Carolina Saula

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Satã é a metáfora do homem

Longe do livro que adolescentes leem no cemitério enquanto bebem vinho barato e fazem rituais com ketchup, a Bíblia Satânica de La Vey diz muito mais da natureza humana do que pensamos. Natureza que degradou-se ao ponto de esquecermos os dogmas cristãos para voltarmos ao que somos em essência: demônios devoradores e pensantes.


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Fausto fez o pacto com o diabo, e isto mudou totalmente o mundo pós-moderno. Exaustivamente o diabo, satanás, belzebu, baphomet, e para os mais íntimos, satã, faz parte do imaginário humano e de crenças populares. Mas desde a peça de Goethe o homem tem se aproximado do mito e aos poucos passa a excluir a fantasia acerca do anjo de chifres. Isso justifica-se pois de certa forma o homem firmou seu pacto com o diabo.

Longe do Goethe de 1800, houve uma figura singular no mundo moderno que experimentou dissertar sobre a dicotomia entre bem e mal, deus e o diabo sob uma nova perspectiva: a de que todos estes conceitos cristãos são ilusórios, e que para alcançar a perfeição o homem deve ser o animal mais forte em seu meio. Era de se esperar um pensamento destes durante o final dos anos 60. A contra-cultura era evidente tanto nos cinemas quanto na escrita, e o crescimento econômico e exclusório se fazia, e ainda se faz, como a grande peste social. Não é mais o demônio que mata, é a fome. Não é mais o mal que assombra uma família desvalida, é o capitalismo. A indulgência de Cristo foi extinta.

Este alguém era Anton Szandor LaVey, autor da Bíblia Satânica. Para ele, o homem é o único responsável por seu sucesso ou fracasso, mas para alcançar o êxito deve massacrar os mais fracos. Por trás dos capítulos sobre rituais de invocação e sexo satânico há a essência de preservação, de busca pelo auto-conhecimento e sabedoria para lidar com qualquer adversidade. Logo de início deparamo-nos com os seguintes ensinamentos:

Satan representa sabedoria pura, em vez de hipócrita auto-ilusão Satan representa bondade para aqueles que a merecem, em vez de amor desperdiçado aos ingratos Satan representa vingança, em vez de virar a outra face! Satan representa responsabilidade para o responsável, em vez de relacionamentos com vampiros psíquicos!

Não é de se surpreender que possamos transpor tais doutrinas para nosso cotidiano. A eterna busca por erudição; as vezes que pensamos se o ato bondoso será recompensado; a dor de uma ilusão; a vingança, em menor ou maior grau, para quem nos fere. La Vey cita vampiros psíquicos, que são pessoas que sugam o que temos de melhor a oferecer, seja luz, energia vital, paz interior, bom humor ou otimismo. Não é necessário dizer que diversos relacionamentos são rompidos por serem abusivos e controladores, ou que a falta de energia é repetidamente discutida nos consultórios de terapia espalhados nas grandes cidades.

Há ainda um capítulo sobre direcionar pensamentos a uma causa, o que obviamente leva a uma consequência. Ou seja, é possível matar alguém, se assim você o desejar. Ou passar em uma entrevista. Qualquer familiaridade com as galinhas mortas em encruzilhadas e placas com escritos trago dinheiro e felicidade é mera coincidência.

Abram seus olhos para que possam ver, Oh homens de mentes confusas, e escutem a mim todos os milhares de incertos! Pois eu me ergo para desafiar a sabedoria do mundo; para interrogar as "leis" do homem e de "Deus"! Para o Norte e para o Sul eu faço um sinal proclamando: Morte aos fracos, riquezas para os fortes!

O novo século é o poder do diabo. É o momento dos fortes, que massacram os fracos. É a mente gananciosa do empresário, a casa miserável do pobre. É daquele que muda em função dos próprios interesses, não é mais em chifres que ele acredita, é no dinheiro. Não teme a morte, e a vê com frequência nas ruelas esquecidas pelos passantes.

Satã é o próprio homem.


Carolina Saula

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