Luis de Freitas Branco

Jornalista português radicado carioca procura leitor atento.

O pernambuquês como a solução para um dia da sua vida, ou aprenda a sobreviver apenas com Alceu


Este texto didático é para você, caro amigo contido, que sobrevive seus dias tentando dialogar apenas o mínimo. A solução é simples e eficaz, substituir os seus forçados "bom dia" e "tudo bem", por uma mística e folclórica letra de Alceu Valença.

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1. O dia começa no alarme de celular, acompanhado pelo rotineiro e doloroso processo de negação, ao lado de uma esperança efêmera de que talvez tenha um funeral de familiar que o impeça de trabalhar, ou por amor de deus, uma doença repentina que o assalte na cama. Se segue o primeiro e obrigatório diálogo do dia, dirigido ao seu conjugue, o teste final de aprovação para tentativas de folga.

-Meu coração tá batendo, como quem diz, não tem jeito, zabumba bumba esquisito, batendo dentro do peito.

Obviamente que o cônjuge, espelho da sua alma, vizinho de almofada, conhece estas rotinas de negação e, delicadamente, sugere que se levante, esquente o café, lave os dentes, e já agora, com especial atenção, os pés.

2. Quase resignado, mochila nas costas, desce o elevador, por azar, em interrupção no andar debaixo, é interpolado pelo vizinho, obrigando a segunda interação do dia. Você sabe, o clássico, qualquer coisa sobre a atualidade ou condição atmosférica. Não se preocupe, Alceu está nesta terra para servir.

- Se você vier, pro que der e vier, comigo, eu te prometo sol, se hoje o sol sair, ou a chuva, se a chuva cair, se você vier.

E assim, sucintamente, vai reinar silêncio até ao térreo.

3. Sentado confortavelmente na sua poltrona de escritório, meu caro amigo, sabe bem que em breve chega uma passada larga, o patrão suado de tarefas, reclamando com o relatório que não chegou. Agora, não estresse, preencha essa feição com pro atividade, não admita que nunca ouviu falar desse relatório, e nesse momento, improvise uma promessa vaga e mística sobre o prazo.

- A voz do anjo, sussurrou no meu ouvido, eu não duvido, já escuto os teus sinais, que tu virias, numa manhã de domingo, eu te anuncio, nos sinos das catedrais.

Sim, conseguiu ganhar mais uma semana de prazo. Touché.

4. Ah, quase na hora de almoço e aquele seu amigo, que parece viver sempre entre uma crise econômica, amorosa ou egocêntrica, ressurge em dezenas de ligações. Resista a perder meia hora do seu dia concordando em lhe transferir dinheiro, coçar costas ou apresentar sua amiga menos feia, e de forma séria e esclarecedora, atire.

- Eu desconfio dos cabelos longos, de sua cabeça, se você deixou crescer, de um ano pra cá.

Como!? Vai responder baralhado. Esta parte é importante, mantenha-se firme em Pernambuco.

- Eu desconfio de sua cabeça, eu desconfio no sentido estrito, eu desconfio no sentido lato, eu desconfio dos cabelos longos, eu desconfio é do diabo a quatro.

Fica a promessa, ele não vai lhe retornar chamadas tão cedo.

5. No fim da sagrada refeição, após essa hora preciosa do dia, encontra-se mais uma vez numa ratoeira de conversação social, refletir sobre o que comeu no boteco e explicar essa dedução à menina da caixa.

- Na minha boca passaram, passaram carnes tenras, fruta comi, língua vermelha mel de abelha bebi.

Claro que ela vai cobrar mais caro, defendendo que carnes tenras não estavam na promoção. E bebida?

- Da manga rosa, quero gosto e o sumo, melão maduro, sapoti, juá.

Atenção, neste caso, fique por aqui na cantiga, a restante letra, expressando que você quer o sabor dela, morena tropicana, ais ais e ioios iois, pode ser considerado sedução, ou mesmo, passagem para a delegacia mais próxima.

6. Por hoje, é verdade, está livre de futuras interpolações dirigidas pelo seu superior. Porém, o maior mal de todos, pesadelo de molhar lençóis, diálogo de ramificações eternas, se aproxima. Estava distraído bebendo água e ele apareceu, o omnipresente colega do escritório que quer ser seu amigo, companheiro de praia, parceiro de café, confessionário, massagista, e infelizmente, fonte inesgotável de fotografias do filho zarolho. É verdade, começa ele, você mora por aqui?

-Venho, e venho de longe, já não sei de onde, esqueci.

Claro, ele não vai desistir tão facilmente. Mas, insiste, qual a rua que você mora mesmo? Respire fundo amigo, se agarre às rezas do santinho Alceu.

- Rua das Ninfas, Matriz, Saudade, da Soledade de quem passou, Rua Benfica, Boa Viagem, na Piedade tanta dor.

Ele vai retornar eventualmente, sabemos, mas fique feliz por ter conseguido que o colega passe o resto da tarde procurando ruas de Recife no Google Maps.

7. Quase chegando a casa, naquela satisfação amena de ter sobrevivido à cacofonia de dialogar, um desses sempre presentes turistas cariocas, toca sem cerimônia no seu ombro e pergunta se fala francês, mais precisamente, se parlez-vous français? Não desespere. Sabemos que é difícil. E mesmo agora, que estava quase no silêncio do lar. Suspire fundo, endireite o passo para casa, e responda em despedida.

- La Belle De Jour.


Luis de Freitas Branco

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