Luis de Freitas Branco

Jornalista português radicado carioca procura leitor atento.

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O bater cardíaco de teclas segue acelerado, com os mesmos dedos de sempre, atrelados de corpo que tocam o quotidiano

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17303730394-5. A mensagem é a mesma de sempre, onze algarismos seguidos de travessão e enfim, um número final. Ernesto franze a testa, reclina a cadeira roçando indiferente na parede do seu escritório e suspira. Ao longe, a nove quarteirões de cubículos, um estrado deixa passar um pouco de luz de fundos, que morre empoeirada na alcatifa. O bater cardíaco de teclas segue acelerado, com os mesmos dedos de sempre, atrelados de corpo que tocam o quotidiano. Ernesto agita a gravata, aliviando uma amarra de garganta, olhando outra vez para os onze algarismos, seguidos de travessão e um número final.

O próximo passo deste processo segue as diretrizes que o seu cargo na empresa exige, digitar este mesmo número no software do segundo andar, passando a informação para o piso superior, onde os programadores processam e entregam ao quarto andar. Nesta manhã, Ernesto ainda pensou em subir as escadas e evitar o tráfego do elevador, acabando no entanto, por seguir o conselho do colega do escritório 12 e esperar um quarto de hora depois das oito da manhã, quando o segundo elevador vaza espaço para duas pessoas. Agora carrega este desgosto, uma espécie de arrependimento eterno de não ter subido escadas.

Analisando de novo a mensagem, debate consigo sobre esta incapacidade de mudar, sabendo claro, que na fila de espera já estão outros onze algarismos seguidos de um travessão e um número, pois nesta sua reflexão momentânea, já passaram dois minutos. Olhando uma última vez para os números ganha uma nova certeza, abre os olhos espantado por entender em como um seis ficaria muito melhor depois do travessão. Esta ideia é um caldo que vem germinando e atinge finalmente a construção a gosto, depois de um mês em aborrecimento sufocador, quando tentou em vão várias estratégias, desde apostar no teclado sem fios a trocar a ordem das meias. Decepcionado com os seus fracassos de independência, Ernesto sorri agora satisfeito, copiando os números da mensagem para o software. Na tecla ao lado do cinco encontra o seis, com menos uma ponta e mais amistoso na sua barriga redonda. Digita. 17303730394-6.

No dia seguinte, Ernesto depara-se com a figura do senhor Raphael, debruçado no seu computador.

-Vem cá sentar e muda os números que chegaram ontem no quinquagésimo terceiro processo, às duas horas e trinta e cinco seu patife!

Ernesto senta-se calmamente, encontrando de imediato, o quinquagésimo terceiro processo.

-É esse o diabo! Tem de mudar o último número para cinco, esse depois do travessão - aponta, deixando uma pinga de suor pender entre a letra “u” e “i”.

Ernesto volta a analisar reticente a mensagem e depois o processo final no software da empresa. O cinco grotesco continua incomodando a sequência de números, sobretudo quando ele observa satisfeito o processo, onde um harmonioso seis indica o final.

-Não vou mudar

-Como não vai mudar! Enlouqueceu?

-Não senhor, simplesmente o seis fica muito melhor que o cinco. Você já viu a diferença?

-Quer ser despedido, só pode ser isso. Ok! Está despedido

-Ok

-Não diabo! Não sei qual é a sua password. Só com isso é que posso fazer a alteração - diz, estendendo um pequeno bloco de notas.

-Não o posso ajudar, a password volta comigo.

Descendo no elevador, toca de imediato o interfone, surpreendendo Ernesto.

-O senhor Raphael diz que você foi readmitido e para se dirigir ao quarto andar.

Calmamente, agora de novo trabalhador da empresa, sobe para o quarto andar, pela primeira vez em quinze anos de serviço. Estende a mão ao senhor Raphael.

-Bom dia outra vez senhor Rafael

-Para si Rafa! - exclama, ainda com o mesmo suor de pescoço - Ficou decidido que vai ocupar o escritório 23 aqui do quarto andar, sendo que vai fazer exatamente a mesma coisa que estava fazendo.

-Obrigado pela confiança.

-Claro que...Agradecia muito se pudesse já alterar aquele número.

- Isso não vou fazer - indica Ernesto, espantado com a insistência numa questão que para ele já tinha sido ultrapassada - Mas prometo que em princípio não vou alterar mais números;

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Duas semanas após o quinquagésimo terceiro processo, às duas horas e trinta e cinco, Ernesto nunca mais se lembrou de alterar qualquer número, satisfeito com as sequências dos seus novos processos no quarto andar. Agora, estava convencido que nunca mais ia alterar qualquer número, sobretudo depois do comportamento estranho que se tem alastrado na empresa, começando pelo Raphael, que trazia todos os dias para o seu escritório a mulher e dois filhos. A verdade é que os processos eram cada vez mais escassos, pois os programadores do andar inferior passavam os dias tratando dos processos como videogames, umas vezes perdendo outras ganhando. Pior, hoje se repetiram dois casos de trabalhadores do segundo andar que alteraram os seus números e não apenas o último algarismo. Neste impasse ficava difícil de trabalhar. Enquanto o seu fio de computador fica entrelaçado nos dois gatos do escritório 22, Ernesto recebe uma chamada do décimo primeiro andar.

- Pode subir? - pergunta uma voz arrastada, convidando Ernesto a entrar no exclusivo elevador da ponta esquerda, reservado aos sócios.

No último andar pisa satisfeito a carpete escarlate. Sem ninguém para o receber, vai direto na sala do diretor.

- Ah! Cá está o famoso Ernesto - exclama o diretor - Sabe a razão de estar aqui?

- Penso que sim.

- Claro... Como sabe, a produção da empresa está basicamente estagnada, os processos mal começam no primeiro andar e muito menos nos superiores. Está institucionalizado o caos, os salários dependem agora do humor da parte fiscal...

Realmente é um problema sério, pensou Ernesto, ainda sem ao certo saber o que ele pessoalmente podia fazer.

- Tenho aqui em escrito na minha frente que você vai ser o novo sócio da empresa, dependendo claro que altere o último algarismo do quinquagésimo terceiro processo, às duas horas e trinta e cinco.

O suor escorre ansioso das barbas do diretor, enquanto os sócios abrem a boca de expectativa.

- Isso não posso fazer caro diretor - exclama, definitivamente irritado com a insistência da empresa num processo já ultrapassado.

-Você não vai levar o meu cargo patife! - grita o diretor, agarrado por dois sócios, que o impedem de atingir Ernesto na garganta com um lápis.

- Calma! - grita finalmente Ernesto - Se a empresa está assim como o diretor fala, me explique porquê que as pessoas vêm sequer trabalhar?

A questão foi um quebra cabeças que fez o diretor sentar, enxergar a imensa janela em frente e se perder nas centenas de pontos correndo de um lado para outro, apressados com os horários do seu universo.

-O que sobra fazer?

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