através da tela

espaço para discussões sobre cinema, cultura cinematográfica , estética e comportamento.

Patrícia Fernandes

A arte da psique humana
E a psique da arte de ser humano!

Psicóloga e Psicanalista.

Medianeras, onde estamos nós?

Como vivemos nossa solidão atualmente?
Será que é tão ruim assim estarmos sós? Ou trata-se apenas de uma fase necessária para nos reintegrarmos?
A solidão nas grandes cidades, são escolhidas? Ou inevitáveis?
Estas e outras perguntas nos vem à mente ao assistirmos ao filme argentino Medianeras. Um fóbico em recuperação viciado em internet, uma arquiteta recém saída de um relacionamento que faz freelancer de vitrinista para permanecer no entre lugares. Com se dá esta relação?
Aqui faço algumas reflexões sobre relacionamento, cidades e medo da vida segundo Alexander Lowen.


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Solidão! Sentimento que gera tanta angústia que muitas vezes com o medo dela chegar , corremos ao seu encontro a fim de passarmos a etapa mais difícil: a expectativa, a espera de sermos abandonados à nossa própria e atormentada companhia. Este é um sentimento presente durante todo o enredo do filme argentino com direção de GustavoTaretto: Medianeras.

A palavra medianera faz referência às paredes dos prédios nas quais são isentas de janela, aquela que isola uma area da outra. Em Buenos Aires, assim como no Brasil, as paredes designadas de medianeras não podem ter janelas pela própria legislação. Geralmente separam o “entre prédios”. Escolha interessante de título , já que o enredo trata justamente deste isolamento que as pessoas constroem entre si.

A primeira cena já demonstra uma desconexão , a falta de relacionamento entre a estética urbana na cidade de Buenos Aires. Os prédios mostrados e narrados pelo personagem Martin não se relacionam em beleza nem estilo. Segundo o narrador, parte da responsabilidade da solidão em Buenos Aires são dos arquitetos.

“O que esperar de uma cidade que dá as costas para seu rio?”(Martin) Sim, de fato há medianeras voltadas para o rio da Plata.

Difícil deixar a beleza nos sensibilizar?

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Martin é um Web Designer fóbico em recuperação que a princípio não consegue sair de seu isolamento relacionando-se com o mundo apenas virtualmente, aos poucos começa a sair com Ana, uma passeadora de cachorros e posteriormente com Marcela que conhece na internet, nada se mostra tão empolgante. Mariana divide a narrativa com Martin, ambos não se conhecem. Ela passa por uma crise existencial após o término de um relacionamento. É arquiteta mas faz “bico”decorando vitrines, o que mostra ser perfeito para sua situação de “não lugar no mundo”que sente atualmente:

“A vitrine é um lugar que não está nem dentro nem fora de qualquer lugar”

Este é um conceito interessante que nos faz pensar quantas vezes nos escondemos em pequenas vitrines por não entendermos ou não ficarmos confortáveis com o espaço que aparentemente ocupamos na vida, dos outros e na nossa .

Aos poucos com o andamento do filme percebemos que a solidão na qual trata o enredo, é uma solidão escolhida e não algo dramático, frases de efeito mostra-nos isso a todo tempo:

“A internet me aproximou do mundo mas me afastou da vida”.

Não é esta a grande questão atual? Qual a exata medida entre beneficiarmos-nos da tecnologia sem no entanto nos afastarmos da vida ao redor? A todo tempo o filme coloca-nos nesta dialética e suscita questões como por exemplo, quem é este que está ao meu lado e que não conheço? Mariana ao refletir sobre seu antigo relacionamento pergunta: “Como vivi com alguém por quatro anos que era tão estranho a mim?”

As questões simbólicas aparecem por diversas vezes, Mariana relaciona-se com manequins de vitrine, dando-lhes banho, abraçando-os , cuidando, pega seu livro “Onde está Wally “ e se pergunta porque consegue achar o Wally em qualquer cenário, mas não na cidade. Passagem igualmente interessante como forma de refletirmos em quem somos na cidade? Quem nos enxerga num turbilhão de demandas, acontecimentos e elementos?

Enfim, o filme inicia e acaba fazendo uma crítica ao modo que vivemos, mas uma crítica na forma reflexiva e não destrutiva já que perguntas são suscitadas e não respondidas e nem sempre mostra o resultado do isolamento como sendo ruim.

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A situação dos protagonistas e da cidade me faz lembrar de Alexander Lowen ( o criador da análise bioenergética) quando ele avalia a questão do medo da vida. Para o autor, quando abrimos nosso coração para o amor,ficamos vulneráveis ao risco da mágoa, se estendemos o braço à frente, sujeitamo-nos à rejeição, se agredimos, ficamos vulneráveis à destruição, e é assim que surge o medo da vida. O medo da vida seria uma forma de abafar os sentimentos em busca da anestesia que nos blinda, mas fica a pergunta: isso é eficaz? Creio que não já que os personagens mesmo ao nos demonstrar a necessidade de isolamento evidenciam uma busca de contato humano, seja esta por meio virtual ou na forma de uma imitação de si mesmo projetada em bonecos e brinquedos.

O fim como não poderia deixar de ser, continua interessante. Quando tudo parece caminhar para a continuidade de desencontros dos dois protagonistas/narradores, eis que Martin coloca sua roupa de listras vermelhas ( possivelmente fazendo referência ao personagem do livro de Mariana ‘Onde está o Wally”) e da janela, Mariana empolgada encontra o "Wally” que há muito tenta encontrar no cenário “Wally na cidade”, sai correndo e o aborda. Eis que uma cena interessante se faz: Os dois agacham aproximando-se do cachorro de Martin, ao meio o trânsito de pedestres como se nada mais existisse, como se fosse realmente possível isolar-se diante de milhares de pessoas. Realmente, uma cidade mostra e esconde, expõe e isola, ted á companhia e solidão.

Filme interessante, com roteiro que nos leva à reflexões importantes sem no entanto nos dar respostas positivas ou negativas, apenas elenca questões dando-nos a liberdade reflexiva tão rara hoje em dia.


Patrícia Fernandes

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