arte mestre

Quando a arte ensina a viver.

Emerson Pinheiro

Melhor que ouvir a música, ler o livro e ver o filme: perceber que eles têm tudo a ver com o nosso cotidiano

A dura infância de Eric, antes do fenômeno “Clapton is God”

Obstáculos superados por Eric Clapton desde a sua infância, retratada em sua Autobiografia, revelam o lado humano do artista reverenciado no mundo inteiro e nos fazem perceber que, no fim das contas, importante na vida são os sentimentos profundos e verdadeiros de quem faz questão de estar próximo.


Recentemente, Eric Clapton completou 70 anos de idade.

Um dos guitarristas mais admirados no mundo, é reverenciado por sua virtuosidade musical e por sua ilimitada capacidade de compor trilhas sonoras que embalam momentos felizes, tristes, românticos e às vezes amargos.

Apesar de ter seu nome mais associado ao “rock’n roll”, é referência no “blues” e frequentemente incursiona com sucesso no “reggae”.

É o que a maioria dos leitores, senão todos, já sabe sobre ele.

Mas, em 2007, Clapton publicou sua Autobiografia (Editora Planeta do Brasil) e não abriu mão de revelar circunstâncias extremamente íntimas e sensíveis, inclusive sobre a sua infância.

Clapton nasceu em 30 de março de 1945, em Ripley, pacata cidade do interior da Inglaterra. Era de família considerada pobre e a economia era problemática, em decorrência da Segunda Guerra.

Cresceu supondo ser filho de quem chamava de pai e mãe: Jack e Rose Clapp.

Ouvia falar de sua irmã mais velha, Patricia, com a qual não tinha contato.

Ainda criança, percebia que era tratado como um “ser especial”, protegido de alguns assuntos e sentia-se, muitas vezes, mimado pela família, como se ele merecesse uma espécie de compensação.

A origem disso, para o pequeno “Ric” (como era chamado em casa), assumia ares misteriosos. Esse tom de mistério se desfez aos poucos, mas ainda durante a sua infância, quando Eric passou a desvendar os significados de algumas conversas entre seus familiares.

Também em razão da Segunda Guerra, em 1944, a Inglaterra fora tomada por tropas canadenses. Entre os estrangeiros, o aviador Edward Fryer. Além de pilotar aviões, Edward era habilidoso com o piano. Em uma noite na cidade de Ripley, exibiu seu talento musical em um bar, onde conheceu Patricia, filha de Rose Clapp, com apenas quinze anos de idade.

Edward era casado e abandonou Patricia ao saber da sua gravidez.

Logo após o parto, Patricia deixou a cidade e o recém-nascido com seus pais, Rose e Jack, que o criaram como se fosse seu filho.

Isso explica a identificação inicial de Patricia, como sua irmã (quando, na verdade, era sua mãe), e a de Rose e Jack, como seus pais (seus avós). Ao saber da sua origem, Clapton fechou-se em si mesmo.

Do seu ponto de vista, sua família não poderia ter escondido a verdade e, menos ainda, ter decidido, autoritariamente, de que maneira essa questão seria tratada, deixando-o de fora de qualquer discussão a respeito.

A essa altura, Clapton tinha apenas entre seis e sete anos.

Apesar da pouca idade, foi capaz de compreender que sua família foi levada a agir dessa maneira devido a um sentimento de culpa, que ela mesma tinha desenvolvido, em função da raiva e do constrangimento de ter que conviver com a “verdadeira verdade”, sem ter ideia de como fazê-lo, senão escondendo tudo do pequeno “Ric”.

Eric compreendia melhor sua situação, mas ainda sentia-se isolado, solitário em seu próprio ambiente familiar.

Apegou-se ao seu labrador, “Prince”, e criou um personagem imaginário, “Johnny Malingo”, que incorporava nos momentos mais angustiantes.

O personagem “Johnny” foi projetado como um menino do tipo “cidadão do mundo”, mais leviano e corajoso que a média. “Ric” incrementou sua invenção com a criação do cavalinho “Bushbranch”, seu companheiro de aventuras quando encarnava o destemido “Johnny”.

Assim, Eric criou momentos de pura ilusão, para fugir de uma realidade na qual ele não se encaixava.

Quando ele tinha nove anos de idade, Patricia reapareceu casada e com dois filhos.

Intimamente, Eric esperava que sua mãe desembarcasse arrependida por tê-lo abandonado desde o nascimento, tentando reaver o vínculo perdido.

Foi assim que, durante um encontro da família, “Ric”, com o coração cheio de esperanças, perguntou para ela se poderia, finalmente, chamá-la de “mãe”.

Confirmando a personalidade fria e áspera percebida por Eric desde a sua chegada, Patricia respondeu “não” e recomendou a seu filho que continuasse tratando seus avós como seus verdadeiros pais, em reconhecimento ao que já tinham feito por ele.

Nos dias seguintes, Eric não reagiu bem. Ficou frustrado, irritado, e chegou a destratar Patricia. Sentiu-se rejeitado.

Mas, em dado momento, Clapton percebeu que se tratava de um indivíduo especialmente agraciado. Afinal, devido àquelas circunstâncias que pareciam desastrosas, ele havia recebido uma atenção e um afeto de toda a família que jamais teria, mesmo que sua mãe estivesse por perto.

A verdade então constatada por ele foi que, justamente por Patricia estar longe e demonstrar pouco afeto por seu primeiro filho, todo o restante da sua família havia compensado isso com sobras.

Rose e Jack (ao longo da Autobiografia, Clapton prefere identificá-los pelos nomes, em vez de chamá-los de avós ou pais) haviam dado ao neto muito mais carinho que ele já havia observado, em outros lares, entre pais e filhos.

Além disso, Clapton conta que, apesar da infância pobre, costumava receber de Rose e Jack os melhores presentes, a ponto de causar inveja em seus amigos.

Percebeu o lado positivo de ter sido tratado como um “ser especial”. Com exceção de sua mãe, o restante da família desejava o seu bem e estava sempre presente.

Era isso que importava para Eric.

Reconhecendo, ainda criança, o valor de sentimentos verdadeiros e profundos, ele iniciou a superar o primeiro obstáculo que a vida colocou à sua frente.

Obviamente, sua Autobiografia retrata várias outras dificuldades que atravessaram a sua carreira e a sua vida pessoal.

Na narrativa autobiográfica de Clapton, as agruras de sua infância são contadas em breves páginas, introduzindo diversas histórias – não menos interessantes – sobre seu extraordinário sucesso musical e revelando suas influências, seus parceiros, suas decepções, suas conquistas, perdas traumatizantes, romances passageiros e duradouros, etc.

A obra retrata também o seu envolvimento quase fatal com diversos tipos de drogas e a dimensão da dor sentida ao perder um filho de tenra idade, e como esta tragédia, de alguma maneira, foi definitiva para que Eric Clapton esteja até hoje vivo e muito ativo, para o deleite de quem não abre mão de boa música.

Também é muito clara a influência desses acontecimentos em sua vasta produção musical (e sobre isso pretendo escrever aqui em breve). Em meados dos anos 1960, extasiados com a virtuosidade de Eric, fãs pichavam em diversos muros de Londres a inscrição “Clapton is God”.

Claro. Ele é, sim, um “Deus”. Pode ser assim considerado em relação à música em geral, ou à guitarra, ou ao “rock”, ou ao “blues”...

Mas, de fato, ler sua Autobiografia nos faz compreender melhor Eric Clapton como ser humano.

Para além de sua produção artística, é possível vê-lo como alguém que valoriza sentimentos profundos e verdadeiros e faz deles a essência de sua vida e a matéria-prima de sua arte.

Se não for assim, melhor nem subir no palco. Clapton is god.jpg


Emerson Pinheiro

Melhor que ouvir a música, ler o livro e ver o filme: perceber que eles têm tudo a ver com o nosso cotidiano.
Saiba como escrever na obvious.
version 3/s/musica// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Emerson Pinheiro