as intermitentes facetas cotidianas

Uma análise das peculiaridades que envolvem o nosso dia a dia. Vem ver!

Renata Moreira

O EROTISMO CLÁSSICO

Não é só de instrumentos que é feita uma orquestra, mas de um composto de sensações...


Aquela poderia ter sido mais uma noite de quinta-feira, na rotineira capital, onde centenas de indivíduos voltam para casa após um longo dia de trabalho e aguardam ansiosos a chegada da tão esperada sexta-feira...aquela que estimula o paladar para as doçuras do final de semana e traz uma injeção de ânimo para quem precisa de um descanso depois de uma semana de trabalho árduo. Porém, aquela quinta-feira em questão, teve uma pitada de um tempero diferente das demais. Um classicismo que a tornou elegante, emocionante e, por que não, erótica?!

Eram 20:20 quando as portas do auditório se abriram e lá estava ele: o palco, cheio de cadeiras perfeitamente posicionadas para receberem uma orquestra inteira, preparada para despertar diversos e peculiares sentimentos a quem estivesse disposto a ouvi-la. Foi uma mistura muito bem ritmada entre violinos, violas, violoncelos, contrabaixos, flautas, oboés, clarinetes, fagotes, trompas, trompetes, trombones, tuba, tímpanos, percussão, harpa e teclados.

Cada instrumento tinha o seu próprio papel que, em conjunto, garantia a harmonia perfeita entre os sons. Era possível sentir na pele cada nota...como se o regente comandasse ondas elétricas sobre a pele, causando arrepios intermináveis. E não era a plateia a única a se deleitar com sensações indecifráveis no recinto...os músicos também.

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Ao analisar a relação entre músico e instrumento, era possível perceber o cuidado genuíno de cada componente da orquestra para com aquele que era tocado. E não era um toque qualquer...havia toda uma preocupação na precisão do tato: cada nota era delicadamente gerada através do atrito dos dedos com a superfície lisa das cordas ou com os orifícios dos instrumentos de sopro. E, por meio de um dedilhar acalorado, regado por um carinho perceptível no trato e um carregar tão delicado que chegava a ser feminino, a orquestra seguia um ritmo quente.

Era palpável a confiança mútua entre aquele que tocava e o objeto tocado. Aquela era uma relação de entrega, de saber que a música só seria perfeita se houvesse o prazer de quem recebe e de quem promove; o respeito ao ritmo de cada um que, juntos, se mostravam perfeitos. O grito do trompete, o gemido agudo do violino, a delicadeza da arpa, o impacto profundo do contrabaixo...toda aquela bagunça gostosa que se tornava música. Cada um com suas próprias sensações.

Por fim, na chegada do seu ápice, um urro uníssono. Depois, silêncio...agora, é hora de aplaudir, de sentir o êxtase da plateia...a orquestra atingiu o orgasmo.


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