Valéria Piassi

Arquiteta e sonhadora. Gosta de colecionar sorrisos, amigos, livros e músicas prediletas.

Eu arquiteta e a busca pela ética

De um lado você tem a lei, o conhecimento técnico e a vontade de realizar arquitetura de qualidade, mas do outro o cliente tem o seu próprio sonho, o seu gosto estético, o conselho do pedreiro, o pitaco do parente que veio visitar e deu uma olhadinha no projeto.


Thumbnail image for youngset-county-architect-jpg.jpg

Enquanto arquiteta, acredito que posso ter valores distintos de outros profissionais de áreas distintas, acredito ainda que possuo mais conhecimento sobre determinados assuntos do que as demais pessoas (da mesma forma profissionais da área da saúde possuem conhecimentos específicos que eu não tenho, e assim para todas as áreas). Trabalhar com ética significa que não posso omitir meus valores e nem mesmo o conhecimento que domino, assim quando eu nego colocar em prática um conhecimento sobre arquitetura ou construção considero estar cometendo uma falta ética. Exemplificando, eu sei quais são as leis de zoneamento de minha cidade. Sei da necessidade de se respeitar recuos, aberturas de ventilação e demais normas técnicas que variam de acordo com cidades e bairros. Mas meu cliente - o proprietário do lote e aquele que vai me remunerar - não sabe. Não apenas ele não sabe, como ele não compreende a necessidade de tantas leis e proibições.

Eu domino o conhecimento, e assim a melhor forma de analisar, a posição para cada ambiente de acordo com o trajeto solar, mas meu cliente não conhece essas necessidades, e corre o risco de desvalorizar esse estudo, perante outros desejos que ele possui para o projeto.

A profissão de um arquiteto muitas vezes não possui a devida valorização, às vezes é difícil convencer uma pessoa de executar segundo nossas especificações, ou até mesmo de acreditar em nossas justificativas. Imagine ir a um médico cardiologista, e após realizar exames ouvir dele um comando de mudança de hábito, pelo bem da sua saúde. Imagine ir a um advogado e ouvir dele um conselho para que você não tenha determinados problemas com um processo. O mais provável é que a maioria das pessoas tentaria seguir esses conselhos. Mas na arquitetura não funciona assim. É apenas uma casa, é apenas o gosto do arquiteto, é apenas uma janela pequena, é apenas uma lei que não precisa ser seguida. Afinal, quem não sabe como funciona sua própria casa? Basta pegar uma régua e papel e com poucos traços qualquer um pode desenhar o que considera importante.

Desta forma a busca pela ética profissional torna-se uma espécie de guerrilha constante, de um lado você tem a lei, o conhecimento técnico e a vontade de realizar arquitetura de qualidade, mas do outro o cliente tem o seu próprio sonho, o seu gosto estético, o conselho do pedreiro, o pitaco do parente que veio visitar e deu uma olhadinha no projeto, o palpite do amigo que construiu a pouco e claro, o dinheiro que não pode ser gasto de qualquer forma.

Profissionais ruins existem aos montes, mas e quando queremos ser bons? Um bom profissional de verdade, não daqueles que fazem tudo o que o cliente quer, mas um arquiteto que transforme espaços ruins em ambientes de qualidade, que melhore condições de vida e saúde ambiental, que respeite as leis da cidade pelo bem do coletivo e do crescimento urbano. Como beneficiar alguém quando ele não está disposto a acreditar? Como fazer com que acreditem nos estudos que embasaram o plano diretor de uma cidade? Como convencer alguém de operar o coração quando ele acredita que está tudo bem?

Muitas vezes chegamos ao ponto de receber apenas para concordar com o cliente, meros desenhistas. Até contrato quebrado eu já tive, apenas porque minhas opiniões técnicas iam contra o que acreditavam. Além disso, comumente encontramos falhas de caráter que complicam ainda mais as situações, acontece quando alguém te questiona sobre determinada casa que está fora dos padrões da cidade e ainda assim recebeu papelada de aprovação, acontece quando (mesmo sabendo estar em desacordo com a lei) alguém resolve construir e depois dar um jeitinho, acontece quando alguém finge que a insolação do quarto não será importante para a vivência do bebê.

Acontece o tempo todo e acredito que em todas as profissões, mas a tentativa de ser um profissional de verdade torna-se exaustiva no campo da construção, principalmente quando falta tanta informação para as pessoas. Às vezes em meio a correria dos dias existe a possibilidade de esquecer de tudo aquilo que aprendemos como essencial, e quem sabe se render a boa e velha arquitetura comercial que consegue ser bonita e deixar o cliente feliz (pelo menos de inÍcio). Acredito que muitos colegas de profissão tenham caminhado para esse lado, e respeito como quem muitas vezes já se permitiu pensar nessa possibilidade. Felizmente, não é assim que pretendo seguir meu caminho profissional, eu ainda prefiro perder projetos e tentar ao máximo evidenciar o que é melhor para o morador, para o coletivo, para a cidade. Eu ainda prefiro acreditar em uma arquitetura de qualidade onde valha a pena investir o dinheiro do cliente de forma coerente. Eu ainda prefiro acreditar que o belo (apesar de relativo) faz bem aos olhos. Eu ainda prefiro tentar instruir e permitir que todos entendam sobre a importância de um ambiente de qualidade.

Assim, quem sabe um dia as pessoas nos procurem e valorizem como deveriam. Não, não entendemos de tudo, não sabemos de todas as coisas, mas se tem um profissional apto a te projetar uma residência de qualidade, com ambientes que cumpram seu papel de forma eficiente, é sim o arquiteto. Mesmo que te digam que não precisa, que um arquiteto é apenas luxo ou que o papel pode facilmente ser suprimo pelo sobrinho que sabe desenhar no CAD, com o cara que entende de Sketch up ou até mesmo com outros profissionais sem nenhuma especialidade na área de projeto arquitetônico. É como dizem, se alguém precisa tratar o estomago vai procurar o gastroenterologista e não o Neurologista.

Talvez, um dia nosso Conselho (Conselho de Arquitetura e Urbanismo) tenha tanta força como o OAB ou CRM, talvez um dia a gente consiga instruir melhor e mais sobre a necessidade de leis de zoneamentos e regras para a construção e sobre a importância. Talvez um dia as pessoas comecem a compartilhar imagens sobre moradias adequadas da mesma forma que compartilham sobre saúde do corpo. Mas enquanto isso não é possível, nós simples arquitetos e sonhadores, seguimos tentando compatibilizar o eu arquiteto, o eu profissional e o eu ético.


Valéria Piassi

Arquiteta e sonhadora. Gosta de colecionar sorrisos, amigos, livros e músicas prediletas..
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/arquitetura// @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Valéria Piassi