ayla cedraz

por entre fotos e nomes

Ayla Cedraz

"tudo o que somos é poeira no vento"

o resto

as coisas que deixam a sala antiquada.


Art-painting-cherry-trees-space-meteor-shower_1600x900.jpg

Era um caso improvável que a barba áspera e bem disposta não lhe conferisse merecida firmeza de figura; o suficiente para destacar-se na multidão. Os traços bruscos de homem sério mascaravam-lhe a real idade cuja curvatura fluida e morna entre o pescoço e os ombros denunciava. Observar-lhe o caminhar, quando seguro de um trecho ermo, era como descobrir a fragilidade de um segredo; como criança segurando o choro.

Lançou-se pesadamente no sofá da sala, como se carregasse inacreditável fardo sobre as costas. Encaixava-se quase como um móvel obviamente parte do cômodo; imutável, obsoleto e superficial. Iniciava-se, então, sua série de longos e sonoros suspiros, como se expirasse o que a humanidade não captura. O terceiro olho; custou-me tempo e miolos até reparar. Do outro lado da sala, imersa, esforçava-me em sustentar a linha invisível entre os olhos. Os dele, entreabertos de enfado, confessavam o ateísmo generalizado. E mais: declaravam minha incapacidade de interferir naquele tédio contínuo, já que tratava-se de um estado compartilhado, embora o admitíssemos em estágios distintos. Ria-se, ao mesmo tempo, da falta de necessidade de lutar contra tal sentimento.

Voltava-me, por fim, em outra direção. Todas as vezes. O terceiro olho, contudo, imperava num canto obscuro do cômodo, reproduzindo-se na letargia dos corpos ingênuos de achar que sabiam coisa alguma. Parávamos. Se só conhecemos, até o fim da vida, parte ínfima do que na realidade somos, o que acontece com o resto? O pensamento, assim como as figuras na sala, dispersava com o correr do tempo e a frivolidade da memória.


Ayla Cedraz

"tudo o que somos é poeira no vento" .
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/recortes// @obvious //Ayla Cedraz