ayla cedraz

por entre fotos e nomes

Ayla Cedraz

"tudo o que somos é poeira no vento"

MEDIANERAS: alguém perdido entre milhões

O filme argentino tem o diferencial de ser impactante de forma sutil, empurrando-nos para uma reflexão íntima acerca do nosso papel na sociedade moderna, onde não sabemos direito o nosso lugar e onde fazemos de tudo para acompanhar o ritmo, muitas vezes, rápido demais.


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Medianeras é um exemplo do cinema ao qual não estamos acostumados. Numa época em que as grandes e as pequenas telas são dominadas pelas grandes franquias cinematógraficas, para um público fanático por super-heróis e pelas adaptações de livros, falta tempo e, talvez, paciência para reservar um momento às histórias menores e menos conhecidas. De fato, o tempo é um elemento que parecemos ter cada vez menos. Por isso, por que perdê-lo com o que alguém já disse não ser tão bom assim? O público acaba se amontoando nos grandes filmes em cartaz, com artistas conhecidos e premiados, oriundos de best-sellers.

No entanto, devemos nos lembrar que há muita coisa boa por aí que não está em evidência. Medianeras é uma delas. O filme é cheio de críticas a nossa sociedade moderna, mais precisamente ao modo como vivemos nela. Esperamos sempre mais do futuro, dos avanços tecnológicos, o dia em que os céus serão tomados por carros voadores, vestiremos roupas prateadas e os robôs farão tudo por nós. Será que já nos encaixamos na época em que vivemos? Com essa resposta, outra pergunta: estamos preparados para mais?

Entre diversas relações feitas no longa, a que mais chama atenção é como a arquitetura reflete nosso comportamento. "Que gênios esconderam o rio com prédios, e o céu com cabos?", um dos protagonistas questiona. As metrópoles são barulhentas e caóticas; o tráfego é contínuo; o verde dá lugar ao cinza das construções. Somos estressados e irritadiços, insatisfeitos, ansiosos e apressados; e, no fim do dia, muitas vezes, sozinhos e foscos. A rapidez com que tudo acontece é assustadora. Somos pressionados a ser os melhores, a ter o nosso território demarcado em algum grupo, somos obrigados a ter o que dizer. Essa preocupação nos corrói e Medianeras nos faz encarar o que estamos nos tornando.

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Contudo, não se trata de uma história, de todo, triste; pois nos indica uma saída: contato. Não precisamos viver sozinhos. Não devemos ter medo de dizê-lo. A outra pessoa não é tão diferente assim. É uma pessoa, inicialmente, igual. Talvez vivendo das mesmas aflições, mesmos medos e receios. Contato com a realidade, com o que nos é estranho, com o que nos abrirá portas para o, surpreendentemente, interessante.


Ayla Cedraz

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