Luis de Freitas Branco

Jornalista português radicado carioca procura leitor atento.

Polaroid primata


A modesta tribo não era conhecida pela intelectualidade, não dominando, por exemplo, os instrumentos complexos para catar cupins. No entanto, António queria entender esta expedição e tirar a limpo a obsessão humana em estar escondido da natureza.

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Click. Ela finge que não ouve e contínua esticando os dedos entre os pelos da cabeça. Click. Começa a ficar irritada, abrandando este estado de espírito ao encontrar um carrapato atrás da orelha do marido. Click. Come de rajada o bicho, olhando para o arbusto de onde vinha o barulho insistente. Paira um repentino silêncio na selva africana. O chimpanzé alfa, que recebe a massagem dermatológica, geme baixo aos ouvidos da mulher, franzindo a testa em alerta. Ela volta a esticar os dedos entre os pelos da cabeça dele. Click.

Incomodado com a situação, o chimpanzé alfa (conhecido pela expedição da revista como António), anda rodeando uma árvore, dando ordens disfarçadamente a dois súbditos, escondidos entre a folhagem da selva. Os chimpanzés entendem a mensagem codificada, sobem sorrateiros pelas lianas laterais e conseguem em dois saltos se esconder exatamente atrás dos humanos, um jornalista, um fotógrafo, um antropólogo e um cinegrafista. Os quatro expedicionários usavam a camiseta da revista de natureza, vestindo também um casaco de folhas verdes, a camuflagem possível nas cores voláteis da fauna africana. Feito o trabalho de espião, os chimpanzés regressam ao líder, fingindo colaborar na dissecação de um tronco velho repleto de larvas. Todos gritam satisfação com o cardápio, mas ao mesmo tempo, fazem gestos expressivos com os braços, debatendo as medidas a tomar com a expedição humana. António chupa uma larva, refletindo o que fazer, não conseguindo entender o porquê de esses homens não os observarem com os olhos, preferindo estranhamente, usar máquinas geradoras de click. A modesta tribo não era conhecida pela intelectualidade, não dominando, por exemplo, os instrumentos complexos para catar cupins. No entanto, António queria entender esta expedição e tirar a limpo a obsessão humana em estar escondido da natureza.

Os clicks terminaram apenas duas horas depois da excelente refeição primata. Quando António garantiu que já não estavam sendo observados, organizou rapidamente a sua própria expedição, escolhendo somente os melhores para o acompanhar. Hoje era o dia em que ia finalmente desvendar o comportamento humano.

Um dos chimpanzés era abertamente homossexual. Mas era também dotado de umas grandes narinas e foi mesmo ele que em poucos minutos encontrou o acampamento da revista. António agradeceu, não se aproximando muito, pois esse chimpanzé estava muito exaltado por estar acompanhado dos membros mais fortes da tribo. Incomodado com a tensão sexual, António decide indagar sozinho e chega a quatro pés à entrada do acampamento.

O antropólogo grita assustado, se obrigando a acalmar, recorrendo ao seu guia do primata, e cedendo um cumprimento e submissão ao alfa. Pede que os outros humanos façam o mesmo. António agradece o compromisso com um uivo e começa por observar o computador. Não encontra larva escondida nem cupim, apesar do fotógrafo mostrar todo o cuidado com o objeto. Não entende. Passa a um celular, sem extensão suficiente para coçar as costas. Atira ao chão. Analisando as tendas humanas, condena o material pouco espesso, uma imprudência tendo em conta a tempestade que está quase começando. O antropólogo decide agora tomar a iniciativa e tenta demonstrar a máquina fotográfica, aparelho simples que ele espera conseguir explicar ao macaco. Não vai ser fácil, mas o estudioso sabe que os chimpanzés identificam sempre o seu próprio reflexo. A Polaroid vai servir na perfeição o propósito. Usando o vocabulário que conhece, desenvolvido e ilustrado no seu guia para primatas, o antropólogo explica que a máquina tem a utilidade de captar imagens. António tenta entender, rindo-se muito no processo, devido ao sotaque cômico do humano, chegando a parecer um daqueles primos distantes de Angola.

“Consegue explicar a ele que a fotografia serve como um espelho da natureza?”, pergunta curioso o fotógrafo.

“Claro que não”, repreende o antropólogo, surpreendido com a estupidez do colega.

“Ah, bom...”

Apesar da extenuante dissertação no limitado vocabulário de gemidos e gestos, António mantém o mesmo olhar de total incompreensão. O antropólogo usa o último recurso, uma demonstração ao vivo do retrato na Polaroid. Click. Agora, com a foto entre mãos, o alfa uiva de espanto, não tanto com o seu reflexo, mas sobretudo com a barriga saliente quase a tocar no chão e o olho direito meio fechado com pus na ponta. Limpa sem demoras o olho e rasga a fotografia, com medo que um dos súbditos mais ambiciosos repare no inevitável envelhecimento do líder. O antropólogo fica com pena do fracasso, sem poder fazer mais nada, vendo António regressando para a mata cerrada.

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O chimpanzé gay já tinha previsto e assim foi, caindo na selva uma tempestade de proporções grandiosas, uma fúria ancestral rompendo das entranhas da natureza. Prevenida, a tribo estava nas grutas, deixando vazios os abrigos nas árvores. A noite passou turbulenta, com António em grandes dificuldades de dormir, sorvendo as últimas larvas, pensando naquele aparelho de espelho. Quando morrer, refletia, não vai sobrar nenhuma prova da sua existência. Além disso, a sua enfraquecida autoridade estava atraindo uma tribo rival a entrar em guerra. Visualizou outra fez a foto que rasgou e chegou à conclusão que ali, naquela folha retangular e afiada, podia não morrer mais. Sim, mal o tempo abrande, ele ia imediatamente voltar ao acampamento, pedir uma extensa sessão de fotos, onde ele ia pousar de dois pés no chão, peito inchado e uivo de intimidação. Assim, o alfa podia espalhar o seu reflexo por toda a selva, usando o natural medo para prevenir a iminente guerra.

Ao lado da mesma equipe da expedição, António corre liana a liana. Quando chega ao acampamento sente logo o cheiro a queimado molhado, uma mistura letal de chuva da tempestade com faíscas elétricas. Sobrou pouco. No chão espalham-se os corpos de carvão, espedaçados por abutres madrugadores, escolhendo a garra os melhores bocados para levar. Formigas trabalham a finco para rebolar um olho grelhado. O resto da expedição primata fica angustiada, não querendo sentir o cheiro nauseabundo a morte despedaçada. António pede calma e analisa atentamente os escombros. Encontra por milagre, a Polaroid intata, agarrando com dificuldade o instrumento. Olha agora ele através da pequena lente, encobrindo na moldura os restos dos quatro humanos, cercados de necrófagos e folhas secas chamuscando. Click.


Luis de Freitas Branco

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