Luis de Freitas Branco

Jornalista português radicado carioca procura leitor atento.

Mulher Marciana


A verdade é que Irene estava muito arrependida, o reality show marciano não cumpriu as suas expectativas, “Odiar-te ou a Marte” na versão em português.

140629-marsone_455ed2433a7a42caeda4621254b50da2_nbcnews-fp-1440-600.jpg Mars One, reality show marciano para 2025

Merda de planeta, pensou. A verdade é que Irene estava muito arrependida. Chateada mesmo. Enlatada dentro de um fato branco de gosto extremamente duvidoso, refletia sobre todos os seus infortúnios, largando estas tristezas em pontapés nas pedras de Marte. Mesmo com toda a proteção da sola, o pé fervia com cada chute, em força de fúria suficiente para colocar os pedregulhos fora de órbita. Merda de planeta, pensou outra vez. Rapidamente se lembrou das câmeras, sorriu e acenou para os bilhões de televisores ligados, que ainda por cima, celebravam o dia 200 desde que começou o reality show marciano, “Odiar-te ou a Marte” na versão em português.

Voltou resignada para a sua casa, que ela quando estava assim mais indisposta, apelidava de favela espacial, apesar da própria Irene nunca ter entrado numa dessas populares comunidades. No entanto, a bagunça que o chinês fazia na sala era tanta, espalhando projetos e cálculos, que servia de sentença suficiente para chamar de favela ao satélite marciano. Depois de uma vida acadêmica, sem tempo para romances amorosos ou desamorosos, estava agora destinada a ter de acasalar com um chinês, que como não bastasse, era extremamente feio. Feiíssimo mesmo. Sentiu-se mal disposta ao ver a cara do seu suposto par reprodutor, que respondia com um bem educado bom dia na língua internacional.

“Are you better today?”

“No speak”, gritava sempre Irene em resposta, apesar de dominar por completo o dialeto, chegando mesmo a apresentar o seu doutorado em Miami.

O chinês simplesmente suspirava, se voltando a debruçar sobre o trabalho, para a repreensão da maior parte dos telespectadores, que mais de uma vez, fizeram manifestações de redes sociais para expulsar a brasileira do programa. Irene nem queria saber, o governo chinês pagava uma fortuna pela sua participação e assim como assim, tudo é melhor que aturar os seus colegas professores na Universidade Estadual de São Paulo. Pelo menos era assim que pensava antes, quando decidiu participar. Agora, sentada para mais um fajuto café da manhã nos olhos do mundo, já não tinha a certeza que queria ser marciana. Para começar, reproduzir ela sabia que não ia. Chegou a fingir qualquer coisa para as câmeras, mas como o chinês se exaltou e tirou a parte de baixo do fato, teve do presentear com uma chapada. Quando era obrigada a dar explicações para as câmeras e o governo chinês, dizia calmamente que um asiático nem pensar, marciano ou não, o seu primeiro filho ia ser paulista. Para piorar o cenário, hoje, dia de aniversário, nem foi fazer o seu testemunho nas câmeras, apesar da forte reprimenda do chinês.

“No speak”, gritou outra vez, começando a trincar a espécie de pão, desesperada por não encontrar a textura da tapioca.

Antes de engolir com dificuldade a primeira dentada, atirou aos berros a espécie de pão para a redonda janela. Furiosa gritou em português todas as possíveis injurias para a vizinha, a norte-americana da NASA, que escolhia sempre esta hora para as necessidades biológicas. Irene estava desgostada com muitas coisas, mas a vizinha parecia estar sempre no centro dos problemas. Ela odiava a vizinha. Os dejetos da mulher se alargavam e desfaziam mesmo em frente da sua janela, tapando a única boa vista da terra, uma repugnante rotina diária. Sem perder tempo, atirou para a janela também a espécie de pão que cabia ao coitado do chinês, em resposta ao trem de dejetos que vinham agora, estes do marido americano e do filho. Irene chegou a espalhar o boato que o verdadeiro pai da criança era o chinês, pois o guri crescia de olhos longos, mas foi rapidamente reprimida pela opinião pública. Todo o mundo na terra conhecia a criança, era o famoso primeiro ser humano nascido em Marte, escolhido pela revista Time como o homem da década. Uma peste, refletia Irene. Qualquer das formas, ela evitava ao máximo fazer visitas aos satélites adjacentes, seja pelo mau cheiro da boca do russo, as tentativas de pegação do francês ou pior, a japonesa que queria ser a sua melhor amiga. Até se arrepiava ao pensar na simpatia falsa da japonesa.

“Mais valia estar ali”, grita sozinha, apontado para o tapete vermelho de nada que enche o ar do planeta.

Mars_One.jpg

O dia correu rápido. Irene não fez trabalho de pesquisa, não deixou testemunho e muito menos se reproduziu, mesmo quando o chinês arriscou demonstração de masculinidade na hora da academia. Ela só se ria dele e falava alto em português de sotaque cerrado no r, o mais paulista possível, para dificultar o seu tradutor da companhia televisiva, que ela sabia que era de Rio Grande do Sul. Ainda arrependida, lembrava agora saudosista os tempos de professora em São Paulo, os passeios nas avenidas, as compras no mercado municipal e o cinema sozinha ao fim da tarde. Tudo para quê? Um chinês para marido e uma casa que nem tem cantos para eu catar o pó?

“Estou farta de usar o fato branco com estes dizeres dourados nas costas”, gritava apontado para a câmera principal da sala. “Fodeu, entendeu?”, continuava, tentando tirar a roupa, murmurando em condenação ao gosto extremamente duvidoso.

O desafio de Irene contra o mundo acabou por servir como a última gota para o governo chinês, que exigiu ao programa televisivo que fizesse uma nova triagem e trocasse de participante. A terra exaltou-se com a oportunidade e choveram vídeos de todos os cantos do mundo, com o presidente do Brasil e assumir a pasta, defendendo nas suas palavras, “o nosso país que fica sempre para último lugar!”. A pressão do presidente foi suficiente, criando uma campanha nacional, encabeçada pela figura da cientista carioca Fabiana, segundo o governo brasileiro, a candidata certa. O diretor do programa acabou por ceder, escolhendo então, Fabiana para ser a nova participante.

Desde os cinco anos de idade que nada escapava aos ouvidos de Irene e depois de uma noite com dores de costas, ela já sabia que havia novidades bombásticas para receber. Fingindo não entender russo, deu um salto no outro vizinho do lado, ouvindo logo o burburinho geral, em como vão trocar a sua posição por outra brasileira, ainda por cima carioca. Claro, pensou. Tinha de ser carioca para garantirem que se reproduz com qualquer coisa. “Até deve ser Rainha de Bateria”, gritou se rindo, para o espanto do russo.

O dia chegou finalmente e Irene não escondia a sua satisfação. Sorria e cantava, até o hino do Santos se ouviu, criando uma onda de solidariedade da claque santista, que já usava a versão de Irene nos jogos do estádio. Claro que nem olhou para a Fabiana, nome de puta. Saiu do satélite com o quarto propositadamente desarrumando, não esquecendo de oferecer um encontrão à carioca, que relatava emocionada tudo o que sentia. O regresso havia de ser muito longo. Mas um divertido pensamento fazia com que ela mantivesse um sorriso mordaz. Uma certeza de que pelo menos ia demorar o mesmo a chegar a São Paulo que os outros terrestres que estão no transito, presos nas avenidas. Merda de cidade.


Luis de Freitas Branco

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