as falas de alice

Tudo depende de como você quer ver...

Alice Cruz

Advogada. Decifrar histórias e porquês; as nuances de cada enredo, pois a beleza da poesia da vida é não ser escrita apenas num único tom.

“Reign” e sua rainha humana: Mary permitiu-se ter um coração vibrante!

Talvez se ela tivesse optado por velar a morte de seu amado Francis até o final de sua existência, não tivesse sido tão marcante na história das monarcas. As aparências do reinado não a prenderam em uma vida infeliz, fadada em conformar-se com as tristezas inerentes a quem ama, narradas com extrema justeza no poema de Vinicius de Moraes: “E assim, quando mais tarde me procure/Quem sabe a morte, angústia de quem vive/Quem sabe a solidão, fim de quem ama/ Eu possa me dizer do amor (que tive): /Que não seja imortal, posto que é chama/Mas que seja infinito enquanto dure”. Mary não leu o poetinha. Simplesmente ela deixou o seu passado no lugar devido e abriu seu coração às novas possibilidades. Viveu o luto, mas deu fim a ele e, no momento oportuno, seguiu. Encontrou o amor.


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Como destaque de um novo show de tv norte americano, “Reign”/CW, temos a narrativa da história de Mary Stauart, a Rainha da Escócia. Para os desavisados, a real trajetória da rainha não é um conto de fadas com o final feliz. Pelo contrário, a pobre rainha sofreu tantas amarguras assim como qualquer “mortal” é capaz de suportar e pagou com a prória vida simplesmente por optar amar.

Resumidamente, Mary, desde a mais tenra idade, teve-lhe imposta a obrigação de lidar com a política exigida para manutenção de um reinado deixado por seu pai, que em leito de morte, já anunciara a previsão de que a ruína de sua dinastia viria sua por herdeira com a célebre frase, registrada por John Knox: “It cam wi' a lass and it will gang wi' a lass!" (“Terminará como começou: veio de uma mulher; e terminará em uma mulher”).

Como costume da época, mulheres enfrentavam grande resistência em qualquer tarefa mais complexa que tentassem exercer sozinhas, obrigando-as, desde de infantes, a tratar de casamentos que fossem mais vantajosos a interesses políticos, fadando-lhes, muitas vezes, a desastrosos relacionamentos, nos quais não se poderia nem mencionar a ideia romântica de amor (Cada matrimônio, um tratado internacional).

Em meio a este contexto, Mary rompeu alguns paradigmas políticos e sociais, dentre eles, foi uma rainha que ousou se apaixonar e amar, mesmo que ela não tenha sido muito bem sucedida.

No seu primeiro casamento, com o então monarca francês, Fancis II, teve a infelicidade de se tornar viúva prematuramente, já que em menos de um ano de casamento, ele falece em decorrência de uma infecção no ouvido.

Abalada pela morte do homem amado, retorna a seu país e, por motivos políticos, vê-se obrigada a casar novamente. No entanto, o coração de Mary, a despeito de ser forte para resistir às pressões políticas da época e da origem de um povo cuja maior caractrísitca era ser rude, se mostrava aquecido e sensível aos amores e paixões que acometem qualquer ser humano.

A história relata que ela se apaixonara pelo seu segundo marido, pai de seu filho, Rei Jaime VI (I), mas o relacionamento acaba sendo horrível e destruído pela sede de poder do homem a quem entregou seu coração. Nossa corajosa rainha apaixona-se novamente pelo seu terceiro esposo, e termina por ser envolvida na trama de assinato e traição.

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Os amores de Mary levaram-na a queda, pois fora deposta de seu trono escosês pela pouca simpatia que gozava junto a seus súditos, que, pasmados, não acreditaram em sua insenção de envolvimento na morte de seu segundo marido, bem como pudera se casar com o assino dele, além das tensas questões religiosas que minavam seu reinado desde a França.

Tudo isso culminou com sua morte, decapitada por traição, a mando de sua prima Elizabeth. Registra-se que no momento de sua morte Mary não temeu e não se arrenpendeu daquilo que mais marcou sua história: seguir seu apaixonado coração.

Apesar de todos os elementos lúdicos agregados ao seriado, bem como as tramas coadjuvantes de personagens que, talvez, nem tenham existido, ou se existiram, não com o envolvimento descrito na adaptação feita para o drama televisivo (por exemplo, o caso extraconjugal de Mary e Luis I de Bourbon-Condé), é possível sentir parte dos terríveis dilemas que dividiam o coração da soberana entre postura política, seu espírito idealista e forte, e um coração desejoso de amor.

A sorte, contudo, parece não ter lhe favorecido nas escolhas dos parelhas, já que nem sempre as decisões conciliavam a vida amorosa e os interesses de seu país, diferentemente do que ocorre nas felizes histórias de princípes e princesas aptos a bem governar e amar em plenitude, com as quais nos acostumam os mais famosos contos de fadas da Disney (no final, tudo sempre dá certo!).

Abrindo parênteses, neste aspecto a série de tv é muito feliz. Adelaide Kane, a intérprete da rainha, com precisão demonstra tais matizes na personagem, optando por não se deixar abalar pelos infortúnios experimentados. Age com firmeza, quando esta é exigida; com delicadeza e candura nos momentos próprios; comprometida não apenas com a política, mas em viver um romance que valha a pena e Adelaine executa deverasmente bem as reinvenções de Mary, na política e no amor.

Nesse breve (e muito breve) passeio na história de nossa heroína, temos as lições de alguém que ousou ser forte o suficiente para “se dar ao luxo de amar”. Vivemos em tempos nos quais os mínimos impecilhos são desculpas para não se comprometer em um amor ou mesmo jurar não amar novamente e transformar-se em uma sólida(o) guerreira(o) de coração de gelado.

Frustrações amorosas, das mais diversas, não são novidades na história humana ou mesmo privilégio dos soberanos ou súditos, mas sim um fato tão universal quanto o sol (nasce e se põe para todos os seres viventes). As nuances ficam a cargo de nós, que optamos na forma de conduzir nossas histórias. Todos desejamos a felicidade e o amor, mesmo que pareçam consistir em uma busca aparentemente incansável e incerta.

Quantos de nós quedano-mos retraídos aos sinais de que toda a poesia de uma bela paixão está em seus versos finais, ou mesmo quando toda a doçura daquele amor dá lugar ao azedume das mágoas e do rompimento? Todos nós já vivenciamos isso.

Alguns, com habilidade, reconstroem-se e seguem firmes com seus corações dispostos a investir no amor, mesmo com as cicatrizes daquilo que se foi.

Outros tantos optam pelo luto eterno do passado, velando, a cada dia da sua existência, o amor que não subsiste mais. Este é o mais complicado.

Por vezes, torna-se necessário perceber esse estado de sofrimento perene no qual nos apegamos, quiçá na esperança de trazer aquilo novamente, ainda que apenas nas memórias, ou na esperança de não mais ser machucado depois um momento de felicidade, vivido em um belo romance.

A quem se encontra nessa condição, as lições da Rainha Mary são essenciais, pois ela lutou até o fim pelo seu direito de amar e ser feliz até o último momento em que pode.

Curioso ver que, mesmo com as tragédias que cercaram os amores de Mary, ela seguiu em frente e se permitiu a experiência de um novo amor, mesmo sem as garantias de felicidade, eternidade.

Mary não esperou o para sempre. Segiu os instintos mais quentes de seu vibrante coração que optou por amar ao invés de se amargurar com vida e com tudo que deu errado desde amorte de seu primeiro amado. Sobre ela estava o peso de uma nação e, mesmo assim, não foi o bastante para isentá-la de seguir em frente e reconstruir, por mais de uma vez, sua história.

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Talvez se a rainha tivesse optado por velar a morte de seu amado Francis até o final de sua existência, não tivesse sido tão marcante na história das monarcas. As aparências do reinado não a prenderam em uma vida infeliz, fadada em conformar-se com as tristezas inerentes a quem ama, narradas com extrema justeza no poema de Vinicius de Moraes:

“E assim, quando mais tarde me procure/Quem sabe a morte, angústia de quem vive/Quem sabe a solidão, fim de quem ama/ Eu possa me dizer do amor (que tive): /Que não seja imortal, posto que é chama/Mas que seja infinito enquanto dure.” (trecho de “Soneto de Fidelidade”)

Mary não leu o poetinha. Simplesmente ela deixou o seu passado no lugar devido e abriu seu coração às novas possibilidades. Observamos que ela viveu o luto, mas deu fim a ele e, no momento oportuno, seguiu. Encontrou o amor, embora diante do final trágico. Apesar disso, ela não se arrependeu, apenas aprendeu a lidar com sua humanidade.

Então, encerre o luto e dispa-se das mortalhas do sofrimento. Permita-se amar, ainda que sem garantias. Não se deixe abater tão prematuramente pelos infortúnios que podem cruzar o seu caminho, mas encontre forças para, firmemente, se reconstruir, se reinventar, seja em que área de sua vida for. Arrisque-se na vida, porém arrisque-se, mais ainda, em amar.

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Alice Cruz

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