através da tela

espaço para discussões sobre cinema, cultura cinematográfica , estética e comportamento.

Patrícia Fernandes

A arte da psique humana
E a psique da arte de ser humano!

Psicóloga e Psicanalista.

A Sexualidade Feminina nas Danças de Lavoura Arcaica

O Filme brasileiro Lavoura Arcaica, de Luiz Fernando Carvalho, baseado no livro homônimo de Raduan Nassar, é uma jóia rara. Com um texto fiel de puro lirismo, Luiz Fernando carvalho também apresenta a personagem Ana, filha da família de imigrantes libaneses na qual o filme discorre, tal como no livro, sem proferir nenhuma palavra. Ana, com isso, não deixa de ser protagonista, pelo contrário, através de duas danças - uma no início, mais tradicional, e outra ao desfecho trágico, mais sexualizada - demonstra todo seu desejo e transgressão através de gestos que fazem alusão ao arquétipo da Pombagira, e suas vestimentas que lembram as prostitutas.
O texto a seguir trás uma análise baseada na teoria do movimento de Laban, o arquético da Pombagira e o Tabu do incesto baseado no livro de Freud Totem e Tabu.

“Nada é mais revelador do que o movimento, o que você é, se expressa no que você faz.”(Graham,M; 1973).


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A dança revela a cultura de um povo e, individualmente revela desejos e traços da personalidade.

“Nada é mais revelador do que o movimento, o que você é, se expressa no que você faz.”(Graham,M; 1973).

O filme Lavoura Arcaica baseia-se na novela trágica de Raduan Nassar e conta a história de imigrantes libaneses, seus costumes e a relação entre os integrantes da família que, muitas vezes, são submetidos às severas regras do patriarca em torno da mesa ao longo das refeições milimetricamente demarcadas pelos lugares dos filhos em ordem de nascimento. A ordem é portanto, algo que se faz presente nesta família. Já nos primeiros momentos do filme, e do livro, André mostra-se como o filho que reflete, que deflagra as irregularidades de uma família que faz de tudo para manter as tradições mas que , como toda família, esconde segredos que “falam”por meio de sutilezas. A cultura libanesa é demarcada com força na primeira dança da família, o Dabke. Esta é uma dança tradicional do Líbano e tem sua tradução literal como “carimbo dos pés”ou bater os pés no chão. É sempre executada em rituais familiares, ocasiões festivas como casamentos por exemplo.

O líder geralmente segura um lenço, e é suposto como uma árvore, fazendo possivelmente alusão à bandeira nacional, com os braços no ar, ereto e orgulhoso. No caso da primeira dança, Ana toma-lhe o lenço para si e o balança como uma árvore frondosa e frutífera; sensual , porém dentro dos padrões de sua cultura, envolta por elementos de sua família que a circundam na proteção do parentesco. Já neste momento André é o excluído que a observa de longe, fora do círculo e parece estar febril como se entrasse na aura pré convulsiva que inaugura o filme.

Ao observar Ana, André repete com os pés o gesto que desde criança “(...) amainava a febre dos meus pés na terra úmida...”. Era a tragédia, o tabu que se anunciava. Em Totem e Tabu, livro de Sigmund Freud de 1913, o autor aponta que o horror e o desejo ao incesto são duas faces de uma mesma moeda e estão presentes em todas as sociedades sejam as mais antigas civilizações ou as atuais. Freud mostra-nos que o sistema de totemismo sugere severas punições às pulsões sexuais entre as relações incestuosas. O objeto desejado recebe o estatuto de objeto impossível. Ao tentar interditar o desejo ( que é de natureza inconsciente) este fica sujeito à ação do deslocamento e desta forma aproxima-se cada vez mais do sujeito, por vezes até na forma de sintoma (convulsão?) “A violação de um tabu, transforma o próprio transgressor em tabu...”( Freud, 1913) André foge pois ao desejar a irmã ele próprio o designa com o título de transgressor ou doente.

“Era Ana a minha efermidade, ela era minha loucura, meu arrepio, a minha lâmina, meu sopro,o assédio impertinente dos meus testículos”(Nassar, R,)

No sistema de totens descrito por Freud no referido livro, os aborígenes australianos não podem manter relações sexuais nem casamentos entre indivíduos de um mesmo totem, sendo a penalidade pela transgressão, a pena de morte. Os aborígenes tinham pavor ao incesto, e a este horror peculiar não se conhece a origem. O filme desde o início parece sugerir relações de extrema sensualidade entre André ainda criança e sua mãe. É visível sua predileção pelo filho e seus toques por debaixo das cobertas ao acordá-lo já insinua a possibilidade de ser esta uma mãe bastante erotizada em sua relação com o filho, sem no entanto se tratar de abuso. Como foi dito anteriormente por Freud, o desejo inconsciente é passível de deslocamentos, pode-se pensar então que se a mãe está interditada, olha-se para o lado e vê-se uma irmã sensual em seus movimentos e olhares. Embora fica claro em uma citação do Alcorão no livro de Raduan Nassar, que “Vos são interditadas: vossas mães,vossas filhas e vossas irmãs”(Alcorão-SurataIV,23).

A SEGUNDA DANÇA DE ANA- A REVELAÇÃO

A dança é um exemplo clássico do prazer em movimento, a música faz vibrar nossos corpos que traduzem em ação aquele prazer. Dar forma aos sentimentos ajuda o sujeito a ter uma postura criativa de resolução de problemas . A partir dos pressupostos de Laban , o corpo expressa a relação entre o indivíduo com seu meio e com as relações que ele estabelece. “O inconsciente do corpo ganha uma força que subjuga a consciência de si” (Laban, 1971)

A segunda dança de Ana aparece-nos como uma catarse, uma revelação para si e para o mundo , do seu desejo ,do desabrochar feminino, do caminho do “pecado”da revelação do tabu. Ela se joga para a dança da morte. Ana deixa para trás seu recato, enfeita-se com as “quinquilharias”da caixa de André, os adornos das prostitutas e com um misto de cigana, Pombagira e em um ritual dionisíaco, banha-se com vinho, executa movimentos que transpassam a sensualidade e chegam a um ato quase pornográfico e dirigi-se a André, para o horror de toda a família que tenta em gestos desesperados “cobrir”o desejo com os lençóis. O que é para estar no corpo apenas do bailarino, é captado e vivido pelos outros corpos que, ao serem instigados nos mais íntimos desejos, despertam o horror e a violência traçada pelo próprio pai que sente-se ultrajado:

“Ferido em seus preceitos, que fora possuído de cólera divina(pobre pai), era o guia,era a tábua solene, era a lei que se incendiava”(NASSAR, 1989 p-191)

A dança de Ana que a princípio, baseado na análise de movimento de Laban, era de movimentos flexíveis,leves, sustentados e flutuantes, com uso do espaço de forma direta, passa num segundo momento a peso forte, rápido com movimentos diretos mas dirigido principalmente ao irmão amante. A dança era para ser no contexto do ritual festivo da família, uma comemoração da volta de André, e Ana, que ao saber do retorno do irmão, sai de súbito da mesa do jantar em direção, ao que se pensava, à igreja, mas na verdade parece já se preparar para a revelação final. Eis que some a caixa de quinquilharias mundana de André e seu conteúdo adorna , no dia seguinte, o pescoço, pulsos e cabelos de Ana.

“(...) quando menos se esperava, Ana(que todos julgavam sempre na capela) surgiu impaciente numa só lufada, os cabelos soltos espalhando lavas,ligeiramente apanhados num dos lados por um coalho de sangue(que assimetria mais provocadora!), toda ela ostentando um deboche exuberante,uma borra gordurosa no lugar da boca, uma pinta de carvão acima do queixo, a gargantilha de veludo roxo apertando-lhe o pescoço, um pano murcho caindo feito flor da fresta escancarada dos seios, pulseiras nos braços, anéis nos dedos, outros aros nos tornozelos, foi assim que Ana, coberta com as quinquilharias mundanas da minha caixa, tomou de assalto a minha festa, varando com a peste no corpo o círculo que dançava...dominando a todos com seu violento ímpeto de vida...”(NASSAR,1989,p-186-187)

Os movimentos de Ana nesta dança reveladora, mostra influência do flamenco, quando simula com os dedos o estalar de castanholas, a flor no cabelo e o ritmo forte dos passos, mas nos remete também à liberdade sexual da Pombagira, esta sintetiza aspectos mais livres e chocantes da sexualidade feminina. A Pombagira é uma entidade do candomblé, uma religião Afro-brasileira e da Umbanda, que é representada por uma mulher exuberante, sensual, dominadora incorporada por uma médium em rituais nos terreiros. Geralmente é uma mulher de gestos extremos, risada alta, aparente liberdade e vigor físico. Os assuntos aos quais os riruais da Pombagira estão ligados geralmente são de cunho amoroso, a imagem dela sempre esteve muito atrelada às prostitutas, e as cores vermelho, roxo, rosa e preto também são muito utilizadas.

Este misto de movimentos e formas, e a estética de Ana na segunda dança, resulta em uma comunicação da liberdade, de um grito , do império do desejo, do estravasamento da feminilidade para além de sua cultura e dos tabus sociais. A dança de Ana é o chega como um orgasmo no filme, como se fosse neste exato lugar que devia-se chegar, é quando o “não ditto”revela-se a toda família, o segredo dos quartos fechados chegam à sala com toda a força do desejo. A tragédia familiar se deflagra e é ceifada na mesma medida.


Patrícia Fernandes

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