ayla cedraz

por entre fotos e nomes

Ayla Cedraz

"tudo o que somos é poeira no vento"

A brutalidade das coisas

Sobre como a repetição esgota as poucas energias que restam, quando a ânsia das coisas que esquecemos se revela persistente em forma de peso absurdo sobre a manhã que sempre volta.


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Frequentemente, meu primeiro pensamento diário tem se repetido descaradamente: De novo. Um corpo mole e pálido movimenta-se acabrunhado sob o vento frio da madrugada; vendo o céu clarear num ritmo lento que transita tão depressa que chega a sobressaltar-me, num momento. A marca do travesseiro instalou-se no lado direito da face, assim como a marca de toda essa lista de afazeres faz-se amarga num ponto escondido, que o comportamento alheio de cada um assim me permite manter. Não há, na verdade, espaço para discorrer: as coisas precisam ser feitas, é o que sabemos; assim, simplesmente o são. Não há, que pena, espaço para entortar-se sobre um ombro, visto que este caga para o que já se sabe muito bem, desde sempre. Estou desfalecendo, tu também: grande coisa; agora, continuemos.

De novo, prostro-me diante de rostos lívidos e ermos; não os digo coisa alguma, e também elas nada revelam. Não há silêncio, entretanto, compreenda: o ar é pesado, tantas são as palavras soltas e aleatórias em tamanho, textura e comportamento. Textura, sim: atingem-nos ainda que transvestidas em insignificância, e tu também bem sabe como desagradam ao contato com a pele. Como crer, assim, que posso outra coisa? Então digo: abafa o som cruel, tampando bem os ouvidos, e concentra-se no pensamento das coisas improváveis e, de olhos fechados, pensa nas coisas maiores que, vivendo, já testemunhou de verdade. Verá que se tratam, na verdade, de sonoridades ocas, facilmente dissipáveis. Pois é o que busco alcançar.

Mas é que é mesmo de lascar; dada a proximidade e força deste silêncio pesado, o pensamento que explico é difícil de se tocar e comprovar possibilidade de alcance. Penso, às vezes, que não passou tudo de um sonho. E é principalmente ao acordar, quando temos de rasgar o invólucro da tão querida quietude, que mais precisamos disso! Seria algo pensável, talvez: programar tudo para modificar o primeiro pensamento; que nos chegue este, então, automaticamente, porque necessitamos para tudo o mais.

Outro dia, minha avó chamou-me no sofá, e apontou-me para onde deveria olhar, naquela tarde longa que desfigurava tudo; pulsávamos em agonia silenciosa. Na mesa de centro, um vaso longo e sofisticado existia sobre as decorações menores. Nele, projetava-se a essencialidade do sol grande e cruel; refletia-se na forma de quatro pequenos sóis, entre o pequeno feixe de poeira que também se revelava. “aperte um pouco os olhos”, disse-me ela. Pude acreditar que os quatro pontinhos brilhosos flutuavam por magia no vaso empoeirado; então agora guardo a imagem. Porque “quase”, então, é a palavra que, extinta entre “pude” e “acreditar”, permite-me visualizar a real existência do pensamento do improvável, que divide o campo de visão atual do que ainda há de ser.


Ayla Cedraz

"tudo o que somos é poeira no vento" .
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