asas de cetim

Mais do que palavras.

Paula Sousa

Escrever é uma maneira de falar sem ser interrompido.

Um drama: morar só

Se você é um universitário, sua geladeira nunca estará repleta de refrigerante e coisas gostosas. O máximo que terá dentro dela é um garrafão de água, uma cebola pela metade e olha lá.


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Nasci em uma cidade bem pequena no interior de Minas e, como ela não tem recursos suficientes para alguém que quer fazer faculdade ou outros cursos profissionalizantes, precisei me mudar. Não moro na capital, mas a cidade onde estou agora supre minhas necessidades – e, para mim, é tão grande quanto a capital.

Meus pais continuaram morando em minha cidade natal, sendo assim, precisei me adaptar à uma república – com mais onze meninas; sim, on-ze meninas. Não é nada fácil dividir um espaço com pessoas que foram criadas de uma forma totalmente diferente da sua, certas vezes precisamos respirar fundo, contar até mil e tentar não estrangular alguém, mas tirando isso… está tudo bem.

Quando moramos com nossos pais, nossas peças de roupa saem do cesto e voltam pro armário limpas e cheirosas. A comida fica pronta sobre o fogão e nosso único trabalho é nos servirmos e comer – e lavar a louça suja após o almoço. Temos também que arrumar nossa cama, ajudar nossas mães em algumas tarefas, mas tudo bastante simples e normal; nada demais. Mas quando moramos sozinhos, as coisas mudam: você descobre que pra geladeira estar cheia, você precisa ir ao mercado comprar comida – e aí está outra tarefa complicada, principalmente se você quer comer algum legume ou alguma verdura: nunca sabemos como escolhê-las -, descobrimos que nossas roupas não vão aparecer no armário em um passe de mágica, que precisamos lavá-las, estendê-las no varal para secarem, dobrá-las e colocá-las no lugar. (O material das roupas passa a ser critério de escolha na hora da compra: sempre procuramos por peças que não amarrotam).

Uma das coisas que você fazia morando com seus pais não acontece mais: sua cama estará sempre desarrumada – uma vez no mês, talvez, ela apareça arrumada; quem sabe?!

Se você é um universitário, sua geladeira nunca estará repleta de refrigerante e coisas gostosas. O máximo que terá dentro dela é um garrafão de água, uma cebola pela metade e olha lá. Às vezes você vai ao mercado e compra alguma bobagem no fim de semana, mas come tudo em um único dia e depois volta para a mesmice de arroz, carne e banana – quando você não substitui a comida por macarrão instantâneo, é claro!

Mas morar sozinho também tem suas vantagens: você cria certa responsabilidade – sabe que não tem ninguém pra resolver os seus problemas, pra ir ao banco sacar dinheiro ou resolver algum problema com a sua conta. Você precisa pagar seu aluguel, comprar sua comida se não quiser morrer de fome, o que te faz valorizar um pouco mais o dinheiro ao notar o quanto as coisas estão caras.

Se você quiser realmente conquistar aquilo que almeja e realizar seus sonhos, você com certeza correrá atrás disso e não precisará de seus pais pegando no seu pé para estudar ou te chamando para ir pra faculdade: você obedece os horários, mesmo que com um pouco de dificuldade.

Você aprende a valorizar ainda mais sua família, pois a saudade cresce cada dia mais e você se sente cada vez mais sozinho, principalmente quando não consegue resolver aquele problema ou quando vai tão mal numa prova que se sente desolado.

Acredite em mim, você sente falta até do seu irmão chato e das suas brigas. Sente falta dos amigos, dos velhos tempos, do colégio. Mas sabe que tudo valerá a pena, principalmente quando estiver naquele cargo dos sonhos, em sua cidade dos sonhos, com um carro, uma casa e dinheiro no bolso pra encher a sua geladeira com qualquer coisa que queira comer – ainda não cheguei nessa parte, mas espero que um dia eu chegue.


Paula Sousa

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