Valéria Piassi

Arquiteta e sonhadora. Gosta de colecionar sorrisos, amigos, livros e músicas prediletas.

Somos arquitetos e queremos reformar o mundo

Pequenas divagações sobre a necessidade da arquitetura nas nossas vidas


kobra-g.jpg Grafite de Eduardo Kobra em São Paulo

De alguma forma, eu sigo acreditando que a arquitetura pode melhorar a vida de muita gente. Porque eu sei que se minha sala de trabalho fosse mais iluminada e arejada eu poderia ter um maior rendimento e melhores sensações enquanto projeto. Eu sei que alunos que possuem espaços organizados e conservados podem realizar tarefas melhores e se concentrar com mais facilidade. Eu sei que espaços médicos poderiam acolher melhor os pacientes se fossem planejados para isso. Sei que as paredes cegas da cidade de São Paulo ficam muito melhores com a arte do Eduardo Kobra. Sei que um lugar digno de moradia exige pelo menos um pouco de arquitetura.

E apesar de saber que nem tudo pode ser resolvido com uma janela maior ou um pouco de tinta, ainda acredito que algumas coisas podem ser melhoradas com um bom projeto e pequenas interferências artísticas. Porque às vezes quando as coisas vão mal qualquer melhora é bem vinda, não é mesmo?

E isso não gira apenas ao redor da arquitetura, a poucos dias atrás conheci a história da Rafaela Silva, judoca e medalhista de ouro nas Olimpíadas do Rio de Janeiro. A medalha teve ainda mais valor do que podemos imaginar porque ela é uma jovem que nasceu e cresceu na Cidade de Deus, e conheceu o judô através de um projeto social, o Instituto Reação, montado na Cidade de Deus pelo ex-atleta Flávio Canto, foi o bastante para que ela encontrasse um motivo pelo qual batalhar.

1659959-rafaela-silva-conquistou-a-primeira-meda-950x0-2.jpg Rafaela Silva emocionada após receber medalha

Não é fácil enxergar relação entre a arquitetura e judô, mas existe relação direta entre o que ambos podem mudar na vida de alguém. Esporte, artes, música e até mesmo a arquitetura podem sim interferir em uma vida que tinha tudo pra seguir rumo predeterminado. Quantas Rafaelas, Josés, Lucas e Luizas existem por aí e dependem de um projeto desse tipo para ocupar os dias, para aprender a valorizar o coletivo e até mesmo encontrar mais sentido pra vida.

Mas só é possível oferecer o que possuímos, e eu tenho a arquitetura e essa vontade imensa de reformar o mundo. Por um tempo achei que essa vontade era só minha, mas a vida me apresentou outros tantos que sonhavam junto comigo. Comecei a pesquisar projetos por aí que possuíam o único intuito de fazer bem para as pessoas e comunidades menos favorecidas.

Conheci o Teto, projeto que une voluntários de todo país para edificar pequenas casas para quem não tem espaço digno de moradia. Conheci o trabalho de Diébédo Francis Kéré, que mesmo possuindo um escritório renomado em Berlim, movimenta um trabalho coletivo em sua comunidade de origem localizada em Burkina Faso na África. Conheci o trabalho do Coletivo PAZ/ PAREDES ART ZONES um projeto artístico com a proposta de reunir artistas grafiteiros e estudantes de escolas públicas cariocas para a realização de oficinas de graffiti que resultarão em afrescos e painéis comuns nos muros das escolas públicas. Conheci a Architecture For Humanity que é uma das maiores organizações sem fins lucrativos da atualidade e trabalham há mais de 15 anos entregando serviços de arquitetura, planejamento e gestão de projetos, incluindo a gestão da construção e análise pós ocupação. Conheci uma pessoa que um dia me disse que as pessoas querem ajudar, só não sabem como. E outra que me disse que era possível tornar algo que começasse pequeno em um projeto grande ao longo do tempo.

Teto.jpg Equipe Teto

open-uri20140731-28893-14vpu90.jpg Equipe Architecture For Humanity

Em nossa primeira tentativa para desenvolver um coletivo de pequenas intervenções arquitetônicas e artísticas, fomos até uma escola para visita e análise. Foi ali que ouvi a frase de uma professora que me prova todos os dias que espaços de qualidade colaboram para o bem comum: “Todas as noites quando eu me deito fico pensando em como melhorar a estrutura dessa escola, mas não consigo achar meios..eu tenho a minha casa a minha família, mas passo parte do meu tempo aqui e gostaria de trabalhar em um lugar agradável"

Foi o suficiente para entender que sozinha é impossível mudar o mundo com a arquitetura, mas existem outras pessoas que estão dispostas a participar, colaborar. Pessoas que estão dispostas a superar a dificuldade e as divergências de pensamento para chegar ao amor, amor pela profissão, amor pela mudança e porque não, amor pelo coletivo.


Valéria Piassi

Arquiteta e sonhadora. Gosta de colecionar sorrisos, amigos, livros e músicas prediletas..
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