Luis de Freitas Branco

Jornalista português radicado carioca procura leitor atento.

Drones para o aniversário


Os convidados da festa sabiam do ciúme entre vizinhos, mas não esperavam ver este ano um drone interromper o lanche, voando por cima das coxinhas e pegando na roupa para estender no varal do jardim.

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“Tudo começou com um drone estendendo a roupa”, responde João Maria.

O inspetor pediu para prosseguir. Na sala ao lado, outro inspetor da Supervisão Fluminense de Ética Robótica faz a mesma questão ao André.

“Sinceramente não sei como chegamos a este ponto”, responde. “Simplesmente comprei um drone para estender a roupa, ajudando a minha mulher, coitada, que tem dores de costas”.

“Esse idiota é sempre a mesma parada”, continua João Maria, separado pelo amigo apenas por uma fina parede. “Tem sempre de fazer exibição no nosso aniversário.”

Além de vizinhos, André e João Maria faziam anos na mesma semana, decidindo desde guris a partilhar um churrasco no jardim, alternando as casas. Os convidados chegavam reticentes, sabiam que era uma data tensa, o dia onde ficavam evidentes as diferenças entre os vizinhos. No ano passado, a mulher do André desfilou com um novo conjunto de silicone, para o amigo, provocação ao peito raso da mãe dos seus filhos. O ano anterior a discórdia aconteceu com uma nova churrasqueira do João Maria. A solução era sempre a mesma, evidente na festa deste ano, com a mesma churrasqueira moderna agora na casa do André e o silicone, nos quatro peitos das mulheres. Apesar dos convidados estarem invariavelmente habituados a este ciúme de vizinho, não esperavam ver este ano um drone interromper o lanche, voando por cima das coxinhas e pegando na roupa para estender no varal do jardim. Alguns bateram palmas, outros deram pessoalmente os parabéns a André, que olhava em provocação disfarçada para o outro aniversariante. Vermelho de ciúme, o vizinho teve de comer a cena, com mais raiva quando a sua mulher chocalhou os membros de artrose para estender as cuecas. Já expliquei a solução para estas desavenças, empregue mais uma vez por João Maria, que no dia seguinte usava um modelo de drone similar no seu jardim.

“Tive de responder a esta provocação, a minha mulher também tem dores de costas”, assegura o ofendido.

“Então me explique, senhor João, porquê que o assunto não ficou por aí?”, pergunta o inspetor, um dos membros mais antigos do Ministério Tecnológico, no centro do Rio.

“Deve achar que ia deixar aquele anormal zoar com a minha cara!”, exaltou-se André na cabine ao lado. “É sempre a mesma coisa, imitou-me com a mureta verde, depois o Fiat e depois o silicone. Já lhe falei do silicone?”

“Sim, sim”, confirma sem paciência o inspetor.

André respondeu ao vizinho com um golpe mais definitivo, usando um novo drone para abrir a porta de casa, fazendo de porteiro na pequena vivenda e outro para aspirar o pó, com o barulho de sucção no máximo, garantia para o vizinho ouvir o aparelho. A história seguiu os mesmo contornos, João Maria comprou drones exatamente iguais e juntou à frota um corta relva voador. No mesmo dia, ansioso por provocar, convidou o vizinho para o aniversário do seu filho mais novo. A cena era caricata, além do drone estendendo a roupa e do outro cortando relva, havia um manobrando a grelha, outro fazendo caipirinhas e ainda um último, mascarado de palhaço para animar a criançada.

“Aí”, explica João Maria. “Ele me convidou para ver o Fla Flu na casa dele.”

“Qual?”, pergunta curioso o inspetor, que tal como o seu colega da cabine ao lado, era fanático do manto sagrado.

“Aquele que ganhou o Fluminense, gol do Fred”, recorda André.

“Ah..”, responde com pena o inspetor, a mesma reação do colega que entrevistava o vizinho.

Quando chegou a casa de André, com a porta devidamente aberta pelo drone, quase tropeçou nos dois aspiradores, acabando por lhe saltar um sapato, pego no ar por um novo drone, com a única função de fazer a troca por pantufas. Sentados os dois, com a bola rolando nas palavras do Galvão, um drone serviu batatas fritas de dentro da sua carapaça e outro menor, se escondeu piscando em baixo do sofá. Depois de André zoar com o time do Fluminense em piada brejeira, o pequeno drone cumpriu a sua função e disparou altas gargalhadas por toda a sala, envergonhando mais o vizinho tricolor. Foi basicamente declarada a batalha. João trocou o carro da família por um drone gigante, que fazia as tarefas domiciliares e o cão por um drone mais fofo, com pelos. Com a casa repleta de máquinas voadoras, levou a família para uma barraca que montou no jardim, cedendo todo o espaço da casa para os drones, que precisavam com este trabalho sem fim, de estar quase sempre recarregando.

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“Foi a única solução...”, explica agora João.

“Tive de fazer exatamente o que o sacana fez”, declara André na sala ao lado. “Felizmente tinha um drone fazendo de espião na casa dele e sem perder tempo, enchi a minha casa de drones também e não só, comprei o terreno da frente para dar mais espaço para recarga, nas minhas estimativas, podia ter o dobro de drones que João.”

O inspetor tira as últimas notas e sai da sala, se reunindo com o colega, que repetiu os mesmos movimentos em frente a João Maria. Os dois decidem que está na hora da condenação e pedem aos vizinhos para saírem, ficando todos juntos no corredor.

“O que fizeram foi uma vergonha”, começa o inspetor mais velho. “Vão pagar uma multa que não é brincadeira, temos queixas de barulho e de luzes que não deixam ninguém dormir. Pior”, continua. “Estamos como sabem numa época de seca, os reservatórios estão quase vazios, ou seja, falta de eletricidade também. Quando botaram dezenas de drones na recarga fizeram com que toda a cidade sofresse um apagão de dois dias.”

“Ah”, exclama João. “Acha que nós não sabemos da seca!”

“Sim”, concorda André. “Os dois temos um drone para aproveitar a água da chuva.”

“E não só”, acrescenta o vizinho. “Temos também um drone para não deixar verter nenhuma água da bacia.”

Os dois velhos amigos, surpreendidos com o raro momento de concordância, se entreolham com carinho. Deixam ficar uma lágrima no olho e se abraçam efusivos, para a repreensão dos inspetores. Ao fim do dia entregam todos os drones e pagam a multa. Problema resolvido. Antes de entrar cada um em sua casa fazem uma promessa, para o ano não festejam o aniversário juntos.


Luis de Freitas Branco

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