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A Arte tem que ser livre, mesmo que o artista não seja.

Roberto

A arte tem que ser livre, mesmo que o artista não seja

Desvalorizar o OSCAR

O status alcançado pelo OSCAR levou grande parte do mundo à imposição de um modelo criterioso na escolha das premiações do que é um bom filme, uma boa direção, um bom roteiro, uma boa atuação. O que não é legal se estamos falando de algo de infinitas facetas que é a Arte. Assim, precisamos que, por aqui em diante - através de algumas perguntas como o que é o OSCAR, na realidade?" "Quem o idealizou? Por quê? Qual a sua função hoje? Seus compromissos? Suas ideias? Suas preocupações? E o Brasil nisso? - desvalorizar o OSCAR.


Desvalorizar o OSCAR.

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Eu poderia ter colocado como título desse texto algo mais polido, ou mais sucinto em relação ao OSCAR, mesmo que demonstrando minha posição em relação a premiação, mas, sendo assim, menos direto. Contudo, o status que o Academy Awards possui no mundo e aqui no Brasil (impulsionado, mais ainda, pelo nosso complexo de vira-lata), não me permitem. É necessário desvalorizar o OSCAR. Para isso, primeiro é preciso se perguntar o que é o OSCAR? Sim, é uma premiação, entretanto, ao contrário do que o senso comum propaga, não é a principal premiação do Cinema mundial. Lá não são definidos as melhores atuações no Cinema de um ano, nem os melhores roteiros, direções, muito menos o melhor filme. Na realidade, é preciso se perguntar se é, de alguma maneira, possível definir o “melhor de alguma coisa” na Arte, dentro de suas infinidades subjetividades.

Então, o que ele é, de fato?

O OSCAR é uma premiação concedida pela Academia de Arte e Ciências Cinematográficas. Essa, por sua vez, é “uma organização profissional honorária dedicada ao desenvolvimento da arte e ciência do Cinema”, fundada em 1927, no coração de Beverly Hills, por Louis B. Mayer, também fundador da Metro-Goldwin-Mayer (MGM: a produtora do leãozinho rugindo). Obviamente, por ter criado a organização, Mayer também foi o responsável pela criação da premiação, sob a justificativa de usá-la como uma maneira de estimular Hollywood a sempre melhorar a qualidade de suas produções. Ou seja, o OSCAR foi criado pelos estúdios de Hollywood, para ser frequentado pelos estúdios de Hollywood, como um incentivo interno para o Cinema de Hollywood. E é isso o que ele é.

Mas também é certo que hoje o Academy Awards vai além dos grandes estúdios, certo?

Sim, de vez em quando (muito de vez em quando), aparece alguma produção fora desse ciclo (tipo o Whiplash (Damien Chazellle, 2014) na premiação de 2014). E tem também a categoria de “melhor filme estrangeiro”, que abre brecha para que produções não-estadunidenses possam participar dele (e quem sabe, muito raramente, participar em outra categoria, além dessa, tipo a Fernando Montenegro, no prêmio de melhor atriz protagonista do OSCAR de 1999). O que, acima de tudo, demonstra, mais uma vez, que ela não é uma premiação universal – filme brasileiro é filme estrangeiro lá. Assim fica bem mais difícil de ganhar alguma coisa mesmo.

Ok, até aí tudo bem, basta fazer um filme bom para ir parar lá, então?

Aí temos uma outra questão. O que é um “filme bom”? Principalmente, o que é um “filme bom” para o OSCAR? Essa segunda pergunta é bastante importante, pois geralmente o que representa um filme bom para essa premiação é o que será entendido como um filme bom para milhões de pessoas (a semana do OSCAR geralmente é um dos poucos momentos do ano em que os olhos se voltam completamente para as questões técnicas do Cinema). Nisso os critérios da Academia acabam pesando bastante na percepção cinematográfica dos indivíduos, que, como já foi visto, veem no evento o seu grande norte para o Cinema – ainda mais, como foi visto lá no começo, quando o senso comum o qualifica como o grande prêmio da cinematografia mundial.

E esses critérios se tornam um problema (ainda maior), a partir do momento que ela é uma organização extremamente conservadora, tanto esteticamente, como politicamente. Na estética, os filmes que passam pelo filtro dos jurados são sempre acompanhados pela estética hollywoodiana (devidamente) e nenhuma outra. Qualquer outro tipo de experimentação cinematográfica, das inúmeras possibilidades que o Cinema apresenta e que justamente fazem dessa Arte ser o que é, são rejeitadas, em favor de boas histórias (bons roteiros), atuações escandalosas e lampejos de boa direção. E só. Agora, indo para a parte política. Aqui é mais óbvio e segue um pouco do que foi falado no texto sobre a censura liberal, o OSCAR nasceu com as grandes produtoras, elas nunca tiveram intenção de produzir obras com intuito politizado (pelo menos diretamente), afinal, não se poderia esperar menos da burguesia milionária de Beverly Hills e assim foi se desenvolvendo a premiação. Quando o Cinema questionador do status-quo se desenvolveu lá ele não teve espaço, e creio que nunca foi a intenção do Mr. Mayer que tivesse – assim o “prêmio de melhor filme do mundo” valoriza somente obras alienadas e essa mensagem é transmitida para milhões de pessoas todo ano.

Fora o racismo, né?

Agora, entramos numa discussão mais recente. O OSCAR, como já foi dito, é uma premiação historicamente conservadora e isso se reflete diretamente no racismo estrutural de sociedade (da sociedade estadunidense, uma vez que são os principais envolvidos no cenário da premiação). Os negros, nas grandes produções, daqueles mesmos grandes estúdios, são, novamente, historicamente postos em papéis menores, de coadjuvantes, sempre auxiliando o protagonista branco em sua história, ou ainda em categorias inferiores, ou sequer são incluídos nos elencos (e olha que eu nem estou incluindo a participação de roteiristas, diretores negros nessa verificação). Nisso, raramente são vistos, ao menos, concorrendo prêmios na premiação, pois, justamente, faltam oportunidades. Faltam oportunidades pois o racismo é vivo, nos corredores de Hollywood, nos EUA, no Brasil, no mundo e o OSCAR é apenas uma pequena projeção disso. Os grandes figurões do Cinema não querem ver pretos na tela. Não trazem bilheteria? Não é o que o público quer ver? É feio? Infelizmente, creio que o racismo responde o pensamento da sociedade em relação a essas três perguntas. Mas aí vem outro ponto também. Nos últimos 3 anos grandes filmes produzidos por produtores, diretores e atores negros no circuito estadunidense vem se destacando em âmbito internacional. Como exemplo, The Butler (Lee Daniels, 2013), Fruitvale Station (Ryan Coogler, 2014), Selma (Ava DuVernay, 2015) e, mais recentemente, Creed (também de Ryan Coogler, 2016). Entretanto, somente um deles recebeu algum tipo de atenção da Academia, que foi justamente 12 Years A Slave (Steven McQueen, 2014) – com produção do Brad Pitt, diga-se de passagem – todos os outros foram totalmente esquecidos nas indicações dos prêmios, sendo que possuíam total capacidade de estarem lá. Muito pouco para uma instituição que, atualmente, tem como presidência uma mulher negra (a primeira negra da história da instituição, aliás), Cheryl Boone Isaacs.

E sim, negros já levaram diversas estatuetas para casa, contudo, são as exceções, que confirmam a regra: das 88 edições da premiação, envolvendo centenas de artistas ao longo de todos esses anos, somente 15 afrodescendentes foram ganhadores dos prêmios relacionados à atuação - sendo 10 de papéis coadjuvantes -, apenas 4 foram indicados à melhor direção - nenhum vencedor - e 6 foram os produtores indicados à melhor filme - Steven McQueen, em 2013, foi o primeiro vencedor desse quesito.

Por isso o boicote ao OSCAR, de 2016, por exemplo, que ironicamente, terá a apresentação de Chris Rock. Ironicamente, pois quem já assistiu Everybody Hates Chris sabe do que poderemos esperar do comediante em relação a toda essa situação (com certeza o maior motivo de ansiedade para a sua chegada).

Mas pode ficar pior?

Sim, é claro! A pior parte é a aceitação - minha, sua, nossa, deles e dos outros - de toda essa condição. De que tudo aquilo que é Cinema reside nos Estados Unidos, sendo o “filme estrangeiro”, portanto, apenas variações, substratos, o exótico, em relação aquilo que existe no norte da América, no OSCAR. O filme de língua portuguesa, espanhola, árabe, alemão, etc. é a exceção. De que, sendo o padrão de Cinema hollywoodiano o dominante na cultura mundial, não existem brechas para outras experimentações audiovisuais. Algo diferente, em seu mínimo, como um filme atual em preto e branco, se verifica como sendo, novamente, exótico. De aceitar e achar normal ter pessoas de pele branca como protagonistas em quase todas as produções e o negro, quando aparece, ser apenas um mero coadjuvante, de não haver espaço para o negro numa premiação justificando que determinado filme não merecia estar lá ou sob qualquer outra razão, sendo que se vive numa sociedade racista e a questão da representatividade é essencial!

Aliás, quando vamos falar sobre mérito, representatividade e OSCAR, precisamos falar sobre Martin Scorsese. Uma vez que, por mais de 30 anos, ele foi ignorado pela Academia pela má representatividade que seria premiar um artista que criou uma obra (Taxi Driver, 1976) que influenciou um atentado a um presidente dos EUA (Ronald Reagan) em 1981. Nesse meio tempo, Scorsese simplesmente lançou Raging Bull (1980) e Goodfellas (1990), duas obras-primas do Cinema mundial, sendo que seu primeiro e único OSCAR veio em 2004, com The Departed, numa espécie de mea culpa da Academia. Então, será que os negros participando e recebendo OSCAR trariam uma má representatividade também e por isso eles são ignorados? A Academia insiste em deixar aberto essas perguntas.

A última pergunta, e o Brasil em relação a tudo isso?

Na minha opinião, apesar de todos esses aspectos dessa premiação, seria legal se o Brasil ganhasse um OSCAR. Seria legal, pois ainda somos afetados pelo colonialismo e imperialismo e ainda cultivamos o péssimo hábito de valorizar o que é nosso somente a partir da aprovação do estrangeiro (europeu, norte-americano). Rompendo o complexo-de-vira-lata, os cineastas brasileiros ganhariam mais voz, teriam mais atenção da mídia nativa e os processos de produção interna seria muito mais valorizado e facilitado. Nosso potencial, altíssimo, seria mais aproveitado.


Roberto

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