Luis de Freitas Branco

Jornalista português radicado carioca procura leitor atento.

Dez Razões


Marcos vive uma tarde atarefada no computador, tentando balançar o emprego com listas do Buzzfeed, políticos de Facebook e beterrabas do Farmville

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“10 razões para transar de manhã”. Marcos percorre atento a lista do profético Buzzfeed, largando umas risadas efêmeras no número quatro (“É a única forma de exercício matinal que não dá preguiça”) e nove (“O café da manhã vai ser bem mais delicioso”). Este último fica observando um pouco mais, atraído pelo retrato do casal que na cama partilha suado uma dose de bacon e ovos. É mesmo isso, pensa divertido, partilhando o vídeo no seu grupo de primos no facebook, que não chega totalmente a carregar, pois o patrão chamou outra vez Marcos para o escritório.

“Aqui de novo não é?”, pergunta o seu chefe sem esperar resposta, carregando os olhos com indícios de condenação. “Devia ter vergonha Marcos!”

“Peço desculpa senhor”, inspira sofredor o condenado, se lembrando em como já passou um mês desde que o chefe mandou enviar o orçamento.

“Já passou um mês!”, confirma.

“Peço desculpa senhor”, faz em eco, olhando embaraçado para os pés.

“Vou facilitar a sua vida”, grita entusiasmado. “Ou manda hoje o email com o orçamento ou é despedido”.

“Peço desculpa senhor”, despede-se Marcos, correndo para o computador.

Sem pensar duas vezes abre a janela do email e começa carregando o orçamento na mensagem, pensando envergonhado no que esteve fazendo todo este mês que passou, glorificando mesmo o seu chefe, por não o ter ameaçado despedir mais cedo. Repentinamente se ouve um som agudo, o que no seu ouvido atento se traduz sempre numa nova mensagem no Facebook. Sem tempo para perder, espreita só o remetente, vendo que é a sua mulher, decide abrir, pode ser emergência. Afinal não havia motivo para alarme, ela pede apenas, com muito carinho, que ele passe no mercado para comprar azeite, Oliveira de Serra. Está em promoção, explica. Fechando essa mensagem, repara como tem mais duas que ainda não abriu. A primeira nem chega a espreitar, vê logo que é apenas mais um vídeo enviado pelo melhor amigo. A outra mensagem, apesar do tempo escasso, é obrigado a ver com atenção, não fosse o remetente a colega de trabalho Luisa, amante de dois meses. Ela pergunta se está confirmado hoje à tarde, fechando a mensagem com duas pequenas cabeças amarelas se beijando. Marcos informa rapidamente que hoje não pode ser e que tem de ir ao mercado comprar azeite, Oliveira da Serra. Está em promoção, explica. Ela responde com mais uma pequena cabeça amarela, diferenciando das anteriores, pois está vermelha de fúria. Vendo a resposta zangada, Marcos teme pela relação já muito tênue e espreita o perfil da amante. Infelizmente confirma a pior das suas suspeitas, o colega da administração e ex-namorado dela, pousa em duas fotos na noite anterior, no boteco debaixo do escritório. Merda. “Sentindo-se traído”, quase escreve no mural, apagando rapidamente o pensamento, não fosse a mulher ficar com ideias. Marcos sempre odiou o ex-namorado da Luisa. Percorrendo agora o perfil dele, procurando provas em flagrante, acaba por ficar ainda mais furioso. Ele também foi contaminado pela febre do jogo da fazenda digital e como se isso não bastasse, tinha o dobro de beterrabas de Marcos.

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“Isso não”, murmura de cabeça baixa, ligando o jogo da fazenda e colhendo toda a fruta e vegetais que tinha produzido, conseguindo bater o recorde de todo o escritório.

Marcando o colega administrativo no post, revela no mural os fabulosos resultados, depois de duas horas intensas de colher tudo e mais qualquer coisa na fazenda. Orgulhoso espera por comentários, especialmente claro, do ex-namorado da Luisa. Nesta importante atividade é interrompido pelo melhor amigo, que pergunta de forma insistente se viu o vídeo. É joia, desafia. Marcos cede ao amigo, coloca os fones e vai diretamente para o Youtube, ouvindo surpreendido a nova canção da banda folk irlandesa. Não satisfeito, vê uma versão ao vivo e outra em estúdio, esta só com vozes e um violão. Partilha esta última versão, escrevendo antes as linhas apaixonadas do refrão. A mulher dá um like. Ouve o som outra vez de notificação, é o primeiro comentário à superfatoração da fazenda.

“É aí!”, comenta brevemente o seu cunhado, continuando a sua opinião mais em baixo. “Se os nossos grandes agricultores fossem assim não havia fome”, finaliza, deixando também um link com uma nova matéria do seu blog, explicando como os grandes agricultores não colhem todo o seu produto, controlando assim os preços do mercado.

Marcos lê a matéria e faz um like nos dois comentários do cunhado. Em outro comentário concorda com a opinião dele, aproveitando para espreitar o perfil, lambuzando de likes todas as intervenções políticas que o irmão da mulher profanou. Não fica meramente por aqui, não querendo ser outra vez acusado de coxinha como no Natal passado, compartilha uma das opiniões mais fortes do cunhado. Enquanto recebe mais três likes pela canção folk com apenas um violão, se lembra que hoje vai dar a matéria sobre imobiliário no Jornal Nacional e pede imediatamente para mulher se pode gravar. Ela grava. Satisfeito por se ter lembrado de gravar o noticiário, comenta no perfil do chefe que vai ver a matéria mais tarde em casa. Acontece que o patrão tinha um post desde a manhã alertando para uma muito importante matéria sobre o imobiliário no Jornal Nacional. Ele vai gostar de saber que me lembrei, pensa Marcos. Ouve mais uma vez o som de notificação, seguindo automático para o perfil do chefe, onde o seu comentário já tem resposta.

“Marcos. Vou lhe dizer isto da única forma que você ouve, no computador. Está despedido. Boa tarde”.

Desolado, Marcos leva na carregada mochila todos os pertences que tinha no escritório. No metro, chora entre vagões, acompanhando no celular a chuva de likes no comentário de demissão. No mercado, procurando o Oliveira da Serra, decide participar nas listas do Buzzfeed, escrevendo motivado um assunto que tinha toda a experiência para falar: “10 razões para bloquear o computador”.


Luis de Freitas Branco

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