Luis de Freitas Branco

Jornalista português radicado carioca procura leitor atento.

Os cabelos que faltam na careca de Erasmo Carlos


A decadência da música popular brasileira é um problema cabeludo e a solução está num permanente

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Enfrentando o marasmo de ideias que assola as nossas rádios e telas de computador, não existem mais dúvidas, a questão é essencialmente capilar. Descobri isto refletindo na ilha de terreno baldio que se assola atrás da cabeça de Erasmo Carlos, evidência que me assusta, quando ouço o seu último disco, “Gigante Gentil”. Percorrendo com pouco animo as onze faixas, sofri um aterrador arrepio nos cabelos, ou melhor, na falta deles. Essa careca do cantor, consequência das ventanias dos tempos, deixa uma saudade dos anos em que o liso moreno quase tocava nos ombros, os grandes álbuns do antigamente, quando Erasmo indicava mesmo que se queria enforcar em cabelos, na canção “Sábado Morto”.

Os tempos de cabelo na venta, nas longínquas décadas de sessenta e setenta, descobriram novos caminhos que até hoje inspiram, seja no longo enrolar de cachos em Caetano ou no vermelho fúria de Rita Lee. Esta diretriz nacional seguia à risca os verões de amor no resto do mundo, as primeiras madeixas que entrelaçaram a música popular com as questões capilares. Ali, entre Londres e Califórnia, cresceu o mito de Sansão, uma adaptação bíblica para os compositores, que desenvolveram os seus poderes estritamente conectados com as raízes da cabeça. Obviamente que não foram só eles os descobridores da formula, nas décadas anteriores esse poder estava na brilhantina, nas perucas iluministas ou naquele ondulado e experiente branco de Nelson Cavaquinho. Mesmo para quem duvide desta cuidadosa análise cultural, ou não seja fã da conversa no salão de beleza, tem de admitir que qualquer boa ideia começa sempre na cabeça. Sabendo isto, porque não almejar um significado mais profundo, e admitir também que qualquer boa ideia começa ainda antes da cabeça, nos fios de cabelo.

O mais grave no marasmo musical de hoje é constatar que nunca houve uma oferta tão farta de penteados. Podíamos falar daquela desordem psicodélica na cabeça dos Boogaris, a prisão brilhantina nos Autoramas, o desconcertante sebo de Terno, a despreocupação perdida de Cícero, as molas fascistas de Tulipa Ruiz ou a despedida emocionante de cabelos na testa de Marcelo Camelo. Apesar das boas intenções e das referências certas na hora do barbeiro, o marasmo se adensa enquanto ouvimos o vazio de palmas no público brasileiro. A verdade é que não é suficiente e mesmo com toda uma cacofonia de pelos, ninguém consegue almejar sequer o mais básico, a simplicidade de Roberto Carlos tapando a orelha. Agora que expliquei o mito de Sansão ampliado em música, fica fácil de entender alguns súbditos mergulhos no mau gosto, revisto várias vezes na história. O mais célebre é a maquiagem desbotada e careca de Britney, mas tem também um raso Billy Corgan, obeso Frank Black e rugoso Michael Stipe. Estes heróis sem proteção superior estão todos condenados ao progressivo esquecimento e pleonasmo musical, uma saudade profunda dos tempos em que passavam a mão na cabeça e deixavam uma água do banho acumular nas pontas.

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Mesmo com o problema analisado, não entremos em histerias, pedidos de impeachment aos músicos carecas e muito menos, deixar os cabelos crescerem desordenadamente, sem ritmo ou harmonia, em estilo progressivo. Saber tocar mais acordes não significa uma boa canção. Assim como deixar crescer os cabelos não significa bom penteado. É de evitar também imitações em excesso, as nossas próprias cabeças devem encontrar o seu caminho, se alisam de pente para a direita ou esquerda. Encontrem no espelho a vossa cara, sigam os conselhos de David Crosby que quase cortou o cabelo, fugindo sempre dos cânones já batidos, como o Barbeiro de Sevilha.

A conclusão é simples. A música brasileira precisa urgentemente de um permanente, um loiro panela de Brian Jones, mop top de McCartney, afro de Gil Scott-Heron, ou no mínimo, recuperar aqueles cabelos que faltam na careca de Erasmo Carlos.


Luis de Freitas Branco

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