arthur silva

profissão: escritor - conserta-se vidas.

Arthur Silva

Mineiro, escritor, ex-pianista e apreciador da arte cotidiana que nos move

a genialidade por trás de iamamiwhoami

Através de vídeos experimentais, ritmos não-convencionais e letras enigmáticas, o projeto audiovisual sueco iamamiwhoami convida os seus admiradores a experimentarem um mundo sobrenatural onde o público é colocado diante o que é cantado através de séries audiovisuais que narram histórias e conceitos, criando uma identidade única.


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Tudo começou em 2009, quando blogueiros de sites musicais e formadores de opinião no meio artístico receberam links de teasers do Youtube que mostravam imagens intrigantes de uma mulher loira em um ambiente natural com árvores antropomórficas e cenas que tentavam passar uma mensagem. Os títulos dos vídeos não eram compreensíveis no primeiro momento: eram formados por sequências numéricas que, quando decifradas, formavam palavras que descreviam a temática do que era mostrado ao público receptor.

Todos se perguntavam quem estava por trás dos vídeos que rapidamente se transformaram em uma campanha viral. Palpites apontavam para várias artistas como Björk e algumas divas pop, sendo Lady Gaga e Christina Aguilera as mais cotadas. Foi só depois de algum tempo que descobriu-se ser a sueca Jonna Lee o rosto por trás dos vídeos que rapidamente ganharam visibilidade no meio artístico independente.

O primeiro álbum do projeto, intitulado ‘bounty’, nasceu através da mandrágora officinarum, figura da mitologia nórdica conhecida por seus efeitos medicinais e alucinógenos, sendo interpretada por Lee.

O álbum trazia elementos da natureza que retratavam uma visão artística simbólica, exigindo do usuário mais do que só ouvir e observar: era preciso entender o que se passava entre um vídeo e outro, entre os elementos que conectavam os videoclipes e perceber que a sonoridade, a estética e o cenário se uniam para firmar ideais e sentimentos que retratavam uma visão, ora naturalista-criativa, ora humanística cultural. ‘bounty’ rendeu à iamamiwhoami o Grammy sueco de inovador do ano em 2011.

Concluída a sequência de vídeos que deram origem ao primeiro álbum lançado em 2010, após um período hiato o projeto anunciava, em 2012, o seu segundo álbum ‘kin’.

Diferentemente de 'bounty', 'kin' trazia melodias melancólicas, uma estética visual pálida e sem muitos enigmas e simbolismos, além de letras sentimentais que tomavam o partido de narrarem uma história diferente da anterior, de certa maneira, mais humanizada.

O enredo da série audiovisual contava com forças da natureza agindo sobre o destino da personagem, cenários diferenciados – incluindo apartamento, estacionamento e até mesmo um deserto – e composições cuidadosamente pensadas para cada frame do que se via. O álbum foi aclamado pela crítica e é visto por grande parte dos fãs e admiradores como responsável pela melhor dentre as três eras do projeto.

Com o fim da segunda era ‘kin’, muitos se perguntavam o que viria depois. Foi só em 21 de janeiro de 2014 que os fãs foram surpreendidos por Jonna Lee e sua equipe que lançaram uma nova faixa acompanhada de um novo vídeo, intitulado ‘fountain’. Dava-se, então, início à terceira era de iamamiwhoami com o álbum ‘BLUE’.

O terceiro álbum do projeto compreende o mar como uma metáfora para o mundo digital, figurinos minimalistas e uma protagonista diferente das outras duas eras, esta por ser a própria Jonna Lee.

O conceito presente em ‘BLUE’ busca ilustrar as relações entre criador e público receptor, os riscos em assumir uma nova identidade e as dificuldades em seguir uma linha de produção diferenciada, visto que a indústria musical em muitos casos acaba podando ou limitando o processo criativo dos artistas, forçando-os à assumir a linha de consumo da música comercial.

O álbum se trata de uma viagem digital, tanto de Jonna Lee como do público que a acompanha, como também do projeto que vai se formando a partir de decisões, amadurecimento intelectual e a cultura participativa que os fãs estabelecem junto aos seus criadores.

Grande parte do público busca exatamente isso hoje em dia: não só o consumo imediato de uma música ou produto que fará parte do dia-a-dia, mas uma experiência que perdure nos momentos cotidianos. Algo que faça parte daquilo que somos, do que vivemos e do que vivenciamos, sobretudo daquilo que nos diferencia do outro. E é aí que a genialidade de iamamiwhoami se fixa: a criação de um mundo onde se pode contribuir através de interpretações e sentimentos que a arte desperta; onde é possível ser parte daquilo que se ouve e daquilo que se vê.

O projeto convida o público a fazer parte de si ao passo que este estabeleça certa intimidade para partilhar ideais, sentimentos e conceitos. iamamiwhoami criou não só um mundo musical harmonioso onde tudo se encaixa: seus idealizadores assumiram a postura de verdadeiros artistas que querem conhecer, sentir o seu público e a energia vinda deles. E é essa energia, é essa relação entre o que se ouve e o que se vive, parte da fonte interna dentro de nós que evolui fazendo com que sejamos não só meros ouvintes, mas sujeitos úteis à arte e a cultura.


Arthur Silva

Mineiro, escritor, ex-pianista e apreciador da arte cotidiana que nos move.
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