através da tela

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Patrícia Fernandes

A arte da psique humana
E a psique da arte de ser humano!

Psicóloga e Psicanalista.

Bem Vindo à casa de bonecas: ensaio de como ver o mundo pela fresta

O Filme "Welcome to the dollhouse" de 1995 é um filme intenso por trás da roupagem de "humor negro" inicial. Sim, trata-se de um filme que desperta o riso, mas não só pela dentificação com os personagens de nossa vida mas por sermos todos protagonistas e coadjuvantes das maldades aplicadas ao redor e que hoje em dia são criminalisadas sob a alcunha de Bulling! O artigo comenta sobre as críticas feitas à sociedade classe média de New Jérsei e as razões psicológicas do bulling nas escolas e na família.


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É sabido que na adolescência, e não só nela, geralmente passamos muito tempo frente ao nossos espelhos internos e externos buscando identificações possíveis: a que grupo pertenço? Com quem me pareço? Já na primeira cena do filme, a protagonista púbere, Dawn, (curiosamente "amanhecer" em inglês), com sua bandeja na mão, passa minutos olhando ao redor à procura de um lugar para sentar. Como tudo na sétima arte pode ser transformado em poética, porque não pensarmos que já nesta cena nos deparamos com as perguntas feitas anteriormente sob a metáfora do "lugar à mesa"?: com qual dessas mesas me "pareço"?. Mas, a verdade é que após voluptuosas tomadas de ascentos à sua frente, Dawn encontra o que lhe sobra, um lugar na mesa do "não lugar", trata-se de outro adolescente que num primeiro momento não nos dá pista de ser menina ou menino, o que no desenrolar da cena nos declara ser menina e, como as outras, praticante de perversidades com a protagonista.

Mas, vamos à configuração familiar de Dawn. A adolescente é a irmã do meio de uma família que aos poucos se apresenta como: uma mãe extremamente fálica, cuja fala predomina em casa calando o pai que aparenta notável submissão, sugerindo receio de sua mulher. O pai de Dawn se comunica muito mais por olhares do que pela fala, desta forma, não consegue "castrar" esta mãe que manda, desmanda e faz diferenças entre os filhos. O irmão mais velho trata-se de um nerd viciado em computador, e aluno bem sucedido que não chama muita atenção em casa, mas aparenta adequação e esperteza uma vez que, mesmo sendo um nerd, tem uma banda bem sucedida na qual através de manipulações das qualidades intelectuais atrai um vocalista popular e bonitão. A irmã mais nova é o sonho americano da menina perfeita, loira, olhos claros e talentos no ballet, rodopia encantando a todos numa caricata atuação que arranca suspiros dos que a encontram leve e saltitante pelo jardim de casa. E por falar no jardim, este tem uma importante locação para Dawn, sua casa de bonecas, mais precisamente a "Casa de pessoas especiais".

A casa que dá nome ao filme, é uma espécie de clube "quase secreto" que Dawn e seu único amigo, o vizinho mais novo, sentam e sonham sobre serem populares um dia, e observam pela fresta, a pequena Missy, irmã mais nova, bailando lindamente no jardim. "Para ela é tudo tão mais fácil" diz Dawn de dentro da casa sobre sua irmã. Diferente do que o nome pode sugerir, a casa não funciona como um lugar onde as pessoas possam ser diferentes umas das outras e, mesmo assim, especiais. Pelo contrário, é um local onde Dawn fantasia ser perfeita como a irmã e onde esconde objetos nos quais tenta destruir o "mundo cor de rosa de Missy": martelos, serrotes, tudo que possa destruir as bonecas ou apenas nutrir fantasias de homicídio à loirinha.

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O filme levanta não só a questão do chamado bulling na escola, como também um tipo de bulling muito comum e pouco falado que é o intrafamiliar. Os pais, muitas vezes, traçam expectativas a cada um de seus filhos tornando-os fantasias vivas sem voz ativa para sair deste lugar idealizado.

O filme de Todd Solondz faz uma crítica à classe media suburbana dos EUA, mais precisamente Nova Jérsei com personagens que inspiram um vazio interior, impotentes, envolvidos com temáticas de estupro, pedofilia e escárnio. Mas, essa crítica torna-se mais contundente à medida que os assuntos são tratados de maneira banalizada, uma mãe que descaradamente prefere um filho a outro, um adolescente que demonstra ser machão, mas no fundo é um frágil rapaz abusado pela vida, uma sociedade que tem ogeriza pelo feio, e que pratica escárnio e violência moral apenas pelo fato de existir o diferente, o fora do padrão.

O que chamo de escárnio não é propriamente os maus tratos e sim o conteúdo por trás dos maus tratos. O que na verdade existe por trás dos bullings praticados na sociedade?

Em “Mal Estar na Civilização", Freud aborda o tema da pulsão de morte, aquela agressiva, diz que o homem quando privado de suas satisfações prazerosas, como por exemplo, a agressividade (que é um tipo de prazer estruturante a fim de conseguir viver com o que a sociedade impõe a todos para socialmente ser aceito) - é gerado um desconforto que nunca cessa. A fim de dar vazão a estes sentimentos, ou melhor, ao veto deles, o homem que anteriormente aplacou sua agressividade como um processo civilizatório, trata de agir por projeção, elegendo o “estranho” ou o diferente para ser porta voz de toda sua raiva. É assim que os marginalizados acabam sendo porta vozes da agressividade em massa. Como se houvesse através da massa uma permissão para praticar tal escárnio. Geralmente, como no filme, os feios , esquisitos, nerds são sempre os mais fragilizados e que ocupam este espaço.

O interessante no filme em questão, é que diferente da maioria dos filmes com este tema, “Welcome to the Dollhouse” não tem um final feliz. Dawn continua sendo a menininha quase invisível em casa, Missy continua brilhante, o pai continua sem voz, a mãe fálica e o primogênito o adequado que não dá trabalho.

Muitas análises podem ser feitas de um filme tão simples, pois mesmo sendo um enredo comum, com personagens comuns, "Bem Vindo a Casa de Bonecas" diz respeito a questões profundas e mostra muitos pontos de alienação da sociedade moderna. Um filme antigo (1995) mas com questões muito atuais.


Patrícia Fernandes

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