Valéria Piassi

Arquiteta e sonhadora. Gosta de colecionar sorrisos, amigos, livros e músicas prediletas.

Arquitetura e o ego


livraria-mar-ondas-3.jpg Livraria construída na China - Projeto por MVRDV

A arquitetura quer exibir-se, ou exibir algo. Uma ideia, uma crítica, um sentimento. O que ela não faz é apenas existir. Nesse quesito tem intensa relação com todas as grandes artes, é assim no cinema, literatura e artes plásticas. E mesmo quando seu desenho arquitetônico tem toda a simplicidade e intenção de apenas destacar a função, ela ainda assim está direcionada a expressar algo com isso. Sem a expressão arquitetônica voltaríamos a tão antiga e conhecida ideia da cabana primitiva.

Podemos entender que a arquitetura possui relação e semelhança com todas essas artes citadas, mas talvez seja a única entre essas elas que seja totalmente bilateral no ponto de vista da criação e de decisões a serem tomadas, isso porque existem dois lados para expor seu ego e nesse caso é preciso grande esforço para criar um equilíbrio, de um lado o dono do projeto e de outro o proprietário do edifício construído, aquele que custeou a obra e contratou o arquiteto.

E não existe outra forma de definir essa vontade de decidir o projeto, a forma, a função, o conceito, do que um pouco (ou muito) de ego. Arquitetura é construir uma obra de arte que protege vidas, não é uma coisa qualquer para passar assim despercebida.

“É o meu projeto, o meu conhecimento, o meu nome, a minha responsabilidade técnica”.

“Mas é a minha casa, o meu dinheiro, a minha família”.

Muitas vezes acontece do proprietário contrariar uma ideia, apenas para dominar a situação. Muitas vezes acontece do arquiteto esquecer que alguém vai viver ali. Muitas vezes o arquiteto vira desenhista seguindo ordens de alguém que não sabe o que está fazendo, segue ordenando desenhos de colagens do que acha bonito - “ a minha casa precisa ter a minha cara”. Podia bem o arquiteto entender qual é essa “cara” que o cliente tanto quer, sem ter que compor colagens de vários outros projetos que no final não se encaixam.

Meros desenhistas, é assim que alguns acabam sentindo em relação a determinados projetos. As frases: Muda aqui, inverta esse ambiente, quero assim, vi assim, e várias outras mais definem uma forma autoritária de colocar o arquiteto em um cargo que muitas vezes não é o dele.

Talvez o ponto mais difícil seja entender qual dos dois lados possui mais peso em decisões, qual ego pode definir mais? O que possui o domínio técnico ou o que paga e depois ocupa o espaço? Poderíamos dizer que é preciso existir um equilíbrio, e é verdade, essa é a busca de grande parte dos profissionais. Mas daí até a prática dessa ideia existe um precipício de distorção.

Saber que somos do mesmo time, e que o jogo caminha para o mesmo lado é um sinal de grande controle em um projeto e facilita qualquer desenvolvimento de projeto, e definitivamente qualquer etapa de construção. Não vamos nem mesmo entrar aqui no quesito mão de obra de construção, nossos parceiros que também são desse time – apesar de muitas vezes não ficar claro. Facilitaria tanto entender que nessa tarefa cada um tem seu papel a cumprir, e se existir entre arquiteto e cliente uma relação verdadeira de troca de informações é possível que o projeto englobe as necessidades de ambos de forma equilibrada.

A omissão e a falta de organização do nosso grupo profissional talvez colabore com isso, falta muita informação ainda. Muito do interesse popular também, não é algo que as pessoas parem para ouvir ou ler. Mas lá no fundo, existe uma coisinha chamada ego. Porque arquitetura não é apenas técnica, é arte também. Ela expressa algo, pode ser formal ou não. E o proprietário também quer expressar, ele tem direito inclusive, pois vai ocupar aquele espaço. Seriamos assim contratados para representar a expressão dele? Nesse caso nosso papel é deixar um pouco o nosso próprio ego de lado e pensar no do proprietário.

Esse texto não tem intenção nenhuma de responder isso, até porque essa resposta eu não tenho. É apenas uma forma de expressar todas as dúvidas e inquietações que a profissão e os dias de projeto e obra tem me dado durante esses anos.


Valéria Piassi

Arquiteta e sonhadora. Gosta de colecionar sorrisos, amigos, livros e músicas prediletas..
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