asas de cetim

Mais do que palavras.

Paula Sousa

Escrever é uma maneira de falar sem ser interrompido.

A solidão na selva de pedra

A solidão tem dois lados: um se baseia na busca de um significado para a própria existência enquanto o outro se baseia na perda de algo importante - na ausência. Ela é capaz de gerar angústia e de nos colocar contra a parede, frente a frente com perguntas sem respostas e com a procura de um sentido para tudo aquilo que acontece ao seu redor. Mas ela nasce, antes de tudo, dentro de nós, e precisamos entender que ninguém preencherá esse vazio sem que nós mesmos procuremos formas de tapá-lo.


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Outro dia me senti extremamente só enquanto olhava fixamente para a vitrine da minha loja predileta e me apaixonava por cada peça. Pela primeira vez quis alguém dizendo o quão feio era aquela blusa e aqueles óculos. O problema é que estava na avenida mais movimentada da minha cidade e inúmeras pessoas transitavam ao meu redor.

Muitas vezes me senti assim e cheguei até mesmo a ficar preocupada, pois já me disseram que ninguém é feliz sozinho. Na verdade não estou triste, estou apenas com um vazio se apoderando de mim. Minha vida está bem, estou em um trabalho bom, em uma casa boa, cursando o que sempre quis. Tenho uma família e algumas pessoas que posso considerar amigas nas horas próprias para festejar. Minha saúde anda relativamente boa e eu até rio ás vezes com alguma piada ridícula que escuto de algum comerciante. Mas me sinto só.

Solidão é algo ‘engraçado’ se formos parar para analisar. Na sociedade moderna ela é diretamente proporcional à densidade populacional, pois quanto mais as cidades crescem e se tornam populosas, mais seus indivíduos se sentem só. Uma comunicação rápida entre duas pessoas - como a que acontece entre você e alguém do metrô ou do ônibus - acaba criando barreiras de interação social uma vez que estas não são tão profundas, o que leva à sensação de solidão e deslocamento.

E é então que chegamos à conclusão: a quantidade de contatos não se traduz na qualidade dos contatos.

Se formos mais à fundo e analisarmos os dados estatísticos, veremos que as verdadeiras amizades diminuíram drasticamente de uns anos para cá. Um estudo feito em 2006 pela revista American Sociological Review mostra que, em relação a uma pesquisa similar feita em 1985, a média de amigos próximos para os quais as pessoas confiam seus segredos diminuiu de 3 para 2. A porcentagem de pessoas que declararam não ter amigos confidentes cresceu de 10 para 25% e 19% adicionais disseram ter apenas um único amigo no qual confia - e que, geralmente, é seu companheiro, aumentando o sério risco de solidão no caso do fim desse relacionamento.

Outra pesquisa realizada e que chama bastante atenção foi feita pela Universidade Cornell e Johns Hopkins dos Estados Unidos. A universidade questionou 200 de seus alunos sobre o quão importante era para eles se sentirem únicos e diferentes do resto da multidão, e a pesquisa concluiu que “ser excluído de grupos sociais pode estimular sua criatividade, porém apenas se tiver confiança suficiente para encarar a solidão”.

Esta pesquisa consistiu em: metade dos alunos foram selecionados para as atividades principais enquanto que a outra metade não recebeu a aprovação; na sequência foram aplicadas outras atividades - desta vez para todos - que estimulavam a criatividade. E o resultado foi: quem se sentia excluído mas gostava de se sentir diferente dos outros, se saiu melhor e apresentou respostas mais interessantes.

Como explicou Sharon Kim, líder da pesquisa, “se você está em um estado de espírito em que não se importa com o que os outros pensam, você está aberto para ideias novas que podem não ter vez quando você se preocupa com a opinião dos outros”.

Costumo acreditar que a vida é uma incomparável mestre e que tudo que acontece, seja bom ou ruim, são sinais para que percebamos que algo precisa, urgentemente, ser mudado. Portanto, se a solidão está sugando sua alegria de viver e seguir em frente, sugiro que procure entender o que a vida está lhe ensinando.

Como pode ver, este sentimento não está necessariamente ligado aos nossos relacionamentos afetivos. Ele pode ser provocado, também, pela carência de um amor-próprio que não conseguimos nos dar. A solidão nasce, antes de tudo, dentro de nós e precisamos entender que ninguém preencherá esse vazio sem que nós mesmos procuremos formas de tapá-lo.

Porém, como ortografou Fernando Pessoa, “(...) Se te é impossível viver só, nasceste escravo.”


Paula Sousa

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