Luis de Freitas Branco

Jornalista português radicado carioca procura leitor atento.

Karaokê dos melhores álbuns do ano


Se, tal como nos tempos idos, a música ainda fosse a nossa única narrativa, poderíamos deduzir que muito vivemos neste ano. Na boca divina de Ava, ou nos presságios de Siba, o Brasil foi multiplicado em versos e enfim, prontamente definido por uma adolescente: é, são dias difíceis.

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"Acorda amigo, o boato era verdade / A nova ordem tomou conta da cidade / É bom pensar em dar no pé quem não se agrade"

Siba, Marcha Marcha (De Baile Solto)

Tentamos não, mas nosso amigo de Recife, meio homem meio caranguejo, lembra que é bom pensar. Pensar em dar no pé quem não se agrade, ocupar aquela escola, aquele parlamento, refletir um pouco sobre os senhores que comandam multidões. No microfone, de baile solto, Siba dançou este ano em cima dos nossos problemas, refletindo freneticamente, ao ritmo de Maracatu. Nem toda gente o acompanha, em malemolência ou ideologia, mas é bom pensar.

"A maior demonstração / De propagação do ser é o eco / Com ele meu grito tem força / Pra derrubar todos os prédios"

Boogarins., Avalanche (Manual ou guia livre de dissolução dos sonhos)

Goiânia é o novo Rio de Janeiro, camisa de flores é a nova flanela, ou como sugeriu ontem uma senhora entrando no ônibus, os 70 são os novos 60. No leme de toda esta novidade estão esses garotos lisérgicos, sussurrando contra o urbanismo selvagem, tentando derrubar prédios martelando distorção. Abriguem-se amigos, que a este passo, eles conseguem.

"É são dias difíceis de se viver / É são dias difíceis de se entender / Eu me esqueço do que eu disse a um segundo atrás / Não sei se tenho fome ou vontade de comer, me deixe em paz"

Sara Não Tem Nome, Dias Difíceis (Ômega III)

Me deixe em paz sempre foi um hino mineiro, método intransigente de estar sozinho numa ladeira meio dormindo com um violão. Sara é anônima e quer estar sozinha, cumprir o que ela descreve como um movimento de uma pessoa só. Mas é, são dias difíceis de se viver, ainda mais no bicho estranho adolescência, entre grunhidos de independência e dores de crescimento.

"Quebrei a cara e me livrei do resto dessa vida / Na avenida dura até o fim / Mulher do fim do mundo / Eu sou e vou até o fim cantar"

Elza Soares, Mulher do Fim do Mundo (A Mulher do Fim do Mundo)

Moram várias vidas na cara de Elza. Naquela pele de pandeiro, torta como um berimbau, está um mapa do Brasil a lutar pela sobrevivência, um gigante querendo se levantar, deitado em crack e sexo nas avenidas de São Paulo. É evidente que apareceram uns amigos para reerguer Elza, nas letras e nos sopros, mas com toda a sinceridade, ouvindo cantar a mulher do fim do mundo, eles parecem apenas mais uma ruga do pandeiro.

"Olhos nos céus / Seus que são meus / Olhos nas bocas / Nas bocas do céu / Saliva a chuva caindo da nuvem / A chuva saliva caindo da língua"

Ava Rocha, Boca do Céu (Ava Patrya Yndia Yracema)

Olhos na Ava. Olhos na sua boca, saliva divina de mistério, amor, barulho, melodia e transformação. Esta canção, a primeira introdução ao disco, começa rastejando, ao ritmo de uma batida veloz de coração, passando ao ataque cardíaco, paragem e ressurreição. São apenas cinco minutos de Ava, equivalente a uma vida de qualquer outra pessoa. Olhos nos céus.


Luis de Freitas Branco

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