asas e segredos...

Porque o segredo é dar asas à criatividade!

Lucifrance Carvalhar

Escritora, sonhadora, amante da arte, literatura e da vida! Psicóloga, formada em Letras e Pedagogia e autora dos livros "Quando eu voltar a ser adolescente" e "Festa de Quinze Anos". Escreve poemas, contos e crônicas!

Capitu e o retrato da mulher moderna

Vivemos em um mundo no qual a mulher se modifica a cada dia. Como podemos pensar na Capitu, heroína da obra Dom Casmurro, de Machado de Assis? Será que ela é o retrato da mulher moderna?


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Capitu traiu ou não Bentinho? Essa é a pergunta que assombrará eternamente a humanidade nos meios literários. Machado de Assis partiu para outra esfera e levou consigo seu maior segredo: ela traiu ou não? Eis a questão! No entanto, ao refletirmos sobre essa personagem tão complexa, percebemos que Capitu, independentemente de ter ou não traído seu marido, revela em muitos aspectos o caráter da mulher moderna.

Apesar de ter vivido no século XIX, Capitu é fugaz, inovadora, perspicaz, sonhadora e sabe o que quer. Nunca se importou em ter uma grande amizade masculina, como sua dedicação e carinho por Escobar, que acabou levando Bentinho à loucura de um ciúme obsessivo.

Desde criança, ela vivia intensamente, mesmo com as severas críticas da sociedade. Para ela, o que realmente importava era o amor, a amizade e pagou um alto preço por isso, morrendo doente, solitária e abandonada por seu marido.

Bentinho jamais entendeu sua forte personalidade!

E mesmo com toda sua sagacidade e voracidade pela vida, Capitu aceitou um casamento convencional e quis viver um grande amor, embora não tenha alcançado a plenitude de um relacionamento, no qual deve haver confiança mútua.

Mas e se fosse hoje, como seria a nossa Capitu?

Certamente, ela faria a mesma coisa, porque mesmo com a modificação feminina perante a sociedade, que contempla a independência e inovação, milhares de mulheres ainda buscam um grande amor e se submetem muitas vezes aos caprichos de seus companheiros. Elas acabam aceitando relacionamentos controladores, pagando altas contas afetivas, como a solidão e tirania de seus parceiros por não quererem ficar sozinhas.

Capitu pode sim ser considerada o retrato da mulher moderna, uma vez que há por parte dela a constante busca interior, o inconformismo, mas que acaba indo ao encontro de um parceiro, mesmo que isso signifique anular-se e ser abandonada no seu relacionamento.

Machado de Assis estava à frente de seu tempo e construiu uma personagem eterna, cheia de nuances e sensibilidade. Capitu leva a mulher moderna a questionamentos sobre sua vida, seu comportamento, suas carências e se vale a pena aniquilar-se por alguém, seja ele quem for.

Seu triste fim deixa aspectos intrigantes, pois ela é acusada de traição por seu marido e nem sequer tem a chance de defender-se. Só ela e Escobar poderiam dizer o que houve entre eles!

O ciúme doentio de Bentinho faz com que seu casamento se perca em julgamentos inescrupulosos, colocando os olhos de ressaca da moça em xeque como em um jogo de xadrez, no qual só um vence, e neste caso foi Bentinho, o rei, que a abandonou à própria sorte!

A mulher atual infelizmente também é vista dessa forma, pois é julgada diariamente em suas ações. A independência feminina ainda assusta a sociedade e faz com que a mulher recue nos seus ideais e se aprincese na torre à espera do príncipe encantado, mesmo que isso custe a sua liberdade de sonhar e realizar.

Ter homens como amigos ainda revela um caráter machista e preconceituoso. Quantos maridos aceitam a grande amizade entre sua esposa e um homem? Há sempre um tom malicioso por parte deles nas rodas de amigos e até das próprias mulheres, abarcando o eterno julgamento e dúvida da traição de Capitu.

A sociedade embora se julgue moderna parou no tempo com relação ao desejo da mulher, condenando-a ao aprisionamento em relacionamentos. A mulher acaba abrindo mão de seus direitos emocionais, esperando e buscando um homem para ficar ao seu lado.

Quando está sozinha, sem um companheiro, inúmeras vezes ela é julgada por aquelas que estão em relacionamentos. Quantas de nós já não presenciamos mulheres que ao se separarem são banidas dos grupos de suas amigas casadas?

E quanto à traição? Quantas mulheres dividem com suas melhores amigas que um dia traíram seus maridos?

Já os homens contam para seus amigos como se isso fosse um prêmio!

Portanto, como Capitu pode ser vista pela sociedade moderna?

Como ser moderna em uma sociedade machista em que a mulher ainda é vista como um ser submisso, que deve ter amizades femininas a fim de evitar julgamentos capituenses em um mundo que pouco evoluiu desde a existência da nossa amada e eterna Capitu?

Estas são questões que devem ser discutidas nas rodas femininas, porque só assim as mulheres alcançarão seu espaço de forma íntegra, desmistificando os conceitos preestabelecidos e que ainda insistem em perpetuar na sociedade contemporânea!


Lucifrance Carvalhar

Escritora, sonhadora, amante da arte, literatura e da vida! Psicóloga, formada em Letras e Pedagogia e autora dos livros "Quando eu voltar a ser adolescente" e "Festa de Quinze Anos". Escreve poemas, contos e crônicas!.
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