ayla cedraz

por entre fotos e nomes

Ayla Cedraz

"tudo o que somos é poeira no vento"

o pombo era insone e o caminho era ermo

quando um pombo insone atravessa caminho supostamente ermo, pare e reveja o que está acontecendo.


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O pombo insone atravessou o caminho ermo. Fazia meu trajeto usual de volta para casa, ao máximo recolhida no interior dos ombros angulosos projetados para frente, constituindo uma capa para minha humanidade através da própria carne humana. O trecho em questão era escuro e inabitado, pontuado por sombras inofensivas que formavam silhuetas muito similares a um esfaqueador/estuprador/ladrão à espreita. O pombo bateu as asas num voo oblíquo e fracassado, atravessando-me o próximo passo tal qual gato preto profetizando más notícias; saltei para trás a tempo de vê-lo explodir os miolos no paralelepípedo e na penumbra. Suicídio? Um pombo insone em voo noturno e solitário decide pôr fim ao sofrimento e atira-se das nuvens... Assassinato? Criatura de alma Osbourne lhe teria arrancado a cabeça em pleno voo, provocando-lhe a queda e o impacto, já de miolos à solta. Passada a impressão de profundo asco, comecei a condoer-me pelo animalzinho, agora muito semelhante a vestígio de oferenda, rompendo-me o coágulo da humanidade, já esquecida do portão, da porta e do teto branco sobre a cabeça. Parecia que alguém me transferia a culpa daquela morte, sem sentido e sem história; o voo oblíquo rompera a carótida numa laceração rápida e profunda, e o sono do pombo que naquela hora não dormia, junto com a imobilidade dos meus pés, que pela primeira vez mantinham-se senhores daquele trecho, foram absorvidos pelas pedras do pavimento, à medida em que o sangue escuro também o era. A macabra figura do pombo que caga no cocuruto dos desafortunados produzia a mesma sensação de que se tivesse, eu mesma, arrancado na unha a cabeça frágil do bicho; a sujeira embaixo das unhas era o resquício de massa encefálica, enfim concluí. Nunca. Jamais supus cometer tal atrocidade. Abaixei-me para contemplar o corpo murcho e lazarento; as asas eram ainda abertas para o céu pobre no alto. Via, somente, as três marias que nunca faltam. A lua estava há alguns dias desaparecida, como não poderia fazer o cadáver. O ressentimento é mesmo indecente, e corroía-me. Ocorreu-me que, nos dias seguintes, continuando ali o pombo, estaria suscetível às piores desventuras: pneus esmagando indiferentemente a carne morta, felinos mordiscando as asinhas fracassadas; e eu, no meio tempo, assistindo a morna decomposição no temor dos foragidos. Maravilhada pela nova ideia, retirei o casaco e comecei o minucioso processo de comportar ali o corpo mole, com o devido respeito e admiração. Em casa, lhe faria singelo túmulo; o acontecimento sem sentido e sem história, na rua que para o resto do mundo manter-se-ia erma, seria somente meu. A partir de então, atravessaria o trecho com a superioridade de quem guarda um segredo. Contudo, já de posse do indigente, senti a frieza da lâmina em ato único e final. Eis que uma das silhuetas tomara forma e realidade. Em queda oblíqua, implodia nos paralelepípedos do caminho ermo, o pombo decapitado nos braços. Conto, pois, ainda resido sob aquelas pedras, ainda sob as lâminas e a insônia; ainda sob a frustração da silhueta ao comprovar-me a miséria. “Só doentes”, disse a sombra.


Ayla Cedraz

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