ayla cedraz

por entre fotos e nomes

Ayla Cedraz

"tudo o que somos é poeira no vento"

Breves imensidões

Se as coisas condensarem e ganharem forma no peito doído, há de achar saída (ou não).


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Sentado na cadeira de ferro velho da cozinha, sem as calças, o velho encarava a parede descascada à sua frente, onde imaginava pequenos insetos vivendo por dentro da estrutura, na escuridão. Conseguia pensar naquela vida de um modo mais bonito do que via a sua própria; ao seu redor, as coisas pareciam muito mais empoeiradas e impossíveis de compreender e, embora as lâmpadas agredissem seus olhos, já não dormia no escuro. Temia a própria casa. Constantemente, deitado na cama sobre lençóis engordurados, Bento perdia-se em horas, imaginando os cômodos vazios, os móveis frios e calados em seus lugares, e tudo o que antes sucedera e que agora era só silêncio.

O rapaz de joelhos diante de si, parecia focado no que estava fazendo, chupando-lhe de modo agressivo e determinado, fazendo ranger a cadeira de ferro velho, um som agudo e doído; rangeu os dentes. No entanto, alheio a ele, o velho ainda encarava a parede, de olhos bem abertos; quase como se esperasse uma revelação ser escrita, uma luz mínima no canto do olho. Nada, por toda poeira sob as rugas, acalmara sua ânsia. Então agarrava-se à improbabilidade da vida, apesar de tudo, na sua, ser tão previsível, e o corpo cada vez com mais frequência avisasse sobre o fim.

Retirado do fundo prestes ao afogamento, o velho agarrou os cabelos do rapaz ajoelhado e lançou-lhe com força inesperada contra a parede oposta; havia mordido seu membro murcho, o maldito. Ainda sem as calças, pagou-lhe sem ouvir os repetidos pedidos de desculpa, ainda confuso; não se espantara exatamente com a dor sentida, mas por entender, através dela, que esquecera de todo que havia alguém consigo. Mais tarde, debruçado sobre a janela do quarto, encararia o céu de expressão vazia, e tentaria captar mais uma vez o sentimento da improbabilidade; as imensidões ainda lhe tocavam e ele temia pelo dia em que se tornasse imune a elas.

E houve o dia em que aconteceu. Bento correra explodindo poças d’água da chuva recente, atravessando a avenida até o mar, barulhento e incontrolável; ondas agressivas que se dissipavam inocentes na areia compactada. Daquela vez, a casa tomara suas boas lembranças e gritara forte em seus ouvidos, que agora sangravam, enquanto a segurança da improbabilidade era puxada com violência da base de seus dedos até ser incapaz de sentir sua textura; caído e violado, restou no peito pálido e frágil de Bento a certeza plena de que nada mais seria, de que o abandono finalmente caíra sobre ele e de que nada mais seria. De novo. Nada mais seria.

Só com a força dos anos que pesam, acreditara que as imensidões continuavam em algum lugar. Da janela, não foi capaz de ignorar os prédios cinzentos à sua frente, parecendo o céu tão distante e turvo. Foi então que decidira correr para o mar. Assustou-se com a rapidez com que movimentara as pernas capengas; era o seu segredo agarrando-se à vida, tomando controle do corpo de tal forma que mal se reconhecia; algo dentro entendia a gravidade do que sucedia: estava acabando.

Ignorando a confirmação já tão óbvia, pululando no peito ofegante, Bento jogou com ingênua confiança o corpo à beira da praia, molhando-se um pouco. Atrás de si os carros corriam, e era o único sinal de gente ao redor. Ele, à frente das luzes dos prédios, dos faróis e dos postes, concentrou a visão no ponto onde a impossibilidade do fim de tanta água se confirmava; em silêncio e esperança, encolheu-se em sua pequenez, deixando que a extensão das coisas que ele não sabia lhe consumissem até a espinha. Fingiu que se deleitava sobre a ideia, para ver se tocava o pensamento... Fechou os olhos, apegando-se a lembrança de modo a fazê-la regressar ao peito; podia jurar que a agonia, o corpo estranho cancerígeno que adoecia seu resto de Bento, dissipava-se aos poucos como fumaça no céu. Mas abriu os olhos e sentiu o irromper agudo do buraco sem fim gritar em eco eterno; nada mais seria. Diante de tudo aquilo que ainda existia: ainda assim, nada mais seria. Esmurrou a areia com ódio, inconformado. Pois se por toda a vida existira de mansinho, com muito cuidado para não afetar a certeza, dia após dia, abafando com determinação a sombra da repetição injustificada, porque agora sofria? Pois se fizera tudo certo, de novo e de novo, porque agora o mundo lhe renegava? Era só o que conhecia e, agora repelido pelas imensidões, o que seria? Nada mais.

Naquela noite, Bento dormiu com as luzes apagadas.


Ayla Cedraz

"tudo o que somos é poeira no vento" .
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