arte mestre

Quando a arte ensina a viver.

Emerson Pinheiro

Melhor que ouvir a música, ler o livro e ver o filme: perceber que eles têm tudo a ver com o nosso cotidiano

Dia de Revanche

Uma projeção ficcional e descontraída sobre o futuro de nossa sociedade e o "novo normal" que nos espera, tendo como pano de fundo um dos fatos mais marcantes da história do futebol mundial


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Estamos em Berlim, ano 2050, vivenciando a final da Copa do Mundo da Alemanha, onde experimentamos um momento espetacular, extraordinário, único. Por várias razões.

Desde a longínqua década de 20, a humanidade tem enfrentado consecutivas pandemias, que já provocaram milhões de mortes ao redor da Terra, obrigando todos a aceitar o isolamento social para conter a expansão de doenças.

Também por isso, ao longo das últimas décadas, diversas competições foram suspensas e até mesmo canceladas, evitando a exposição de torcedores e profissionais envolvidos com o esporte.

Consola-nos estarmos em 2050. Após inúmeros estudos, cientistas geniais – você certamente já os conhece, pois se tornaram celebridades – desenvolveram tecnologia capaz de substituir o ser humano em suas atividades, das mais básicas às mais complexas, projetando robôs que se assemelham inclusive fisicamente a seus humanos-proprietários, além de serem dotados das mesmas habilidades e inteligência.

Finalmente, as tarefas mais árduas e perigosas podem ser executadas por um avatar. E nas últimas décadas, infelizmente, até mesmo sair à rua tem sido ameaçador para a vida humana. Quando não estamos ameaçados por um vírus ou uma bactéria mortal, estamos expostos a assaltos, a acidentes de trânsito, a tragédias humanas de toda ordem. Por isso, trilhões de dólares foram investidos, ano após ano, pelos governos de todo o mundo, financiando a produção em larga escala de humanoides.

Nosso dia-a-dia está garantido, com um nível de segurança jamais experimentado. Não precisamos nem ir a supermercados ou farmácias. Nosso avatar nos substitui, deixando-nos em casa, tranquilos, serenos e sadios.

No futebol, algumas Copas do Mundo foram realizadas, outras não. A de 2050, que atingiu seu ápice na final de hoje, foi realizada graças ao emprego dessa nova tecnologia, tendo a FIFA permitido que as seleções formassem suas equipes com humanoides inspirados em seus jogadores atuais e do passado.

Que momento para celebrarmos! Além de todo esse avanço tecnológico que nos põe a salvo de todas as ameaças conhecidas, chegaram à final da Copa do Mundo de 2050 as únicas seleções hexacampeãs: Brasil e Alemanha. Inesquecível a última conquista brasileira, em 2022, quando Éverton, o “Cebolinha”, que se tornou o comentarista de futebol mais respeitado por todos, anotou aquele golaço contra a Argentina de Messi e Di Maria, garantindo a sexta estrela.

De lá para cá, não frequentamos outras finais e, francamente, não podemos colocar a culpa nos vírus, nem nas bactérias, tampouco na violência urbana. Afinal, não voltamos a formar elencos à altura de uma final de Copa do Mundo.

Mas agora, com o valioso auxílio dos humanoides autorizado pela FIFA, o Brasil montou, certamente, o melhor esquadrão de toda a existência humana. E com esse time fantástico chegamos à final da Copa do Mundo de 2050 contra a anfitriã Alemanha, engasgada desde o fatídico 7 a 1 de 2014.

Nas entrevistas concedidas antes e durante o torneio nenhum jogador brasileiro conseguiu esconder que o objetivo ia muito além de vencer a Copa do Mundo. Era, acima de tudo, devolver os 7 a 1. Teria mesmo chegado o dia da revanche? Não seria nada fácil, porque a Alemanha, que na semifinal bateu a fortíssima Argentina de Maradona e Batistuta, veio escalada com Maier, Lahm, Sammer, Beckenbauer e Brehme; Breitner, Kross, Matthäus e Overath; Müller e Klinsmann. Um 4-4-2 rigoroso, repetido e treinado, roboticamente, há mais de um século.

Já o Brasil... ainda estou me recuperando da semifinal contra a Itália de Zoff, Maldini, Meazza, Rossi, Baggio etc. Foi nos pênaltis! Neymar Jr., que entrou no segundo tempo, foi expulso após se desentender com o árbitro holandês Van Der Vildner. Não se sabe ainda o motivo do desentendimento. Experts em leitura labial afirmam que o jogador teria gritado “don’t touch me” em direção ao experiente árbitro, momentos antes de receber o cartão vermelho. O fato é que desfalcou a equipe na finalíssima.

Enfim, vamos à histórica escalação do Brasil para esse evento singular: Taffarel, Carlos Alberto, Bellini, Mauro e Nilton Santos; Zito, Falcão e Pelé; Garrincha, Romário e Ronaldo. Um clássico 4-3-3 que se transformava, com naturalidade, em um 4-2-4 extremamente destemido e impetuoso. Um time programado não apenas para ganhar, mas para exterminar o adversário, deixando-o sem fôlego desde os primeiros movimentos.

O renovado Estádio Olímpico de Berlim, não poderia ser diferente, teve 78,6% de seus lugares ocupados por fervorosos avatares-torcedores alemães que empunhavam, com orgulho, canecos transbordantes de chopes cremosos, amarelo claro, conservados em temperatura ambiente – como eles gostam.

Após o ingresso das equipes em campo, alguns bons goles de Erdinger e as solenidades de praxe, começou o embate futebolístico mais importante de toda nossa existência!

Os anfitriões fazem jus a seu papel e atacam, com extrema organização e seu típico show de jogadas ensaiadas. Antes dos primeiros 5 minutos, conseguem um escanteio no flanco direito. Lahm cobra o escanteio, curto, para Kross, que passa para Matthäus, na entrada da área. O volante alemão encontra Gerd Müller livre, na pequena área. Gol da Alemanha! Bem a seu estilo. Cada passo e cada passe calculados em seus mínimos detalhes.

Diferentes sentimentos passaram a assolar os torcedores brasileiros: desalento, tristeza, raiva, pânico, desespero, medo do meteoro que nunca vem...

Mas, aquele time brasileiro foi formado pelos melhores, de todas as épocas, de todos os lugares. Não fossem eles, quem mais estaria habilitado para buscar a tão esperada e merecida revanche?

A reação – eu já sabia! – foi imediata.

A seleção brasileira ataca vorazmente, com Pelé, na entrada da área defensiva alemã. Sem nem olhar para trás, ele passa a bola, macia e sem peso, em direção à lateral direita da área, de onde surge Carlos Alberto Torres, o “Capita”, disparando um tiro cruzado rasante. Sem chances para Sepp Maier. Tudo igual!

O escrete canarinho segue pressionando os anfitriões, que nesse momento adotam a estratégia de se defender – com extrema organização e empenho, como sempre fizeram. Ronaldo, o “Fenômeno”, recebe a bola na intermediária ofensiva e a carrega até a entrada da área, rompendo entre volantes e zagueiros, até que, sem opção, desfere um chute sutil, com o bico da chuteira, colocando a bola no único espaço existente entre o goleiro e a trave. Virada!

A torcida local incentiva e os onze germânicos não têm alternativa: partem para o ataque. Nilton Santos recupera a bola e a conduz, do campo de defesa até meia direita, onde está Garrincha, que a entrega para Falcão, o “Rei de Roma”, na entrada da área. Ele, inesperadamente, dispara de perna esquerda, estufando as redes alemãs. Mais um!

Assim como o placar, o moral passa a ser verde e amarelo. O estádio emudece, e o time local, tão admirado por sua frieza e disciplina, titubeia por um instante.

Do banco de reservas, salta o “Velho Lobo” Zagallo, que, percebendo a importância do momento, ordena a seus comandados: “Não parem! Quero o quarto gol antes do intervalo!”. Retornando ao banco, relembra aos reservas: “Dia da revanche tem treze letras, rapaziada!”.

De fato, ainda estávamos nos primeiros trinta minutos de jogo, havendo tempo suficiente para modificar o placar da primeira etapa.

Eis que Garrincha dribla três ou quatro vezes Beckenbauer – que, após a partida, ele chamou de João –, puxando a bola para a direita e cruzando na cabeça de Romário, na segunda trave. 4 a 1!

Durante o intervalo, as redes sociais são invadidas por mensagens de duzentos milhões de torcedores brasileiros (ou seja, metade da população total), formando uma quase unanimidade de que o correto seria controlar a bola e garantir a vitória. Mas não era mesmo uma unanimidade, pois o comentarista mais respeitado da atualidade, Éverton, o “Cebolinha”, cravou em sua prestigiada live: “estive com eles na concentração, eles não vão parar até fazer sete”.

E a seleção brasileira seguiu sua performance envolvente. Zagallo sabia que os alemães atacariam, deixando espaços. Pensando nisso, colocou Gerson, o “Canhotinha de Ouro”, no lugar de Falcão, para explorar sua habilidade em fazer lançamentos de média e longa distância.

A Alemanha também voltou para o segundo tempo com novidade, substituindo Breitner por Klose, ainda o maior artilheiro das Copas. Absorvendo o incentivo vindo da arquibancada, Klose carregou a bola, em velocidade, pelo campo ofensivo direito e, um passo dentro da área, foi derrubado por Nilton Santos, “A Enciclopédia”.

A memória dos avatares era invejável, pois não era afetada pelo excesso de cortisol e distúrbios de sono, problemas comuns aos humanos. Em uma fração de segundos, Nilton relembrou 1962 e andou dois passos para fora da área, deixando o árbitro ítalo-espanhol Pierluigi Montaña em dúvida sobre a penalidade a ser marcada. Inseguro, ele resolveu marcar falta fora da área, para a fúria dos robôs alemães presentes.

Ocorre que o NVAR – New Video Assistant Referee foi acionado e, após rever o lance em 6D, o árbitro voltou atrás e apontou o pênalti, em favor dos alemães.

Nada mais justo que Klose fosse o eleito para a cobrança da penalidade. Ele havia entrado em campo animado, tinha sofrido a falta e ainda poderia ampliar seu recorde.

Bola na cal. Tensão e silêncio espalhados pelo mundo todo. Klose dá quatro passos para trás e coloca as mãos na cintura, olhando fixamente para Taffarel, que saltita em cima da linha de gol. Klose corre e chuta forte no canto direito, mas Taffarel se espicha todo e consegue espalmar para a linha de fundo. “Sempre foi tua, Taffarel!” – bradou um narrador brasileiro extremamente empolgado, que trabalhava, isolado, em sua luxuosa mansão na Toscana.

Inevitavelmente, a seleção local voltou a baixar a guarda por alguns instantes e o quinto gol brasileiro veio em seguida. Romário foi desarmado na entrada da área e a bola sobrou no pé esquerdo de Gerson, que chutou forte, sem chances para Maier.

Não havia mais cartas nas mangas dos alemães, que, completamente abalados, ainda assistiram ao sexto gol, feito por Pelé após aplicar um chapéu em Sammer, dentro da área.

O mais extraordinário estava reservado para o final, quando Pelé, antes da metade do campo, desferiu um chute totalmente inesperado, fazendo a bola encobrir Sepp Maier, que estava adiantado, desnorteado. Desde então, vários jogadores, profissionais e amadores, tentam reproduzir o gol que Pelé fez.

Final de partida! É hepta! É hepta! É hepta! O Brasil é heptacampeão mundial! É revanche!

Vamos costurar a sétima estrela acima do escudo, com um asterisco vistoso e representativo deste feito que jamais será esquecido.

E depois?

Bem, depois é melhor permanecermos em nossas casas e nos concentrarmos em nosso cansativo – mas recompensador – "home office".

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Emerson Pinheiro

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