Luis de Freitas Branco

Jornalista português radicado carioca procura leitor atento.

10 provas que você pode substituir seu ídolo brasileiro pelo português

Na ressaca da Primeira Guerra Memeal, e em honra aos brasileiros que torceram na Eurocopa, seguem os memes que podem finalmente nos unir.


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Na ressaca da Primeira Guerra Memeal entre o Brasil e Portugal, como emigrante na trincheira do campo de ninguém, decidi apelar ao bom senso dos dois lados. Aos meus vizinhos brasileiros, optei por invocar o tema que guardam com carinho e dedicação: o meme. Nomeadamente o meme da Bela Gil, que vai servir como uma espécie de reparo de guerra para amenizar os ânimos, provando como você pode substituir seu ídolo musical brasileiro pelo português e assim, quem sabe, nos aproximar na devoção dos estereótipos.

1. Chico Buarque-José Afonso

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Mirem-se no primeiro exemplo. O seu ídolo é, obviamente, de esquerda, sendo até, como você, um antigo universitário e militante das causas altruístas. Entre os braços está sempre um violão, afinado no tom mais tradicional, musicando aquele verso cortante, que sozinho tenta derrubar uma ditadura.

As provas que nem vai notar diferença: São os dois conhecidos pelo diminutivo, foram refugiados políticos, censurados, símbolos de liberdade e quando finalmente acabou o respectivo regime ditatorial, decidiram dar uma sesta nas melhores canções (e que ninguém os julgue!).

Os argumentos que estragam a brincadeira: Ok, o Zeca Afonso está morto desde 1987, e além do mais a sua face não consentia os atributos físicos do colega brasileiro.

2. Baden Powell-Carlos Paredes

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O vizinho, coitado, chegou a jurar que se um dia o encontra no corredor, vai lhe dar cacetada sem explicações. É razoável, pois você, aprendiz de violão, passa os dias tentando repercutir os livros didáticos do seu ídolo. Para qualquer pessoa, essas insistentes tentativas são razão justificada para execução, mas para você, surdo de emoção, é seu país traduzido em acordes.

As provas que nem vai notar diferença: Virtuosos, geniais, influenciaram toda a música do gênero e aprenderam a andar e tocar quase ao mesmo tempo.

Os argumentos que estragam a brincadeira: Admito que sim, enquanto Carlos Paredes nasceu numa família reconhecida de músicos, Baden Powell é filho de sapateiro. Por outro lado, e homenageando Roupa Nova, Carlos devia usar sapato velho.

3. Nelson Cavaquinho-Alfredo Merceneiro

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Remorsos, despedidas e saudade. Ouvindo os prantos do seu ídolo você chora, beberica a cachaça e aumenta o som da vitrola. “Isso sim”, suspira, “era música de verdade”. A voz rouca arranha no vinil e você fica assim imaginando seus trejeitos. Fecha os olhos e está quase nessas vielas de botecos, de terno manchado, enrugado numa vaidosa decadência.

As provas que nem vai notar diferença: Nasceram na capital do seu país, o apelido virou sobrenome, voz inconfundível, estrearam-se nas ruas e hoje são nomes de rua.

Os argumentos que estragam a brincadeira: É verdade que o Nelson conseguiu sambar com sucesso na idade tenra, enquanto Alfredo passou seus melhores anos a embutir armários.

4. Ney Matogrosso-António Variações

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Você não se considera estritamente gay, sobretudo porque esse tipo de denominação não condiz com a variedade tutti-frutti que condimenta sua cama. Seu ídolo é quase você, estando a diferença na quantidade de purpurina, maiô, turbante, e claro, closes acertadíssimos de sunga branca. Se retirar a maquiagem sobra o essencial: uma grande canção.

As provas que nem vai notar diferença: Transgressores, pelos do peito, única pessoa famosa de suas terras pacatas, quase da mesma idade, fãs incondicionais de música tradicional e Amália Rodrigues.

Os argumentos que estragam a brincadeira: Infelizmente, o xamã Variações nos deixou em 84, resultando que Ney saiu na frente espalhando todo aquele sangue latino.

5. Los Hermanos-Ornatos Violeta

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No final dos anos 90, meio atrasado para a festa do revivalismo da guitarrada, você encontrou seus ídolos num bate boca do liceu. No fundo eles são como você, gente simples e melancólica, sem tempo de escolher um padrão de roupa ou música, deambulando entre o jeans/flanela, e o ska/hardcore/alternativo.

As provas que nem vai notar diferença: São cinco, têm nomes de animais (Camelo e Peixe), disseram que não iam voltar a tocar e voltaram, têm meia centena de projetos paralelos, era um segredo entre alguns amigos que acabou em abertura de novela.

Os argumentos que estragam a brincadeira: Sim, é verdade que os Los Hermanos deixaram de ser a banda de rock salvação nacional, e que os Ornatos se demitiram sem aviso prévio, abrindo cada um sua própria empresa de melancolias, por encomenda.

6. Fábio Júnior-Tony Carreira

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O amor é essencialmente triste, e por vezes, num momento fulminante, feliz. Porém, seu ídolo lhe recorda diariamente que essa felicidade já passou, e hoje, sozinho de terno branco, talvez rosa, com uma lágrima quase escorrendo, sobra apenas celebrar o romance. No caso de não entender a língua, ele troca de idioma. No caso de ter mais de 80 anos e não ter as melhores capacidades auditivas, ele cede, e enfim, chora.

As provas que nem vai notar diferença: Além de ser a principal razão dos ternos brancos estarem fora de estoque, os dois são impressionantes poliglotas e no fundo, os românticos que queríamos ser.

Os argumentos que estragam a brincadeira: Eu sei! Enquanto o Tony era um mero aspirante a emigrante, o Fábio já era ator, e pasme-se, um duro rocker (mas sempre de coração mole).

7. Cansei de Ser Sexy-Buraka Som Sistema

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O seu coração só palpita na pista de dança, remelexo ritmado na batida urbana. Seus ídolos, frutos desta vida cosmopolita, são um conjunto de arqueológicos febris que se refugiam numa vocalista de potência e supra sensualidade. A maior alegria é saber que a banda começou por fazer bater seu coração, e só depois, o resto do mundo.

As provas que nem vai notar diferença: Começaram em clubes, são de meados de 2000, os ingleses piram, se amarram nas siglas, e quem não dança, como diria Caymmi, é ruim da cabeça.

Os argumentos que estragam a brincadeira: Calma, obviamente que musicalmente têm pouco em comum. Mas alguém aqui está falando de música?

8. Os Mutantes-Quarteto 1111

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O cenário é florido, de amor livre e pop barroco, passeando entre o ácido e o oboé. O seu grande arrependimento é não ter sido adolescente em 67, chegando inclusive a imaginar essa trip colorida, onde grita nas ruas que sua banda ídolo fez uma canção digna de Sgt. Pepper. No fim não entende porque ninguém ouve, nem antes, nem agora.

As provas que nem vai notar diferença: Começaram nas covers anglo-saxônicas, fanáticos de Beatles, censurados pela ditadura e tentarem carreira internacional sem sucesso.

Os argumentos que estragam a brincadeira: Os Mutantes tinham a musa Rita Lee, enquanto o Quarteto 1111 tinha de se contentar com o peito peludo de Zé Cid (E que peito peludo senhores!)

9. Titãs-Xutos e Pontapés

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Quando tem que ir a um funeral não precisa de troca de roupa, afinal já está vestido de preto. O inconveniente surge somente na hora evento fúnebre, pois você, tal como seus ídolos, gosta de provocar, gritar coisas como “sémen” ou “zebrinha listrada, coelhinho peludo, vão se fuder”. No fim, tudo é perdoado e enterrado, seus ídolos esquecem a raiva de início de 80 e acabam na programação da manhã, entretendo a empregada que passa roupa.

As provas que nem vai notar diferença: As duas bandas já tocaram juntas mais de uma vez, são representantes do boom rock anos 80, começaram por ser olhados com desconfiança, idolatrizam os punks e a eventual droga pesada (quem não!).

Os argumentos que estragam a brincadeira: Obviamente que os Xutos nunca atingiram a desenvoltura intelectual da banda paulista, e ao pé deles, um Arnaldo Antunes parece neurocirurgião.

10. Boogarins-Capitão Fausto

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Não basta ter a camisa florida, o cabelo desfiado e os olhos em carmesim. A indumentária só tem propósito na divina procissão, encontro precioso com seus ídolos messiânicos, galãs psicodélicos de baterias dissonantes. Você, que obviamente se formou na catequese do indie rock, excomunga pelos festivais e só lamenta não ter grana para outra cerveja.

As provas que nem vai notar diferença: Tomam banho na mesma fonte de inspiração, brincam com o espanhol (veja-se “Cuerdo” e “Corazón”), gostam do seu instrumental e o vocalista tem sempre a melhor camisa.

Os argumentos que estragam a brincadeira: Claro que os Boogarins rodam no circuito internacional e os Capitão Fausto não, mas e então, já esteve em Lisboa? É bem agradável!


Luis de Freitas Branco

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