as intermitentes facetas cotidianas

Uma análise das peculiaridades que envolvem o nosso dia a dia. Vem ver!

Renata Moreira

"ComCiência": algumas impressões pessoais sobre a exposição de Patrícia Piccinini

No final do ano passado fui a uma exposição que, pessoalmente, me marcou bastante. Com seus aspectos inusitados e ricos em detalhes inimagináveis, não hesitei e redigi um pequeno relato das minhas impressões. Ao vasculhar as gavetas dos arquivos compactos do meu computador, acabei decidindo dividir o texto por aqui e, mesmo depois de alguns meses do ocorrido, ainda considero essa exposição uma das melhores que já vi...


Diretamente da Austrália, chega ao Brasil a exposição “ComCiência”, da artista Patrícia Piccinini. Graduada em Artes pela Faculdade Victoria de Artes de Melbourne, Piccinini nos motiva um olhar mais terno e demorado que abraça o diferente. Em suas obras hiper-realistas, inspiradas em inusitadas recombinações genéticas, os visitantes são levados a uma inesperada viagem futurística que os questiona, a todo momento, sobre a construção do atual significado do que é considerado belo.

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RECOMBINAÇÕES GENÉTICAS

As recombinações genéticas são experimentos onde seres são criados através da troca de genes entre duas moléculas, ocasionando a formação de novas combinações de genes em um cromossomo. Patrícia Piccinini mostrou a cada visitante que é possível realizar experiências inimagináveis através de tais combinações e criar seres que, eventualmente, não correspondem a um padrão de beleza atualmente evidenciado pela sociedade, mas que são passíveis de sentimentos característicos da essência humana.

Utilizando-se de materiais como o silicone, a fibra de vidro e também cabelo humano, a artista demonstra a sua habilidade de construção e sensibilidade quase que palpáveis em cada objeto apresentado. Portadoras de um hiper-realismo explícito, suas obras transportam o visitante a um novo mundo de descobertas e aventuras.

DESMISTIFICAÇÃO DO BELO

Os primeiros indícios de vaidade foram percebidos durante a pré-história, onde pequenos artefatos detidos pelos chefes de determinados grupos – como pinturas de guerra e/ou garras e dentes dos animais que caçavam – eram usados como enfeite e também como meio de intimidar o adversário.

Desde então, com o passar dos anos, o conceito de belo vem sendo incorporado à cultura de diferentes formas.

Com a intenção de derrubar os paradigmas impostos atualmente, “ComCiência” e suas obras vieram abrir os olhos dos visitantes para um novo conceito de belo – aquele que pode ser diferente e, ao mesmo tempo, despertar em nós a curiosidade, a ternura, o amor e a troca.

A ACEITAÇÃO

O primeiro contato com as criaturas futurísticas e, por vezes, amorfas, de Patrícia Piccinini, se dá através das crianças. Em sua pureza e inocência, essencialmente infantis, esses seres humanos se comportam – não com estranhamento, mas - com total ternura e aceitação ao lidarem com as “estranhas criaturas”. Para os adultos, transeuntes do evento, é inevitável que haja uma sensação de superproteção em relação àquelas crianças indefesas em contato com as criaturas desconhecidas. Mas, para os pequenos, essa é só mais uma situação onde a sua resiliência é colocada à prova e o seu senso de descoberta e acolhimento fala mais alto.

Foi impossível não se emocionar com a troca – de carinho, ternura, comoção, conhecimento – entre todas as criaturas ali presentes. Elas fazem parte de uma mesma história; estão presentes em um mesmo enredo, que as levam a se aceitarem e transmitirem o que lhes é de essência, para agregar valor ao outro.

PASSADO, PRESENTE E FUTURO

Passado, presente e futuro estão dispostos em um só cenário, dividindo a cena entre as diversas particularidades de cada tempo. Observa-se, no evento, a relação de seres com idade mais avançada se relacionando de maneira amigável e fraternal com seres humanos ainda crianças. É aí que se percebe a recepção tão aberta tanto do presente que aceita o futuro, quanto do futuro que aceita o presente. Ambos convivendo em harmonia e serenidade, trocando afeto e sabedoria.

Se fosse preciso selecionar uma única palavra para resumir todo o encantamento atribuído ao trabalho de Patrícia Piccinini em “ComCiência”, essa palavra seria: respeito. Ao transitar por entre os corredores e refletir sobre toda aquela aceitação do que é diferente e ver que existe beleza fora dos padrões impostos pela sociedade do século XXI, é possível entender que só o respeito pode levar dois seres distintos a se entenderem, se respeitarem e transmitirem algo de bom entre si durante esse processo. A queda dos estereótipos vem desmistificar o que nos é visto como belo e nos leva à ConsCiência de que o diferente também deve ser valorizado. É uma exposição que realmente vale a pena!

Obs.: O relato descrito se baseou nas minhas próprias impressões com relação à exposição. Não sendo, necessariamente, a real interpretação que a artista pretendeu transmitir.

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