arthur silva

profissão: escritor - conserta-se vidas.

Arthur Silva

Mineiro, escritor, ex-pianista e apreciador da arte cotidiana que nos move

doar-se exige antes, conhecer-se

É triste ter que deixar as pessoas seguirem o próprio caminho. Seria injusto, de fato, querer amarrá-las em nossas próprias vidas por simplesmente gostarmos do que elas são e do que nos proporcionam. Se você já viveu o passado com alguém que transformou o seu mundo em algo inimaginável, irá entender o significado do que está escrito aqui.


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Refletir sobre pessoas e situações cotidianas tem sido um de meus exercícios diários guiados pela solidão. Muitos se ocupam em realizar sonhos, atingir metas e objetivos, ou transmitir, seja através de palavras ou gestos, o sabor da própria vida. Outros, por sua vez, ocupam-se na tentativa de desapegar-se daquilo que proporcionava felicidade e alegria, mesmo que isso não os pertença ou tenha chegado ao fim. Tal tarefa se torna mais complicada quando o motivo da felicidade era a presença de outra pessoa.

O desapego em relação ao outro exige aceitar a despedida iminente. Trata-se de reconhecer que para coexistir no mundo ao lado de outra pessoa é necessário conhecer a si mesmo, saber dos próprios limites e fraquezas. É também ter em mente que para aceitar o mundo de outra pessoa, antes devemos nos percorrer por inteiro, aceitar as nossas condições, valorizar nossos princípios e parâmetros de vida, além da personalidade, sendo tudo isso um conjunto que dá vida à nossa identidade.

O problema é que insistimos em buscar no cotidiano do outro respostas para as nossas dificuldades, medos e frustrações, cuja cura acredita-se estar na relação estabelecida com quem toma o partido de completar o quebra-cabeça que nomeamos felicidade. Longe de ser uma regra, existem também os que sofrem com a não-aceitação do fim de uma relação, o que resulta em desequilíbrio emocional, desespero e em alguns casos, aguda melancolia.

Penso que hoje, com tantos discursos que envolvem identidade, valores e ideais, é necessário que tenhamos certeza do que queremos, de quem somos - ou desejamos ser - como seres humanos e o que isso acarreta na ligação que passamos a estabelecer com outros que, assim como nós, buscam justificativas para o que vivem. É preciso ser sábio para compreender a si mesmo e conviver-se todos os dias, pois caso contrário, seremos submergidos por doutrinas e prisões que destroem aquilo que dá cabo à caminhada.

É essencial conhecer a si mesmo e centrar a própria energia antes de iniciar a construção do futuro ao lado de outro alguém. Os pés precisam estar firmes no chão sem levantar a poeira que muitas vezes carrega consigo a cegueira, não nos permitindo enxergar a verdade. De fato, a gente experimenta aquilo que acha que merece. O resto é poesia soprada pelo vento que tem a função de tornar a vida mais doce, leve, pois sem a fantasia, seríamos consumidos pela realidade cinzenta.


Arthur Silva

Mineiro, escritor, ex-pianista e apreciador da arte cotidiana que nos move.
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