urbano e podem dificultar a vivência de pessoas se mal planejados e executados. Cabe ao poder público criar planos de urbanização, políticas públicas e leis de incentivo. Cabe ao poder público fiscalizar e até mesmo punir quando houver necessidade. Não seria viável implantar o uso de um desenho universal para as calçadas públicas, de forma que cada proprietário seguisse o padrão mínimo necessário? De acordo com o decreto. Nº 5.296/04, desenho universal é a concepção de espaços, artefatos e produtos que visam atender simultaneamente todas as pessoas, com diferentes características antropométricas e sensoriais, de forma autônoma, segura e confortável, constituindo-se nos elementos ou soluções que compõem a acessibilidade.

A partir do aprimoramento das sinalizações, manutenção e padronização das calçadas, e da instalação de equipamentos e vegetação seria demonstrado finalmente que a cidade é feita para as pessoas, valorizando aquela parte integrante do trânsito que é muitas vezes ignorada: o pedestre.


Valéria Piassi

Arquiteta e sonhadora. Gosta de colecionar sorrisos, amigos, livros e músicas prediletas..
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