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A Arte tem que ser livre, mesmo que o artista não seja.

Roberto

A arte tem que ser livre, mesmo que o artista não seja

Uma câmera na mão, uma ideia na cabeça e fome no coração: popularizar o Cinema!

Seguindo os recortes sociais de "Que Horas Ela Volta?", o Cinema se restringe a círculos. Os filmes são feitos por Fabinhos, para Fabinhos discutirem em seus cineclubes, sendo Jéssicas apenas exceções (Vals são praticamente inexistentes para o meio cinematográfico). Sorte que algumas iniciativas já vem buscando mudar esse panorama.


Uma câmera na mão, uma ideia na cabeça e fome no coração: popularizar o Cinema!

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Creio que essa seja a questão para a qual estaríamos nos direcionando a partir da observação da censura liberal e da censura elitista no Cinema dos países em desenvolvimento: o momento de sua popularização.

Uma popularização consciente. Que envolva tanto a difusão informativa de suas técnicas, seus debates, suas escolas, suas estéticas, sua criação e, também, a sua divulgação para as classes médias e, principalmente, para a pobres, periféricas e rurais. Estender a concepção de Glauber Rocha, sobre Estética da Fome, para a fome brasileira dos anos 2000, que “não quer só comida”, mas sim quer “comida, diversão e arte”. Como uma amiga cineasta indonésia completou, enquanto eu a apresentava Glauber: que tenha uma câmera na mão, uma ideia na cabeça e fome no coração. Essa fome! E de verdade, estamos no curso dessa extensão.

A câmera na mão, hoje, está muito mais acessível que nas décadas passadas. Praticamente todas as pessoas já tiveram contato e conhecem alguém que possua um celular com câmera. E, nos dias atuais, no Cinema atual, isso pode ser o suficiente para produzir um belo curta ou longa-metragem, que seja premiado, inclusive, como foi Tangerine (Sean Parker, 2015), feito inteiramente via Iphone 6. Ou seja, o que eu estou dizendo é que, quando se diz câmera na mão, se trata de qualquer câmera disponível possível.

Agora, quando eu mencionei popularização, também coloquei o “consciente”, uma vez que, a ideia na cabeça precisa estar bem formada. Uma câmera sem conteúdo técnico, experimental, teórico da mente de um artista por trás dela poderá, muito bem, estar à mercê de padrões culturais industrializados – que, por sua vez, facilmente inibem o potencial artístico, justamente, da Arte. Felizmente, esse cenário também tem sido desenvolvido positivamente por diversas ações tanto nas esferas públicas, como nas do terceiro setor, como também através da própria sociedade civil. Na pública, por exemplo, tivemos, ao final de 2015, a anunciação, por parte do prefeito da cidade de São Paulo, Fernando Haddad, da criação de 20 salas de Cinema em regiões periféricas de SP. Ademais, existem também determinados editais de financiamento de produção da ANCINE (Agência Nacional de Cinema), destinados à inclusão social, seguindo a mesma lógica de cotas (tanto de renda, como racial) do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), por exemplo, a fim de incentivar produções cinematográficas de pessoas de baixa renda.

Já nas do terceiro setor, evidenciamos dois exemplos.

A primeira delas é a CUFA Filmes. Uma produtora de Cinema da Central Única das Favelas (CUFA) voltada para produções realizadas pela própria favela, a fim de criar o protagonismo audiovisual a partir dela mesmo. Ou seja, a periferia, tantas vezes retratada por cineastas com visões de mundo provenientes de realidades totalmente diferentes dela, inverteria os papéis, de modo que, seria a favela que agora passará a sua visão sobre o mundo. Como extensão da produtora, também existiu entre 2007 e 2011 o CineCUFA, um “festival internacional de Cinema, organizado pela Central Única das Favelas (CUFA), que exibe obras produzidas ou dirigidas por moradores de favelas” (vale ressaltar o caráter internacional, uma vez que produções do mundo inteiro eram aceitas), além de promover debates ao redor da Sétima Arte. Infelizmente, como já posto, ele não existe mais.

Um outro belo projeto é proveniente da Paraíba. Trata-se do Cine Periferia em Ação, cuja missão é propor “a capacitação de jovens de periferia, por vias democráticas, sobre pensar criticamente a mídia e produzir uma tecnologia social pela capacitação em audiovisual para circular os produtos do próprio grupo com diversidade discursiva e expressões das ideias e sentimentos da realidade a qual eles estão inseridos”. A inciativa apresentou em 2015 o seu segundo DVD com a compilação das produções realizadas em conjunto com os moradores da periferia de Campina Grande. Pela sociedade civil, tem-se, por sua vez, a grandiosa Mostra do Filme Livre. Essa, que é, certamente, a maior vitrine do Cinema brasileiro independente, dando oportunidade para mais de 100 artista terem suas produções exibidas num grandioso festival que em 2016 chegará a sua 15ª edição (com exibições no Rio de Janeira, São Paulo, Belo Horizonte, Brasília e Niterói, fortalecendo, dessa maneira, a produção de qualidade, mas amadora, totalmente independente e livre de determinações estéticas. Uma grande oportunidade para fazer com que pessoas fora do ciclo comercial cinematográfico tenham suas obras exibidas em telonas para dezenas de espectadores.

E também a via disponibilizada pela internet, que, por si só, é um grande veículo de disseminação de conhecimento (no que inclui o cinematográfico, devidamente). Iniciativas que disponibilizam filmes de Cinema autoral (encontrados em nenhum canal de televisão, ou espaço de Cinema) gratuitamente, via torrents, ou, ao menos, as legendas de filmes de Cinema de autor “raros” de se encontrar em português, como fazia o Movimento Cinema Livre. Afinal, o qual o problema de viabilizar filmes que perderam o valor comercial desde as suas datas de estreia (segue a história do Movimento ).

Além disso, sites e blogs independentes fazem um grande favor ao disseminar, pelo menos um pouquinho, análises e críticas de filmes antigos, ou que estão fora do circuito comercial. De maneira que, assim, ajudam a transmissão de estéticas e interpretações dessas obras que dificilmente seriam encontradas em outros lugares. Fora, também, aqueles que dão suporte a técnicas, debates e know-how, para dentro da cinematografia, como eu também busco fazer nesse espaço, de uma certa maneira.

Por fim, resta o mais essencial de tudo: a fome no coração. Para poder enfrentar todas as dificuldades que podem aparecer ao longo da produção, muitas vezes gastar tempo sem receber nada em troca, para fazer essas coisas acontecerem. Como eu já disse anteriormente, a Arte precisa ser livre, mesmo que o artista não seja.


Roberto

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