arte mestre

Quando a arte ensina a viver.

Emerson Pinheiro

Melhor que ouvir a música, ler o livro e ver o filme: perceber que eles têm tudo a ver com o nosso cotidiano

A superbanda de rock que, a sua maneira, ajudou a romper a barreira diplomática entre Cuba e Estados Unidos.

No final de 2014, os governos norte-americano e cubano anunciaram suas intenções de reaproximação diplomática, mas uma superbanda de rock, de certo modo, faz parte dessa história.


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Historicamente, a grave divergência política entre Cuba e Estados Unidos gerou rígidas restrições para o intercâmbio musical.

De modo resumido, essa ruptura remonta à década de 1950, quando os Estados Unidos apoiaram o governo de Fulgêncio Baptista, em Cuba, contra o grupo revolucionário então liderado por Fidel Castro, e o rompimento entre os países ganhou ainda mais força depois da Guerra Fria.

Muito tempo passou e, em 17 de dezembro de 2014, Estados Unidos e Cuba anunciaram, publicamente, suas intenções de reaproximação diplomática.

O embrião dessa reabertura política entre os dois países coincidiu com a negociação para a libertação de um americano, em Cuba, e a de três cubanos, nos Estados Unidos.

Obviamente, em geral, o anúncio foi comemorado, pois representa a idealizada união entre os povos.

Acontece que um fato relacionado à música, quase uma década antes desse anúncio oficial, já havia sinalizado para essa tão desejada aproximação.

Em 2001, formou-se nos Estados Unidos a superbanda de rock Audioslave, composta por Chris Cornell (vocalista), Tom Morello (guitarra), Tim Commerford (baixo e backing vocal) e Brad Wilk (bateria). O primeiro era oriundo do Soundgarden, e os três últimos, ex-integrantes do Rage Against The Machine.

A banda se desfez em 2007.

Mas, em 06 de maio de 2005, o Audioslave fez história na conturbada relação diplomática entre Cuba e Estados Unidos.

Depois de muitas negociações entre as autoridades dos dois países, o Audioslave foi autorizado pelo Instituto Cubano da Música e pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos a realizar o primeiro show de uma banda norte-americana, a céu aberto, em solo cubano.

Havia muita tensão no ar.

Os integrantes da banda haviam sido alertados pelas autoridades americanas sobre possíveis perseguições ou intimidações, que poderiam sofrer por pessoas ligadas ao governo local.

Além disso, era muito imprevisível a maneira como o público cubano reagiria.

O próprio local escolhido para o show indicava o motivo para tanta preocupação: a Praça Anti-Imperialista, em Havana. Justamente o lugar onde os cubanos costumavam se reunir para protestar contra os Estados Unidos.

A apresentação foi registrada no DVD Audioslave Live in Cuba (Epic Music).

Assistindo ao show, é possível perceber que, embora, na essência, a ida da banda tivesse a ver com a música, a iniciativa do Audioslave, obtendo o apoio conjunto das autoridades de cada país envolvido, significou um dos primeiros passos para a reaproximação recentemente anunciada.

Afinal, era uma banda muito famosa, que já tinha emplacado diversos hits pelo mundo inteiro, mas, por ser norte-americana, era completamente desconhecida pelos cubanos. E o governo norte-americano não autorizava bandas locais a se apresentarem em Cuba.

Mesmo assim, calcula-se que mais de 75 mil cubanos compareceram ao show.

Um público extremamente empolgado com o acontecimento, aplaudindo a banda a todo instante, gritando, balançando a cabeça... sem conhecer as letras das músicas que o resto do mundo conhecia.

Quando chegava o momento dos refrões, em vez de acompanhar a banda, o público intensificava os aplausos, procurando alguma conexão com o Audioslave (e essa conexão acontecia).

Fica claro, então, que a banda foi recebida como simples músicos que estavam em Cuba apresentando o resultado de sua arte, e não como simpatizantes da política praticada na ilha ou no seu país de origem.

Portanto, praticamente uma década antes do anúncio público oficial, o primeiro passo para o rompimento das históricas e gravíssimas barreiras diplomáticas e comerciais existentes entre Estados Unidos e Cuba foi dado pela música, por uma superbanda de rock norte-americana, prestigiada por uma multidão empolgada que, antes do show, não fazia nem ideia do repertório que seria apresentado.

No mínimo, uma lição de tolerância para o mundo e da forte influência positiva que a arte tem em nossas vidas.

“O que é a tolerância? Trata-se de uma prerrogativa da humanidade. Estamos todos imersos em erros e fraquezas: perdoemo-nos reciprocamente as nossas tolices, eis a primeira lei da natureza.” (Voltaire, 1764).

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Emerson Pinheiro

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