ayla cedraz

por entre fotos e nomes

Ayla Cedraz

"tudo o que somos é poeira no vento"

aquela metáfora bonita daquele poeta triste

a hora certa que se espalha em várias


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─ Pula.

Olhei para os pés descalços que eu havia exposto à neblina fria, sem o menor cuidado, naquela hora prematura da manhã. O ar denso à frente, de uma brancura quase palpável, deixava entrever pouca coisa; faixas incertas dos telhados da vizinhança, dos postes de iluminação e das árvores recém podadas. Lembrei-me vagamente de certa metáfora, envolvendo paisagem como aquela, que um poeta fizera sobre o que seria o conceito do amor. Porém, havia em meus pensamentos certa letargia que bloqueava o raciocínio e impedia o acesso a maioria das memórias; a recente embriaguez era como a neblina envolvendo a rua. Irritei-me profundamente, pois pensava em como seria lindo colocar bem naquela hora as palavras daquele poeta. A sempre tão oportuna auto sabotagem...

─ Então pula ─ repetiu-se o imperativo.

Olhei para o lado, ainda presa na lástima daquela memória falha. Fazia frio naquela altura. Pouco mais de cinco metros nos separavam do gramado do quintal. De costas para a sacada, com uma mão ainda presa em uma das barras, concluí que estava, de fato, numa posição um tanto perigosa. Mesmo se fizesse o caminho de volta para o interior do quarto, saltando a sacada, correria sérios riscos de escorregar de repente e simplesmente cair. O desgraçado ao meu lado, contrário a tudo isso, mantinha-se impassível em posição ainda pior; equilibrava-se tranquilamente, sentado sobre a frágil balaustrada, sem qualquer tipo de apoio. Encarava-me com ar sério, esperando resposta.

─ Sabe, eu tinha uma puta de uma metáfora para te dizer sobre agora... Ia ser o máximo. Não estou conseguindo lembrar!

Arrependi-me de imediato. Tanto era meu entusiasmo em dividir com a criatura o diabo da metáfora que, a despeito do persistente esquecimento, não me contive em dividir ao menos minha frustração sobre o caso, como se a promessa obstinada do valor de sua perfeição para aquela hora amenizasse a abstração. “Ia ser o máximo”... Horrível. Decepcionante. Imperdoável.

Fui devidamente fuzilada com um olhar que dizia: “não se pode mesmo esperar outra coisa de você...” Então lembrei-me de como vinha me sentindo até então. Lembrei-me de como a porta para a sacada permanecera fechada por tanto tempo; de como os afazeres rotineiros pareciam permanecer sempre superficialmente sobre a vida, e não dentro dela, como geralmente nos compraz; de como tudo permanecia, há um bom tempo, como um longo texto sem pontuação alguma, e não se sabe para onde se vai, e nem onde se esteve. Relembrando de tais pequenos, silenciosos e traiçoeiros aborrecimentos, vi que não era de se admirar a estranha conduta de colocar-me em tão incomum situação. Então lembrei-me de outra coisa.

─ Como assim “pula”?!

O ar de má disfarçada complacência repetiu-se, ainda mais carregado. Ele então começou a mover-se de volta para a varanda. Virei-me para a rua. A neblina já dispersava e eu soube que a possibilidade da bela metáfora fazia o mesmo, já que estava certa da ligação direta entre as duas. Olhei para o gramado lá embaixo. Certa dos olhos ainda em minhas costas, fechei os meus e inspirei fundo. Pronta para o lançamento olímpico, estanquei. Agora lembrava-me perfeitamente! Teria sido bonito mesmo. Esquecendo-me outra vez de que a promessa não ameniza a abstração, virei-me para a varanda pronta para dividir a maravilha do que teria sido aquela hora. Tudo vazio. Ouvi o som da TV ao lado. Melhor assim. Eu me arrependeria outra vez.


Ayla Cedraz

"tudo o que somos é poeira no vento" .
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