Valéria Piassi

Arquiteta e sonhadora. Gosta de colecionar sorrisos, amigos, livros e músicas prediletas.

Paulo Mendes da Rocha e seu legado

"O projeto ideal não existe, a cada projeto existe a oportunidade de realizar uma aproximação." (Paulo Mendes da Rocha)


Desde meu primeiro projeto na faculdade, quando o descobri em livros sobre arquitetura brasileira, Paulo Mendes da Rocha possui toda minha admiração. A cada projeto pesquisado descobria um conceito discreto e ao mesmo tempo marcante. Seus prédios edificados falam tanto que às vezes é melhor ficar em silêncio respeitosamente. Porém, nessa semana de outubro o nosso mestre completa seus 88 anos de idade, bom motivo pra exaltar todo o trabalho que fez pelo Brasil até hoje.

No últimos tempos ele foi agraciado com três dos maiores prêmios da arquitetura internacional: o Leão de Ouro da Bienal de Veneza, o Prêmio Imperial do Japão e a RIBA Gold Medal 2017. Além dos já conquistados Prêmio pela Trajetória Profissional na I Bienal Ibero-Americana de Arquitetura em 1998, o Prêmio Mies Van der Rohe de Arquitetura Latino-Americana: em 1999, pelo projeto do MuBE, em 2000 pela Pinacoteca de São Paulo, e o Prêmio Pritzker de Arquitetura em 2006.

“Muitas décadas após serem construídos, cada um de seus projetos resiste ao avanço do tempo, tanto estilisticamente como fisicamente. Essa consciência estarrecedora pode ser resultado de sua integridade ideológica e sua genialidade no campo estrutural. Ele é um desafiador inconformado e, ao mesmo tempo, um realista apaixonado” (Palavras de Paolo Baratta no momento que Paulo Mendes foi escolhido para o Prêmio Leão de Ouro da Bienal de Veneza).

Peço licença aqui para falar menos sobre técnica e mais sobre sentimentos e todo o conceito que está integrado aos projetos a seguir:

Loja Forma

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Localizada em uma área onde volumetrias se misturam, a loja forma surge com uma volumetria prismática simples e imponente. Suspensa sobre o estacionamento, a loja libera todo o terreno para manobras e estacionamento com vão livre de 30 metros. O volume suspenso é marcado por uma única janela linear, que possui altura perfeita para visão de quem passa de carro na avenida. A simetria e o peso dos elementos em composição com a escada leve e retrátil reforçam a ideia de um volume pesado demais para flutuar.

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“É neste momento em que começa a aparecer a maestria do arquiteto, pois forma e construção são resolvidas ao mesmo tempo, chegando a resultados de rara consistência. Ao contrário da maioria dos edifícios com que convivemos, aqui estrutura e forma se confundem a tal ponto que fica difícil definir qual é qual” (Edson da Cunha Mahfuz – em texto publicado no site http://www.vitruvius.com.br/)

Museu Brasileiro da Escultura - MUBE

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Passear pelo Mube é uma experiência de descoberta, apenas ao acessar o terreno você pode perceber o que significam realmente os 60 metros lineares de viga suspensa que projeta uma sombra no terreno. Adentrar ao edifício semi enterrado é descobrir o tesouro do museu, ali as obras se expõem sem excesso de luz. A sensação é sentir-se entrando em uma caixa de tesouros enterrada.

Ao criar o museu semi enterrado, Paulo Mendes libera toda a área do lote que se apresenta como praça. O edifício se mostra pouco, o pórtico marca o acesso como o arquiteto queria: “uma pedra no céu”. A pequena variação entre altura da viga e vão causa a impressão de que a viga pressiona o ar para baixo, direcionando o olhar para o acesso do museu, acesso que só aparece de determinados ângulos do terreno, sobre formas pontiagudas que rebatem o desenho do lote.

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Pinacoteca do Estado de São Paulo

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Afim de dotar o edifício de toda a infra-estrutura necessária técnica e funcionalmente ( como elevador, sanitários, rede elétrica e ampliação de áreas de serviço) a pinacoteca foi submetida a uma reforma que começou em 1993, e foi desenvolvido por Paulo Mendes da Rocha, juntamente com os arquitetos Eduardo Colonelli e Welliton Torres.

A pinacoteca talvez seja o projeto mais sutil de Paulo Mendes, pois ali existe um tamanho respeito com o existente, com a história marcada nas paredes gastas em tijolo e pelo projeto original de Ramos de Azevedo construído entre 1897 e 1900. Tudo o que foi alterado pelo arquiteto fica evidente, Paulo Mendes faz questão de destacar suas interferências e dessa forma valorizar o original. Vigas metálicas contrapõem com paredes antigas revelando minuciosamente o novo e valorizando o antigo. Os arquitetos dispuseram coberturas planas em estrutura metálica e vidros que pousam levemente sobre as paredes de alvenaria.

“Como se pode gerar uma obra de arquitetura que parta do essencial da preexistência e, no ponto zero de simplificação, faça uma leitura atenta dos aspectos que o velho conclama para instituir um diálogo simultâneo e necessário com o novo, um discurso atual que transforma a Arquitetura em uma resposta adequada ao momento contemporâneo, onde os aspectos da temporalidade não ficam presos às questões estéticas, éticas e morais de como conjugar dois tempos que, em verdade, não podem ser tomados como coisas diferentes, mas avança em seu comprometimento com a realidade que deve articular” (Fábio Müller em artigo publicado no site: http://www.vitruvius.com.br/).

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Capela em Recife

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Juntamente com Eduardo Colonelli, Paulo Mendes da Rocha desenvolve o projeto a partir das ruínas de um casarão do século 19. A intervenção que ocorre com o projeto é mínima e impecável, a capela é construída dentro da casca antiga do casarão, paredes em vidro são instaladas delimitando espaço de uso da capela e criando a sensação de interno e externo, ao mesmo tempo em que tudo se integra visualmente. A cobertura instalada acima das paredes não encosta nas mesmas, é sustentada apenas por dois grandes pilares. O projeto une leveza e peso, novo e antigo, opaco e transparência. Extremos que convivem, sem se tocar.

É inevitável dizer que Paulo Mendes da Rocha é o maior nome da arquitetura brasileira ainda vivo. O maior destaque fica para seus edifícios, que possuem personalidade e respeitam o entorno.


Valéria Piassi

Arquiteta e sonhadora. Gosta de colecionar sorrisos, amigos, livros e músicas prediletas..
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