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A Arte tem que ser livre, mesmo que o artista não seja.

Roberto

A arte tem que ser livre, mesmo que o artista não seja

Todos deveriam conhecer a Estética da Fome

O grito pela independência artística da Semana de Arte Moderna de 1922 ecoou ao longo de todo o seu século fazendo com que os modelos de Arte nacional se desprendessem, cada vez mais, do idealismo eurocêntrico, e, depois, estadunidense. E foi, nos anos 1950, com a maturação do Cinema brasileiro, que esse eco alcançou a Sétima Arte nacional. A Estética da Fome estava viva e ainda hoje continua, porém, não como conhecimento, mas sim ideologia. Por isso, todos deveriam conhecer a Estética da Fome!


Todos deveriam conhecer a Estética da Fome.

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No ano de 1965, o Cinema Novo já havia se consolidando como um dos grandes movimentos do Cinema mundial, juntamente com a Nouvelle Vague francesa (Jean-Luc Godard, François Truffaut) e o Neorrealismo italiano (Federico Fellini, Roberto Rossellini). E foi também nesse ano que o cineasta Glauber Rocha, dito o maior dentre os cinema novistas, apresentou num congresso em Gênova sobre o Terceiro Mundo (Terzo Mondo e Comunità Mondial) o texto Estética da Fome (ou Eztetyka da Fome, como a caligrafia descompromissada de Glauber fazia).

Esse foi, para o movimento, o seu autêntico manifesto. Nele, o genial diretor baiano apresentou o ambicioso e corajoso projeto artístico revolucionário desses jovens cineastas brasileiros, que desejavam fazer do Cinema não somente um ato de denúncia, mas também de mudança social.

“Fizemos estes filmes feios e tristes, estes filmes gritados e desesperados onde nem sempre a razão falou mais alto – que a fome não será curada pelos planejamentos de gabinete e que os remendos do tecnicolor não escondem mas agravam seus tumores. Assim, somente uma cultura dafome, minando suas próprias estruturas, pode superar-se qualitativamente: a mais nobre manifestação cultural da fome é a violência. A mendicância, tradição que se implantou com a redentora piedade colonialista, tem sido uma das causadoras de mistificação política e de ufanista mentira cultural: os relatórios oficiais da fome pedem dinheiro aos países colonialistas com o fito de construir escolas sem criar professores, d e construir casas sem dar trabalho, de ensinar ofício sem ensinar o analfabeto. A diplomacia pede, os economistas pedem, a política pede: o Cinema Novo, no campo internacional, nada pediu: impôs-se a violência de suas imagens e sons em vinte e dois festivais internacionais”.

A intenção era de reconstruir a Sétima Arte a partir da visão da realidade dura, feia e miserável do Terceiro Mundo, rompendo com os padrões cinematográficos europeus e estadunidenses predominantes – o chamado acordar do“ideal estético adolescente”, segundo Glauber. De maneira a caracterizar, esteticamente, a ruptura e independência cultural dos países marginalizados no sistema global, em confronto com a dominação em relação à Europa, nos séculos passados, e aos Estados Unidos, vigente até então.

“De Aruanda a Vidas Secas , o Cinema Novo narrou, descreveu, poetizou, discursou, analisou, excitou os temas da fome: personagens comendo terra, personagens comendo raízes, personagens roubando para comer, personagens matando para comer, personagens fugindo para comer, personagens sujas, feias, descarnadas, morando em casas sujas, feias, escuras: foi esta galeria de famintos que identificou o Cinema Novo com o miserabilismo tão condenado pelo Governo, pela crítica a serviço dos interesses antinacionais pelos produtores e pelo público – este último não suportando as imagens da própria miséria”.

E por meio disso, o Cinema Novo buscou dialogar com o Brasil, através de sua própria cultura e valores, os questionamentos quanto aos descasos políticos e injustiças sociais dominantes, de modo a sintetizar todos na retratação da fome (da Estética da Fome) uma das grandes chagas brasileiras durante o século XX e a expressão máxima da gigantesca disparidade social que dominava a deprimente situação nacional.

Observa-se, ademais, a presença do Nordeste como cenário das principais obras cinema novistas, como Vidas Secas (Nelson Pereira dos Santos, 1963) e Deus e o Diabo na Terra do Sol (Glauber Rocha, 1964), sendo um dos locais mais miseráveis do mundo fora do continente África no contexto dos anos 1960 e 70.

Entretanto, 50 anos após o texto de Glauber, evidencia-se a falta de sincronização do contexto de época com o Brasil atual. Tal se verifica nos últimos relatórios da ONU (Organização das Nações Unidas) ao demonstrarem que uma queda brusca de 82,1% ocorreu somente na última década e indicarem que o país já superou essa condição, de modo que uma reflexão quanto ao cinema brasileiro atual também pode ser feita.

Até onde a Estética da Fome ainda se reflete no Cinema nacional? “Filmes feios e tristes, estes filmes gritados e desesperados” ainda possuem espaço como um movimento brasileiro ou se restringem, agora, à estilismos autorais? Existirá um pós-Estética da Fome? E o Nordeste, como se verifica nesse quadro? Neste caso, filmes como O Som ao Redor (Kleber Mendonça Filho, 2012), A História da Eternidade (Camilo Cavalcante, 2014) e Boi Neon (Gabriel Mascaro, 2015) podem até indicar algumas respostas – onde a fome superada é substituída pelo desejo material.

Enfim, são questionamentos. Mas o que precisa ser relevado é que para entender a rica história cinematográfica brasileira (e também o seu percurso contemporâneo), assim como elementos de nossa cultura e também parte do momento conturbado nacional em meio às agitações políticas dos anos 1960, a leitura de a Eztetyka da Fome é indispensável. Todos, deveriam, realmente, conhecer a Estética da Fome!

Segue, portanto, uma breve lista com algumas das principais obras-primas cinema novistas. Breve, pois não seria viável à leitura colocar todas que, devidamente, merece muitíssimo destaque. Partindo do clamado primeiro filme com as características do movimento - Rio, 40 Graus (Nelson Pereira dos Santos, 1955) – até aos seus últimos resquícios nos anos 1980 - Eles Não Usam Black Tie (Leon Hirzsman, 1981), temos em Macunaíma (Joaquim Pedro de Andrade, 1969), Vidas Secas (Nelson Pereira dos Santos, 1963), os clássicos de Glauber Rocha: Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), Terra em Transe (1967), Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (1969) o máximo do Cinema-Brasil. As representações das fomes do povo, do tropical nacional, do vocabulário popular, da política nacional, do que o Brasil é, ou ao menos, já foi.

O texto completo de Glauber pode ser encontrado no seu site Tempo Glauber.


Roberto

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