Luis de Freitas Branco

Jornalista português radicado carioca procura leitor atento.

Pipoca Com Bacon


O resultado natural quando um ladrão de ovos pipoqueiro decide pedir delação premiada

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Foi um roubo à escala Mundial. Não quero dizer com isto que ultrapassou as barreiras nacionais, ou sequer o quarteirão na Lapa onde aconteceu. Quero dizer sim que foi um roubo que atingiu pessoalmente todos os clientes do mercado Mundial, único estabelecimento nas redondezas com promoção relâmpago.

A primeira a reparar na escassez de ovos foi Dona Camila, que logo obrigou o marido a tomar uma posição, coisa que ele fez, fã devoto da omelete de bacalhau. O suspeito foi preso, apanhado em flagrante com setes caixas de ovos na mochila. Ficou por apurar os restantes suspeitos, que certamente ajudaram a traficar gemas e claras. Era exatamente isso que a polícia tentava agora apurar. O suspeito, batizado com o nome ordinariamente comum de Miguel Silva, se recusava a participar, mesmo quando mostravam fotografias dele, a disfarçar lendo o jornal gratuito, enquanto retira debaixo de um carrinho a mercadoria.

Começa levando dois socos valentes do polícia mais próximo. António Vasco, o polícia da ponta, vem de trás e dá um pontapé exagerado na cabeça de Miguel. Os outros o repreendem pelo desabafo emocional, acontece que António Vasco era o marido da Dona Camila e sofreu na pele e estômago a falta de ovos na zona. Sangrando da cabeça e assustado com o que via como o fim do destino, Miguel decide improvisar a sua salvação, inspirado nas curtas matérias do jornal gratuito.

“Quero uma delação premiada”, berra tentando voltar a sentar na cadeira.

Os polícias arrebentam em gargalhadas e chamam os colegas mais próximos da esquadra, para ouvirem a originalidade do ladrão de ovos.

“Vá, fala lá quem é resto da quadrilha. Quem te ajudou?”, pergunta António Vasco, retomando o tom sério.

“Não falo sem o meu advogado, quero delação premiada!”, berra de novo.

Leva outro soco.

No dia seguinte, Miguel é acordado no chão da cela pelo advogado, enviado a serviço do Ministério Público. O suspeito improvisa uma explicação coerente e convence o ambicioso advogado, que esteve durante uma década esperando uma oportunidade para estrelar nos televisores. Os dois sentam na mesma sala que ontem teve espancamento geral, com o chão ainda pegajoso do sangue.

“O meu cliente pede delação premiada”, começa o advogado. “Estão com muita sorte porque ele decidiu vos perdoar e não formar uma queixa. Agora senhores”, faz uma pausa e pega na carteira de trabalho de Miguel, o único documento que ele dispunha, exposto na mesa. “Como podem ver aqui no seu único contrato de trabalho, o meu cliente teve no ano passado como empregador da Petrobras”, explica, revelando também o correto endereço do edifício da empresa petroleira, no centro do Rio de Janeiro.

Os polícias olharam assustados para as evidências e saíram da sala, aliviados pelo suspeito (que já não se lembravam do nome) não formar queixa contra eles. Ligaram para os colegas do Paraná.

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Na manhã seguinte, mesmo com a secretária lotada de compromissos, o juiz Sérgio Moro, responsável pelas investigações da Lava-Jato, ouviu um rumor sobre esse Miguel Silva. Pelo sim pelo não, tinha mandado logo cedo um dos investigadores indagar sobre essa história. O resultado chegou agora e de fato, nos quadros da Petrobras está listado um Miguel Silva, faxineiro de garagem no ano passado. O nosso Miguel, ladrão de ovos, nunca trabalhou mesmo na Petrobras. A confusão com um homônimo era algo que estava acostumado, consequências vantajosas de ter nome comum. O endereço do seu anterior trabalho era o mesmo da empresa por mero acaso, pois na calçada em frente ao edifício era onde ele vendia pipocas com bacon. E claro, onde também roubava uns celulares. Um destes dispositivos ficou com ele, para cumprir um sonho antigo, ligar a uma das bundas deliciosas que ornamentavam o poste de eletricidade. Conseguiu o objetivo, tendo para isso de recarregar celular, fazer um CPF e obviamente ter um endereço para cobrar as despesas, esse mesmo, o da Petrobras. A caminho do Paraná, ele mostrava a um dos investigadores algumas destas contas, para eles, prova definitiva que este Miguel Silva é mesmo o faxineiro.

Na força investigativa do Paraná, o advogado e Miguel contam a sua história, pedindo que sejam retiradas as queixas de ladrão de ovos em delação premiada.

“E quero uma nova identidade”, acrescenta Miguel, insatisfeito desde guri com o nome comum.

Os investigadores não se convencem e obrigam o suspeito a pelo menos, dar uma pequena pista de quem ele diz ter transportado propina. Encurralado, Miguel segue no improviso.

“Um ex-presidente da república”, murmura baixo, usando a mão para abafar o som das palavras.

Os investigadores saltam da cadeira surpresos e vão correndo para o Juiz Sérgio Moro, que ordenou para continuarem garantindo outras informações, antes de fechar mais uma delação. Anoiteceu o dia e apesar de todos os esforços, Miguel ainda estava sobre vigília, num hotel perto da esquadra.

Insatisfeito por ainda não ter protagonizado qualquer discurso televisivo, o advogado de Miguel bateu à porta do jornalista destacado para o Paraná, enviado especial que dormia no mesmo hotel. Os dois rapidamente montaram no quarto do jornalista um pequeno estúdio para entrevista, fazendo sentar em destaque o advogado e só atrás, o suspeito. Na madrugada rompe o exclusivo no primeiro noticiário, com o testemunho de Miguel já viral nas redes sociais.

“Fiz entregas pessoais de dinheiro a um ex-presidente”

“Quem?”, insiste o jornalista.

“Neste momento não posso falar não”, explica o suspeito. “Mas posso dizer que tem nome de molusco”

Miguel continuava alimentando de bom grado a sua imaginação fértil e estava especialmente orgulhoso com esta última invenção de vocabulário detalhado, que aprendeu nos tempos de pescador na Lagoa.

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Os investigadores não se deixaram abalar em nenhum momento pela matéria escandalosa do noticiário. Passados dois dias continuavam debruçados no trabalho, sem interferência das movimentações políticas que os tentavam pressionar. O partido do governo criticava os jornais de propagar mentiras, enquanto os cronistas criticavam o governo de se esconder. A oposição, em êxtase, fazia comunicados com a imagem de Miguel, criando uma comoção nacional para a possível delação premiada. É instaurada outra CPI. Em frente ao Planalto cresce uma multidão de manifestantes, a maior desde o fatídico 2013, com jovens armados a usar a nova sensação de carnaval, a máscara de Miguel Silva. Mesmo com toda esta cacofonia de interferência, os investigadores conseguiram finalmente encontrar o verdadeiro Miguel Silva, faxineiro da Petrobras, aposentado em Vassouras. Além disso, com recurso a inúmeras testemunhas, descobrem que o outro Miguel Silva era realmente um vendedor de pipocas com bacon.

Apesar destas últimas revelações o mal já estava feito e Lula, ex-presidente do Brasil, se mascarou de freira franciscana e fugiu em procissão religiosa para África, casa do Presidente de Guiné Equatorial. Condenou o seu grande azar e perguntou ao amigo presidente africano se havia aqui pipoca com bacon. Ele disse que não.


Luis de Freitas Branco

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