ayla cedraz

por entre fotos e nomes

Ayla Cedraz

"tudo o que somos é poeira no vento"

o holocausto brasileiro

e eu aqui, em 2016, vivendo minha vida sem saber de nada.


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Quase quinze anos frequentando diariamente a escola e, por acaso, em uma de minhas monótonas andanças pela Internet, me deparei com a descoberta da existência, na maior parte do século XX, de um hospício em Barbacena, Minas Gerais, onde 60 mil pessoas foram assassinadas aos poucos. Só isso.

Estendi minha busca por matérias, pontuadas por chocantes fotografias, durante algumas horas. Quanto mais lia, menos entendia. Como eu só estava sabendo daquilo tudo naquela hora?! Compartilhei a descoberta com meu professor de história. Contou-me, em resumo, tudo o que eu já tinha lido, mas também não soube responder minha principal questão. Como diabos, em nenhum livro de história da escola, comprados todos os anos, eu não havia me deparado com uma única fotinha sobre aquele hospício? A coisa toda mexeu comigo por um tempo considerável. Senti-me, primeiro, ignorante; como se, durante todo esse tempo, eu vivesse achando que sabia coisa alguma quando, na verdade, havia ainda muita coisa que eu nem imaginava, inclusive se tratando de algo relativamente perto de mim e básico para uma consciência de realidade do contexto em que se vive, do país em que se vive. Depois, senti-me enganada e com raiva. Bem, se eu, até aquele momento, não havia visto resquício daquilo em lugar algum, foi porque alguém decidiu que não era importante que eu, ou mais pessoas, soubessem. Ainda que a pureza da democratização da opinião seja uma realidade que se aproxima do palpável, tão linda e agradável quanto um sonho bom, não é novidade que as informações a que temos acesso ainda são, em grande parte, deliberadamente controladas. Eu só não havia entrado em contato com isso tão de perto.

Há umas semanas, então, depois de ter tomado conhecimento do Colônia há quase um ano, tive a oportunidade de ler Holocausto Brasileiro, de Daniela Arbex. O livro é quase um artigo jornalístico, com diversas histórias contadas com intensidade e verdade, por vítimas e funcionários do hospício. Em verdade, é de chorar. Fiquei alguns minutos sem conseguir passar a página quando a foto de um menino, Silvio Savat, apareceu. Ele era uma das 33 crianças que viviam entre os adultos, sem qualquer distinção no tratamento recebido. Na foto, Silvio aparece deitado sobre um banco de concreto, usando um vestido, com várias moscas sobrevoando e pousando em seu corpo encolhido. A expressão do menino é de completa exaustão, como se não vivesse ou sobrevivesse, apenas existisse; como se apenas, por algum acaso, estivesse ali. A legenda da foto indica que, antes de ser fotografado, Silvio foi confundido com um cadáver. Arbex comenta que era como se aquelas pessoas simplesmente tivessem aparecido no mundo, sem ninguém que as parisse. Pareceu-me errado passar aquela página; pareceu-me errado qualquer ação que procedesse a visão daquela fotografia. Silvio teve a sorte, ou não, de sobreviver ao holocausto, passando a viver em uma instituição terapêutica, em Belo Horizonte.

Ainda que com o livro finalizado, passei a levá-lo comigo aos lugares durante uns dois dias. Eu queria que as pessoas olhassem a capa e me perguntassem o que era aquilo, para que eu as respondesse. Dos diálogos que eu estrategicamente armei, todas as pessoas revelaram nunca terem ouvido falar do Colônia ou das pessoas que ali existiram. Só isso.

Creio que quem ler esse breve texto, descobrindo pela primeira vez o Colônia, vai se dignar a, pelo menos, uma pequena pesquisa no Google sobre isso. Portanto, não preciso me aprofundar nas atrocidades ali cometidas ou explorar os detalhes da forma como as pessoas existiam ali. Não preciso falar, por exemplo, que crianças pequenas passavam a vida presas em berços, sem sentir na pele a luz do sol por dias a fio. Não preciso falar, também, que mulheres grávidas tinham que passar fezes no próprio corpo para manter à distância de seus fetos os funcionários. É igualmente desnecessário dizer que alguns internos estavam ali, enviados por suas famílias, apenas por serem tímidos ou tristes demais. E acho que nem preciso me estender sobre o fato de que homens e mulheres viviam completamente nus e expostos a todo tipo de sofrimento, tendo, inclusive, que recorrer aos ratos e pombos para não morrerem de fome.

Agora, já passei para outra leitura. Mas não vou me deixar esquecer que o Colônia existiu. Como disse um dos internos, quando Helvécio Ratton, cineasta, visitou o hospício para a gravação do documentário Em nome da razão (disponível, aliás, no Youtube): " Sei o que vocês estão fazendo. Tirando foto de todo mundo. Assim, quando a gente morrer, as pessoas vão saber que estivemos aqui".


Ayla Cedraz

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