Luis de Freitas Branco

Jornalista português radicado carioca procura leitor atento.

Entretanto no Monte Olimpo

Em pleno Século XXI, Zeus desce do exílio e invoca o conselho dos deuses. O objetivo? Chegar a um consenso sobre o que fazer com esta humanidade.


rafaello.jpg

Uma grande coincidência. Quem diria que no dia da G8 em Atenas, calhou uma tempestade mitológica na Grécia. Apesar da explicação científica para o inconveniente tumulto - distribuída via jornal - qualquer ateniense sabia - via livro de história - que tem sempre um responsável por trovoadas inoportunas. O causador estava sentado no esquecido Monte Olimpo, de pé e fúria, atirando raios e injúrias, condenando a existência mimada dos homens.

Aterrissando com precaução, o mensageiro Hermes regressa ofegante, cumprindo com sucesso o recado repentino do chefe, uma inaudita convocação de conselho dos deuses, em pleno século XXI. Sentando na cadeira poeirenta, Zeus tenta se lembrar da última vez que esteve no Olimpo, não conseguindo recuperar essa memória, já enterrada no bolor do exílio. O retorno era forçado, depois dos últimos anos de muito sofrimento, convivendo nos céus com satélites grotescos e um buraco do ozônio. Coçando a barba, Zeus refletia se os humanos ainda teriam amigos entre os Olimpos, parecendo um cenário inverossímil, tendo em conta o nível grosseiro da húbris. Não nos podem acusar de não ter tentado, refletia, recordando angustiado a sua última escapada sexual entre os humanos, quando disfarçado de galã foi surpreendido na cama por uma sadomasoquista.

- Que horror - lembra, procurando na nádega a única prova dessa amante canibal, uma dentada.

Ao lado do pai sentavam alguns dos filhos legítimos, começando por Hebe, que apesar da virilidade estava em processo de envelhecimento, combatendo a primeira hérnia. Acabado de chegar, Poseidon se senta, de mão dada a Afrodite, de minissaia e botox geral, acompanhando um infeliz Hefesto, que parecia cada vez mais velho e aposentado, decisão irrevogável, superado vergonhosamente com a invenção da bomba atômica.

- Filhos e irmãos – inaugurou Zeus - Todos nós sabemos o que se está passando, tentamos viver sem interferência nos humanos e erramos, oferecemos fogo, heróis e agora, estamos ferrados... Simplesmente ferrados! Fomos superados no armamento, e até no respeito, esses miseráveis se convenceram que só existe um deus. Está na hora de dar uma resposta na forma que eles entendem, com violência! – em pé, reforça o olhar penetrante - Se não fui comido pelo meu pai, não vou ser comido pelos homens!

Palmas. Sucesso na plateia.

- Pai – interrompe Éris - Os humanos têm muitas qualidades e devíamos voltar aos nossos exílios, está tudo como deve ser.

Zeus não pensou duas vezes, disparou um raio na testa da filha, que rebolando Olimpo abaixo, acabou dentro do parlamento grego, conseguindo mesmo assim criar alguma discórdia, da esquerda para a direita.

- Deuses irmãos eu apoio a decisão de Zeus – intervém um Poseidon sussurrante, repleto de manchas de petróleo, fazendo esquecer que foi autoridade – Mas eu já fiz minha parte. Encharquei populações com maremotos, afoguei crianças e quebrei cidades. Eu não me mexo mais... Se tivéssemos logo acabado com o Ulisses nada disto acontecia!

- Ok! Chega de Ulisses seu cabeçudo - desesperou Zeus, dando a vez a Deméter.

- Eu estou com Poseidon – responde a deusa – para cada praga e seca aparece um desinfetante e fertilizante.

- Porém não devemos desistir – interfere Apolo excitado – E por amor de deuses, o que vamos fazer em relação aos próximos Jogos Olímpicos, vocês têm acompanhado as obras?

- Isso não interessa a ninguém Apolo! - repreende Zeus, observando a chegada sorrateira de Hércules, acompanhado de Hélio, Nice e Péon.

- Vamos matar! – grita Ares, sujando o chão de sangue poliglota, desde russo separatista a estado islâmico.

- Chega de guerra seu mal criado, você não cresce mesmo! - responde Zeus, se emocionado a ver que chegava finalmente Atena, sua predileta. A felicidade de pai babado passou velozmente a ciúme de amante, quando vê que ela vem acompanhada, com uma mão dada e outra na bunda, dentro do bolso das calças - O que é isso!?

- Qual é? Já não sou virgem - provoca, incorporando o seu novo feitio sensual, desde que deixou ser transada por um turista numa cave do Parthenon.

- Sua besta, devia era ter ficado na minha testa!

- Boa tarde - cumprimenta um montanhista, surpreendido por ver uma multidão de tronco nu no pico do Monte Olimpo.

- Que raio! – se irrita ainda mais Zeus, projetando o alpinista para outro continente - Isto deve ser tudo culpa do Dionísio...

- Não senhor - interpola Ártemis - Ele morreu de overdose nos anos 60, num jardim em São Francisco.

Coypel_Jupiter.jpg

O Olimpo estava definitivamente lotado, de Pan a Ninfas, todos reticentes e sem resoluções concretas, silenciados apenas pela nefasta e atrasada chegada de Hades.

- A possível solução que vislumbro deste tropel é uma: entreguem-me vossa imortalidade – sugere sorrindo - Se forem mortais, vão ver que todas essas pertinentes questões que os atormentam, e que não posso ouvir nem mais um pouco, se vão resolver. Aceitam a proposta? – conclui secamente, de contrato na mão.

Em retrospectiva, Hades acabou sendo o único que garantiu resultados e assim, todos os olimpos assinaram a documentação.

Aos poucos, espalhados pelo mundo, os estreantes da mortalidade decidiram dedicar seu tempo a encontrar um lar, formar raízes, deixar um testamento, providenciar aos filhos e quem sabe, procurar um bom emprego, com sorte, espaço na garagem. Zeus, recém-divorciado de Hera, planejava uma pós-graduação em Direito, forma de melhor sustentar as dezenas de filhos legítimos e ilegítimos. Agora, sua única preocupação era completar uma vida, agarrar as horas e engolir os minutos, antes de atingir o sono dos justos. Afinal, pensava ele, não temos muito tempo.


Luis de Freitas Branco

Jornalista português radicado carioca procura leitor atento..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/literatura// @obvious, @obvioushp //Luis de Freitas Branco