através da tela

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Patrícia Fernandes

A arte da psique humana
E a psique da arte de ser humano!

Psicóloga e Psicanalista.

O Lamento da Imperatriz: o diálogo sem palavras

O Lamento da Imperatriz é um filme/teatro/dança realizado e dirigido por Pina Bausch.
Filme de uma poética incrível e cativante no qual dispensando apresentações, Pina nos faz refletir sobre a beleza do movimento presente na dança.
A grande atriz deste filme de aproximadamente sessenta minutos , é a cidade de Wupepertal, cidade na qual Pina e sua Companhia de dança ensaiavam.
Nela bailarinos/atores encenam gestos e feições coreografadas de modo a explicitar a relação dos seres humanos com o espaço urbano, tendo que lidar com as prórpias emoções e mesmo assim necessitando dar conta do outro.Mas ela, a cidade, está sempre ali, presente, com todas a dinâmica de mudanças de estações, climas, cenários e pessoas.
Filme belíssimo que nos coloca em um outro lugar enquanto seres que habitam os espaços carregando sentimentos muitas vezes contraditórios, perambulando sem saber como carregá-los.


O filme de Pina Bausch “O lamento da Imperatriz” tem como sua protagonista principal a cidade de Wupepertal, cidade sede de sua companhia de dança. Os bailarinos/atores compõem o filme como instrumentos narrativos cuja linguagem é a dança.

Pina Bausch em suas coreografias faz questão de polarizar as emoções levando-nos a uma grande viagem entre alegriaXtristeza, perturbaçãoXtranquilidade, complexidadeXsimplicidade através de gestos, ritmos, feições e a simples ocupação do espaço circundante.

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No filme em questão, o espaço urbano, que atualmente e já naquela época é palco de "esconde esconde" das emoções, aparece como lugar de possibilidades de evasão destas . Como se os protagonistas encenassem danças da solidão cujo objetivo é mostrar através do tempo, espaço e estações do ano a grandeza das oscilações que vivenciamos durante a vida.

Dentro de um salão sendo acariciada pelos dedos masculinos ou na riqueza simbólica de um homem ao “carregar um armário nas costas”no meio do campo Pina aborda a natureza humana e suas peculiaridades sem perder de vista a diferença que existe entre expor os sentimentos no espaço público ou entre quatro paredes.

Embora haja pouca interação entre atores, a solidão demonstrada pelos bailarinos é sempre acompanhada, seja pela lembrança, pelo espaço ou pela própria emoção ora sorridente, ora cambaleante em cenários diversos. As variações da natureza, bem como a interação que traçamos com ela são constantemente demonstradas. Os personagens/bailarinos de Pina são sempre expostos à chuva, lama, neve, sujeira , e com isso coloca o homem como não sendo incólume ao mundo, sem a existencia de uma assepsia possível ao viver e evoluir.

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O universo do absurdo também está presente. Uma moça vestida de coelhinha (parecida com a das revistas masculinas) desajeitada tropeçando ou tentando manter-se em linha reta entre lamas e barrancos, sugere a natureza das meninas sexies que posam nas fotos explicitando um avesso contraditório. Qual seria o lado certo? “O avesso do avesso do avesso do avesso? “(Caetano Veloso) Sim, talvez o que Pina mostra é que o avesso também é o lado certo.

Característica marcante de Pina é que ela interessa-se pelo drama humano.

“Eu tento achar o que eu não posso dizer em palavras… … embora eu conheça eu estou olhando para achar o que é” (Pina B.)

O corpo explicita muitas vezes o que não tomamos consciência. Merleau Ponty, ao escrever sobre a fenomenologia dos corpos, diz que este ( O corpo) permite centrar nossa existência mas também nos impede de centrá-la completamente. É como se nos enxergássemos e no segundo seguinte ficássemos cegos aos nossos sentimentos .Integração X desintegração. O Lamento Da Imperatriz , apesar de ter como protagonista a cidade, tem em seus personagens a sugestão de como este espaço urbano influencia no nosso ser, e como seria se a cidade tomasse uma forma humana. Como se ao olharmos os personagens em movimentos, e através desses movimentos lessemos os lamentos, angústias, prazeres, falsidades, pudéssemos enxergar a cidade se comunicando. Uma floresta cujas árvores são demarcadas por números é a marca da tomada de espaço do homem na selva, mas uma mulher perdida em meio a esta selva mesmo sendo ela numerada, demonstra-nos o embate real que a natureza trava com o homem e sua pretenção de domínio.

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Pina nos inebria em suas coreografias nos fazendo refletir sobre a natureza humana, sobre os sentimentos e sobretudo sobre nossos diálogos sem palavras. Assistir a este filme ,nos toca muito além de sua poética, muito mais do que o enredo em si, mas principalmente a idéia de que somos um corpo e devemos nos comunicar com ele, apropriarmos desse corpo de maneira a conseguirmos sentir integralmente a conexão corpo e mente.

A sexualidade sempre presente e a dialética homem/mulher fragilidade/força aparece na cena em que as pernas de uma mulher com saltos vermelhos caminha sensualmente porém com passos firmes e músculos trabalhados. Esta marca de Pina colocando-nos frente às diferenças e igualdades de gêneros aparece em cenas como esta.

A possibilidade dos corpos no contraponto movimentoXparalisia é notada nas cenas que se alternam de casais dançando tango , e outra em que um corpo inerte fica deitado paralisado na neve. Interessante refletir sobre a dinâmica competitiva entre as pernas no tango que freneticamente movimentam-se e o gelo que nos deixa inertes, paralisados. Aí está a beleza dos corpos que em um momento pulsa no movimento e em outro paralisa sem perder o pulso.

Teatro dança ou dança teatro, não importa, o que se faz importante é esta obra de arte que Pina nos deixa, rica em símbolos e consequentemente em significados. Vale muito uma contemplação.

O youtube contém o filme na íntegra.

https://www.youtube.com/watch?v=jMUsi20n2o


Patrícia Fernandes

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