Luis de Freitas Branco

Jornalista português radicado carioca procura leitor atento.

O mapa musical de 1988 (ou Roupa Nova com ascendente em Sonic Youth)

“Baby, mais que a luz das estrelas, meu universo é você”. Os astros são Roupa Nova, e a constelação um pagodinho gostoso, num sextil de cafonice com emoções fortes. E você, já fez seu mapa musical?


“Baby, mais que a luz das estrelas, meu universo é você”. Os astros são Roupa Nova, e a constelação um pagodinho gostoso, num sextil de cafonice com emoções fortes. O universo, que é você, é mais especificamente a minha esposa, devota irredutível da verdade nas estrelas e desses clarividentes mapas astrais. A pergunta foi apenas a minha hora de nascimento, a chave-mestra que podia revelar o traço do destino. A resposta foi, claro, um mapa musical, algo quase tão cientificamente comprovado como a astrologia. O ano é de 1988, do sambinha choroso de Roupa Nova, ao ruído melódico Sonic Youth.

O nascimento foi dia 23 de Agosto. O parto era para ser natural, quem sabe lá para meados de Setembro. Se escolhesse podia ser dia 19, quando Enya proclamava "Orinoco Flow", e eu, entre placenta, a cantar “sail away, sail away, sail away”. Mas não. Foi mesmo 23 de Agosto, parto a ferro. No dia, e para comprovar que foi mesmo a ferro e suor de médico, Bad Company lançou "Dangerous Age", e apesar do sangue, os Jane's Addiction declamaram no primeiro disco que “Nothing's Shocking”. Mais provas? Que tal “Two Nuns and a Pack Mule”, de uma banda que como se não bastasse se chamar Rapeman, ainda tinha Steve Albini a revelar a quantidade certa de decibéis para explodir tímpanos. Resumo: filho de pais divorciados.

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No mapa musical, pode-se ver claramente uma estranha oposição de planetas, que se cruzam em casas muito dessemelhantes. Por um lado, a casa mainstream, também conhecida (dependendo do musicólogo), por popular/MTV/rockarena, sempre fielmente representada pelos dois planetas centrais: Guns N' Roses e U2. Sim, foi ano de “G N' R Lies” e “Rattle and Hum”, de abraçar qualquer estranho na rua e cantar “Angel” de Aerosmith, seja ele bombeiro ou advogado. É a chamada consciência coletiva, que o mapa revela traços fortes, com grandes aptidões sociais. Porém, no lado oposto da casa mainstream e da voz melosa de Tracy Chapman, está um adolescente trancado no quarto, tomando nota e escrevendo uma vida de devoção às constelações da casa cool de 88. O mapa mostra que existe um completo sextil de planetas, todo alinhado no ruído melódico, indicação que vai partir algumas coisas, mas sempre com algum senso estético (estilo ofender sua mãe, mas em rima). É ano de mostrar ao mundo My Bloody Valentine (“Isn't Anything”), e definir a vida como presa eternamente entre dois planetas: o catolicismo surreal de “Surfer Rosa” (Pixies), e a adolescência eterna de “Daydream Nation” (Sonic Youth). Resumo: Pode estar numa cave bebendo gin e ouvindo distorção, mas tem ascendente numa bandana do Axel Rose.

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Após definir as primeiras casas, é evidente que tenho ligação forte aos amigos, se analisarmos a constelação de “Traveling Wilburys Vol. 1”, onde até os comparsas menos festivos são bem tratados (não precisa de agradecer Jeff Lynne). O ponto em comum com esses mapas parceiros está na casa rebelde, representada por dois planetas amplamente povoados: o revolucionário “It Takes a Nation of Millions to Hold Us Back”, de Public Enemy, e algumas pontuais dificuldades com a autoridade policial, em “Straight Outta Compton” (N.W.A). No fim, acaba sempre tudo em festa, bailando na batida de “Tougher Than Leather” (Run–D.M.C), e pela madrugada fora, murmurando disfarçado “Always On My Mind”, de Pet Shop Boys. Resumo: ressacas, muitas ressacas.

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O mapa, em primeira análise, não parece favorável a relações amorosas. Felizmente, e passando assim de raspão na casa romance, aterriza o maior ascendente em molejo, o supra sensual Prince, em “Lovesexy”. E aí meu amigo, nas palavras do próprio: “I'm gonna talk so sexy”. Quase nu, apimentado com “A Salt with a Deadly Pepa” (Salt-N-Pepa), o mapa é pego de surpresa dentro da casa amor. Tudo começa à luz das velas, no eco das “The Trinity Session” (Cowboy Junkies), e depois, rendido, confessa que é mesmo seu homem, e que se ela quiser um médico, está à disposição para analisar o corpo em detalhe (“I'm Your Man”, de Leonard Cohen). Resumo: casado antes dos 30.

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O casamento afinal era inevitável, bastou apenas cruzar com um mapa de 87 no período sensível de malemolência Prince (aqui “Lovesexy”, ali “Sign o' the Times”). Quem diria, nem foi necessário um cartomante, somente uns beijos mirando o Éden, mais precisamente um “Just Like Heaven” (The Cure), e estavam os dois mapas apontados para as perigosas constelações da profunda casa cafona. Sim, infelizmente esta cartografia musical é rigorosa, e bem escondido, perto daquele colchete que nunca teve coragem de usar, está o glorioso “New Jersey” de Bon Jovi. Mas calma, o loiro de Nova Jérsei não veio sozinho, ele está extremamente mal acompanhado em trígono de planetas, com a melodia calva de “A Groovy Kind of Love” (Phil Collins) e o rapaz que manda mais torpedos que a marinha americana, Léo Jaime ("Conquistador Barato"). Resumo: Estou velho e sensível às frases mais tolas, ou como diria Solange no meu ano de nascimento, o teu amor me dá um alô dá dá dá.


Luis de Freitas Branco

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