Luis de Freitas Branco

Jornalista português radicado carioca procura leitor atento.

A lei da velha poltrona


Rabugento, o avô limpa a baba com a fronha da poltrona. Cerra os olhos no neto e solta um último pedido, como se esta frase incorporasse o final de oxigênio que dispunha nesta vida.

leather-armchair-curved-fixed-back-002.jpg

O gato olha de esguelha para a poltrona. Roça a cauda ondular na camurça castanha, se arrepiando com o prazer desse conforto proibido. Foge quando tropeça na bengala do avô, encostada em posto estratégico de vigia, farol que impede o desembarque da curiosidade felina.

O patriarca aposentado abandona o lanche meio comido, acendendo um cigarro, o último do primeiro maço do dia. Os dedos amarelados afastam as páginas do jornal vagarosamente, conciliando as matérias com o bebericar da cachaça. Os gestos se repetem de forma infinita, um hobby de tabagista alcoólatra, rotina adotada para todos os domingos desde os vinte e dois. Foram nesses anos longínquos que selou um casamento e de forma quase automática estas metodologias de fim de tarde. Cigarro e cachaça. Agora, viúvo e de gato, pensa às vezes porque começou a fumar e nas noites mais longas, se alguma vez amou a mulher, pelo menos, fora dos lençóis. Ao neto reserva a mesma impessoalidade que usava com a respectiva, um certo desprezo conciliado com um olhar preocupado, de tragédia iminente. Nestes últimos anos de vida dedicou o seu escasso tempo a incutir algum juízo no moleque, tentar fazer ele entender que o caminho certo da vida está ao longo de um corredor de escritório, sentado na secretária a ver o tempo passar e, com sorte, fumar um cigarro e beber uma cachaça no domingo. Sabendo das opiniões particularidades deste avô, não estranhe se chegar a simpatizar com esta personagem de modos grotescos, encare isso como o seu lado humano, a torcer para que o neto siga os conselhos de quem mais viveu. Falando no diabo.

– Fumando e bebendo avô... – suspira o neto, cheirando a fumaça a hálito de cachaça desde o quarto – O médico não falou que se continuar assim não vai durar até ao fim do ano?

– Eu faço o que me apetecer moleque – resmunga, sabendo muito bem que mais cedo ou mais tarde está prestes a morrer de ataque de coração, tal como seu pai antes dele. Mais cedo do que para tarde – E você frouxo, já decidiu como vai ser a sua vida?

O neto estava num daqueles cruzamentos da vida, não sabendo ao certo, em qual curva podia evitar o beco sem saída, questionando-se ao longo do caminho, qual curso superior se deixar levar. Para o avô não havia qualquer questionamento, apenas a razoável advocacia, tal como o pai antes dele. Nesta encruzilhada mantinha-se impassível a vontade de independência do moleque, que desde os tempos dos puffs redondos decidiu ser decorador de interiores. Não, explicava ao avô, não era uma espécie de matemático, muito menos cirurgião de intestinos. E não, continuava, não precisa ser veado.

– Já decidi há muito tempo avô, e você sabe, vou ser decorador de interiores – responde em provocação, evitando olhar muito para a poltrona, em termos decorativos, totalmente equivocada.

– Vai é para advogado por amor de deus! – grita, tossindo e pousando a cachaça – Para continuar o trabalho no nosso escritório meu filho, com o seu pai – interrompe num acesso furioso de tosse.

– Olhe, nem consegue falar direito, acha que é assim que quero viver?

Rabugento, o avô limpa a baba com a fronha da poltrona. Cerra os olhos no neto e solta um último pedido, como se esta frase incorporasse o final de oxigênio que dispunha nesta vida.

– Pelo menos vivi como um homem e sei como vou acabar, de ataque cardíaco. E você moleque? – Aponta para o neto com a bengala – Sabe como vai acabar?

rnd_arm_sofa_shabby.jpg

O não dito ficou por saber, pois o neto nunca respondeu. O dito ficou claro. No dia seguinte o avô morreu. Ninguém chorou muito. Estava velho. Nem o gato sentiu falta, apesar de continuar se esquivando da bengala, deixada na mesma posição pelo cadáver teimoso. O neto não sabia muito bem como digerir o desaparecimento do avô. Tentou a raiva, mas acabou por não conseguir se esquivar dos incômodos mais letais, a saudade, a perda, o vazio de poltrona. Acabou por seguir advocacia. O avô havia de gostar.


Luis de Freitas Branco

Jornalista português radicado carioca procura leitor atento..
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/literatura// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Luis de Freitas Branco