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O constante movimento da vida...

SAH

" aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos, por aqueles que não podiam ouvir a música."

O CASTELO DE VIDRO

Sobre: As lágrimas que escorreram ao fim da leitura de “O Castelo de Vidro" de Jeannette Walls como forma de transbordar cada mágoa, revolta, insegurança, medo, incerteza, indignação e admiração sentida através da experiência pessoal da autora, que dialogaram diretamente com meus sentimentos. Se você é uma pessoa marcada por duras memórias, carregada de mágoas, culpas e ressentimentos, você precisa ler esse texto e a posteriori o livro! Através dessa vigem é possível entender o conceito de resiliência e amor incondicional.


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Depois de quase dois meses lendo o livro recomendado por minha terapeuta, hoje dia 18 de abril de 2015, às 23:04 eu, finalmente, terminei a leitura do livro, “ O Castelo de Vidro” de Jeannette Walls. Fiz questão de enfatizar a data e à hora, pois nunca antes havia demorado tanto na leitura de um livro que estivesse gostando, como nesse caso. O texto é de fácil leitura em se tratando da construção da narrativa, porém de difícil concepção, de que alguém possa ter sido tratada com tanta independência ainda tão nova; tenha passado por todos os perigos; vivido uma vida tão miserável e sem cuidado, por escolha de seus pais.

Por várias vezes tive que dar uma pausa para respirar, antes de continuar com a leitura – Uma frase, mil pensamentos na cabeça e os mais variados sentimentos – Nesse momento estou com choro preso, não sei por qual motivo em específico, se o término do livro ou se por tudo que ele suscitou em mim e ainda não foi de todo elaborado – os respiros foram apenas um intervalo, mas e agora que acabou de vez? Quero saber mais sobre Jeannette Walls (RS). Minha vontade é de encontrar com ela e demonstrar toda minha compaixão e admiração por aquela menina, que apesar de toda contrariedade do tempo, da vida, do seu mundo, não negou fazer parte desse avesso; aprendeu a enxergar o melhor nas piores situações e nunca perdeu a fé na vida e nas pessoas que amava – Por mais loucas e inconseqüentes que pudessem ser – E foram! Queria abraçar essa pessoa que AMOU, APESAR DE. Que verdadeiramente amou!

Eu já li tantas definições sobre o que seria amar, inclusive, segundo Machado, não há definição para o amor, pois quem o define, não AMA. Sempre achei que não houvesse palavras para traduzir esse sentimento, mas após ler cada linha desse livro, eu acredito sim, que o amor pode ser definido, quando se é verdadeiramente sentido – Isso é muito difícil! Mas ela conseguiu. Porque eu não posso conseguir? Ela conseguiu amar, sem cobranças, pelo contrário: silenciou, negou muitas vezes seus sentimentos, sua fome, sua dor, suas necessidades para não constranger os pais – Sabia que eles só tinham aquilo para dar e aceitou de bom grado toda miséria e desalento – Lutou por eles! Batalhou pela família e quando cresceu, se empoderou da própria vida e escreveu a própria história, sem vitimização, sem culpar a ninguém! OK! Talvez no fundo responsabilize seus pais, o destino, sei lá... É muito difícil pensar que alguém que tenha vivido aquela vida não busque responsáveis, não carregue mágoas e marcas. O fato é que Jeannette Walls não demonstrou em sua narrativa nenhum desses sentimentos. Quem leu a obra sabe que motivos ela teria de sobra! Mas, ela escolheu amar! Amou aqueles pais que mais pareciam seus filhos. Cuidou de todos e quando cresceu, fez sua chance de mudar e mudou! Batalhando como sempre, se tornou uma grande Jornalista. Contudo, sabe o que mais me chamou atenção em toda sua história? O que mais me bateu? Não como uma porrada no estômago ou dois tapas na cara como ocorreu durante vários momentos da leitura, mas como algo que chega para libertar: A RESILIÊNCIA E O AMOR INCONDICIONAL. i77436.jpg Ao mudar de vida e poder ajudar seus pais, ela oferece-lhes ajuda e eles não querem, não por orgulho, mas por escolha, modo de vida – Eles são felizes assim! E deixam isso bem claro a cada instante – Preferem morar nas ruas a ter uma casa. Eles não querem ajuda, porque não acham que precisam; e ela, mesmo os amando e querendo o melhor para eles, respeita, pois entende que é uma escolha deles e são felizes dessa maneira. Vamos combinar que essa é uma postura admirável ao mesmo tempo, um tanto quanto difícil, mas apesar de toda sensação de que precisa fazer algo, toda a angústia e aflição que sentia todas as vezes que pensava neles nas ruas e os encontrava, ela entendeu que se esse não era um problema para eles, não deveria ser para ela também. Portanto, aceitou e aprendeu a lidar com eles dentro das possibilidades – Se para ela os pais é que estão loucos por escolherem esse modo de vida, para os país ela é quem não entendeu nada sobre o que é a viver a vida sem amarras, sem ter que dar conta do que espera a sociedade – Uma vida cheia de limites e necessidades para ser feliz.

Já deu para perceber que esse livro permite várias análises: psicológica, filosófica, antropológica, enfim... Mas o que quero destacar nessa obra é o que estou me perguntando até agora: Será que eu seria capaz de amar, aceitar e reconhecer algo de bom nesses pais que deixou a ela e os irmãos totalmente a deriva? – Será que eu deixaria e legitimaria o direito deles quererem morar nas ruas e viver de resto dos outros? – Sempre ouvi dizer que quem ama cuida, mas qual é o limite desse cuidar? – E se a pessoa não acha que precisa ser cuidada, quer apenas o direito de fazer suas próprias escolhas – Será que ainda assim eu amo? Amo quando sou contrariado, quando ocorre a desidealização? Amo quando as pessoas mudam e já não tem mais todo tempo do mundo para mim? Amo quando reconheço os prejuízos, dores e mágoas que o outro deixou em mim? Amo o avesso do que sou e acredito?

Por muito menos, eu não amaria. Ou amaria, mas seria um amor contaminado por cada falta, por cada silêncio não feito, por cada palavra infeliz, por cada abandono, por cada ausência, por cada lágrima, por cada choro não chorado, por cada colo negado, por cada vez que é preciso crescer para fora. Existe uma linha muito tênue entre o cuidar e controlar, entre o amor e a posse, entre o doar e o dar. Na medida em que o outro começa a fazer parte da sua vida é quase que inevitável cria-se uma gama de expectativas em cima da ilusão que se tem do outro. E sabe qual é o maior erro do ser humano? Querer dar conta dessa demanda. Até que chega um momento em que ou o outro cansa ou a vida muda, as pessoas vão tendo menos tempo e você precisa dar conta do seu forninho, sozinho. E aí, de quem é a culpa?

Tudo bem!É muito difícil perceber o momento em que estamos sendo invasivos, egoístas, inseguros. Sempre temos uma justificativa para todo equívoco. Em grande parte justificamos com: “Eu te amo é natural querer que você seja feliz!” O problema é quando achamos que somos responsáveis por fazer alguém triste ou feliz. – A gente não dá conta nem da gente, quanto mais do outro – Na mesma medida, que quanto mais eu faço por alguém, mais eu entro a vida dessa pessoa e mais me acho no direito de decidir o que é melhor para ela. Esse, geralmente é motivo de muitos conflitos entre pais e filhos. A gente já nasce com a premissa que nossos pais precisam dar conta da gente e são perfeitos. Nossos pais, ao ter conhecimento da gravidez, carregam a preocupação e responsabilidade de fazer com que a gente dê certo. O x da questão é que a concepção de “dar certo” para os país é distinta da dos filhos. Quando somos crianças seguimos seus valores e perspectivas, até que chega o momento em que começamos olhar o mundo sobre nosso prisma, baseado em várias referencias, que não mais a dos nossos pais, apenas. É aí que temos a chance de mudar o que achamos equivocado e de incorporar o que achamos importante, necessário e passamos a escrever nossa própria história. Esse é um período difícil de transição, que exige uma diferenciação do que pertence a nós como indivíduos e do que pertence ao outro. Em alguns casos, como no da Jeannette, a questão perpassa essa distinção, está mais para fora, no mundo que a circunda do que para dentro, quanto a sua personalidade – Não que sua vivência não tenha influenciado diretamente na mulher em que ela se tornou. Ter pais que não assumem a responsabilidade da paternidade deixa muitas marcas, mas tanto ela quanto os irmãos não partem de que essa é a única maneira de se relacionarem como uma família – Chega o momento em que Jeannette joga sobre os pais todo o silêncio de anos e os questionam, por que não se comportam como pais. Leva uma coça pelo desrespeito e sofre não só pela dor física e moral, mas pela possibilidade de ter ferido e causado neles qualquer constrangimento que seja. Tudo porque ela os ama, AMA APESAR DE TODOS OS PESARES, que a meu ver e acredito que ao ver de todos os leitores são muitos e inadmissíveis. Mas para ela, eles só eram diferentes, um pouco atrapalhados com a própria vida. Ela sempre os olhou com carinho APESAR DE. Ela não cobrou muito deles porque não os comparava com família de anuncio de margarina, no mínimo com os vizinhos tão diferentes quanto eles.

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Disse anteriormente que terminei essa leitura com choro entalado sem entender muito bem o motivo, mas ao escrever esse texto percebo que não é pelo fim do livro ou por compaixão da família Walls, mas por mim e por todas as pessoas, que limitam o seu amor a uma troca baseada em interesses, principalmente emocional; a necessidades desnecessárias; expectativas supridas; E o mais triste, a ilusão criada sobre tudo que o outro não pode ser e oferece. Essa equação só pode nos levar a seguintes resultados: frustrações, mágoas, rancores, vazios e solidão. Toda vez que não encaramos a realidade, estamos fadados a amar a ilusão, e essa uma hora acaba. O que fica? A saudade do que nunca existiu. Agora se aprendermos a olhar com o cuidado de perceber as dificuldades e imperfeição alheia, certamente teremos dificuldades para amar, mas ao aprenderemos a transformar nosso olhar buscando o que o outro tem de melhor, o amor vai sendo construído com a consciência de toda possibilidade do ser humano. Dessa forma, deixamos de lado as expectativas e nos abrimos a desmembrar o mundo que cada pessoa é. Assim, ao invés da desidealização o que se vive é o processo de aceitação, só a partir daí, será possível viver perto do outro sem perigo de ódio. Ame! Mas dê a pessoa amada o direito de ser o que quiser e levar a vida como queira!

Queira ser amado, não pelo o que os outros esperam de você, mas pelo o que você verdadeiramente é! Não alimente as ilusões alheias para que se torne querido, pois no momento em que sua disposição acabar, vai com ele todo o gostar. E finalmente, coloque algo muito importante na sua cabeça: NINGUÉM TE DEVE NADA!!! As pessoas podem ser para você sol ou chuva. Elas escolhem ser o que quiserem, assim como você, portanto, não há vítima ou culpado. É uma questão de escolha! Agradeça a todos que em algum momento foram e são um sol na sua vida. E aqueles que são chuva, você tem duas opções: reclamar do mau tempo e não sair de casa sempre que estiver chovendo, ou usar instrumentos como a sombrinha para não se molhar, assim como aproveitar a chuva para tomar um bom banho e lavar a alma.

A minha terapeuta, meu muito obrigado pela indicação do livro, que por sinal vai render várias sessões (RS). E a Jeannette Walls, meu agradecimento por ao ter compartilhado sua história ter feito despertar uma série de reflexões. Acredito que narrar sua vida tenha sido um processo difícil, contudo, libertador. Quanto a mim, não tenho dúvidas de que ler essa obra foi como um bom banho de chuva com direito a trovões e a trovoadas. Nesse momento, vislumbro um lindo arco-íris.

# FICA DICA!


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" aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos, por aqueles que não podiam ouvir a música." .
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