ayla cedraz

por entre fotos e nomes

Ayla Cedraz

"tudo o que somos é poeira no vento"

EU MATEI MINHA MÃE: QUANDO NÃO SE IGNORA

Eu matei minha mãe (J'ai tué ma mère, 2009) foi o filme de estreia do promissor canadense Xavier Dolan como diretor, e traz uma ideia provocativa desde o título que, ao menos, intriga.


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Somente ler o título do filme faz parar: “Eu matei minha mãe”. A relação entre mãe e filho nos parece (inicialmente) algo tão sagrado e imaculável, que a frase choca. Entretanto, esse provavelmente foi a intenção de Xavier Dolan, ator, roteirista e diretor, ao exibir seu roteiro, escrito quando tinha apenas dezesseis anos. Caso esteja curioso, ele admitiu durante uma entrevista ao jornal Le Soleil que o filme é, em parte, autobiográfico.

Hubert, interpretado pelo próprio Dolan, tem dezessete anos e vive num mundo cheio de incertezas (o que, até então, é normal para alguém dessa idade), intensificado pelo modo tenso com que se relaciona com a mãe, Chantal, afirmando estar num ponto onde não a ama, sem odiá-la. “Quando minha mãe e eu éramos estranhos, nós nos amávamos. ” Esse desequilíbrio, representado pela dificuldade de ambos personagens em definir os sentimentos de um em relação ao outro, reflete-se no comportamento de Hubert e Chantal, como quando, num momento de ira, ela o deixa sozinho na vídeo-locadora e no meio do caminho volta para busca-lo; como logo depois o deixa na porta de casa sem as chaves e vai embora. Como quando ele revira todos os objetos do quarto da mãe; logo depois colocando tudo de volta em seu lugar, decidindo apenas espera-la sentado no sofá. É como derramar sangue e depois querer devolvê-lo às veias. Ainda que o quarto estivesse arrumado no fim, a bagunça sairia pela boca de Hubert logo após.

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Tudo em Chantal irrita seu filho; o modo com que come, como simplesmente esquece das coisas, o jeito com o qual se veste... Praticamente sempre que se encontram, esses pequenos conhecimentos que apenas a intimidade revela, explodem; geralmente no carro, no caminho do colégio, discussões que pontuam e melhor caracterizam a história de temática tão original e tão bem abordada.

“O que você faria se eu morresse hoje? ”, Hubert pergunta.

“Morreria amanhã. ”, a mãe responde, quando ele já não está ouvindo.

Escolhi esse mínimo diálogo, porque creio que representa toda a questão do longa. A conexão que existe entre genitor e gerado independe de qualquer acontecimento posterior; pois há uma condição de existência, de princípio. Essa conexão, por ser definitivamente irrefutável, representa o lugar incerto em que Hubert vive. Não importa o que façamos, nunca mudaremos o fato de ter nascido de alguém. “Eu matei minha mãe” é uma queda brusca, repleta de espelhos escondidos. “ Imagino que, às outras pessoas, odiar a mãe pareça um pecado. É uma hipocrisia. Estou certo de que também odiaram suas mães. Talvez um segundo ou todo um ano. ” Talvez a chave esteja na compreensão de que se trata de um vínculo além de sentimentos limitados como amor e ódio; além, na verdade, do que está entre esses extremos. Além do fato e da certeza que, nesse caso, não é obrigatório se ter.


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