Luis de Freitas Branco

Jornalista português radicado carioca procura leitor atento.

A entrevista sem consentimento aos melhores álbuns nacionais de 2016


Pressionado pelo mundo, um tal de Kurt Cobain se esquivava de todas as entrevistas, apelando que estava tudo nas canções. Seguindo esta indicação, entrevistei as canções dos melhores álbuns brasileiros do ano.

Carne-Doce-crédito-Fernando-Galassi-855x567.jpg

Seguindo a sábia indicação de Kurt Cobain, e de Dylan antes dele, entrevistei Carne Doce, O Terno, Sabotage, BaianaSystem e Céu usando somente suas letras como resposta. Começando com Carne Doce, o petisco indie rock que tem nos últimos anos servido como abertura para qualquer outro prato principal. Em “Princesa”, nasceu um compêndio de assertividade feminina, uma refeição farta de tempero goianense e grelo duro. Além desta mão cheia de metáforas gastronômicas, falemos de Salma Jô, mulher estandarte de....

“O que cê tá esperando?”

Sim, perdão Salma. “Princesa” é uma afirmação de você como compositora. Porquê que decidiu agora escrever canções pessoais?

“A vida é curta pra dizer sempre não.”

E essa nova abordagem nas letras é talvez a grande diferença com o disco anterior. Mas você parece uma pessoa muito dócil, bastante dissemelhante da protagonista das canções.

“Esqueça, deixa pra julgar quando eu terminar, você vai ter outra opinião.”

Artemísia, fala abertamente sobre aborto. Imagino ser uma das decisões mais difíceis na vida de uma mulher. O que pensou no momento?

“Não vai nascer, porque eu não quero. Porque eu não quero e basta eu não querer.”

Fazer canção sobre aborto é quase...

“Auto­-sabotagem?”

Não diria tanto, mas não é o tema mais popular. Se sente atraída pelo abismo?

“É da minha natureza. Não tô afim de me mudar.”

Posso arriscar que este “Princesa” é quase um correspondente ao que Beyonce fez com “Lemonade”, um álbum pop almejando o discurso social e político.

“Que Beyoncé. Moço, cê num me conhece! Você cala essa boca! Conheço seu tipinho, só quer aparecer!”

Desculpa, deixa refazer a pergunta. O álbum “Princesa” tem objetivo de mudar certos paradigmas no Brasil?

“Você não sustenta um raciocínio lógico, e eu já não suporto te explicar o óbvio. Você finge me tratar como igual, mas seu arroto é pura condescendência.”

Não estou sendo condescendente, meramente queria compreender sua visão, se por exemplo, é uma espécie de Rita Lee dos dias de hoje, ou se a banda ter uma vocalista obriga a desenvolver temas feministas.

“Já tá cansado da minha voz? Porque o tempo todo um timbre feminino é pra maioria algo enjoativo. Que tal se agora entrasse um homem aqui? Pra gente dar aquela variada. Não é um gosto pessoal, às vezes é o que pede o som, e eu ainda posso ser a backing vocal, e posso pagar pau, enquanto você me diz pra me inspirar nos Mutantes e na Rita Lee.”

Não queria problematizar a questão do género, acho que já passou o tempo de quando as mulheres eram subjugadas nas bandas de rock.

“Não importa quanto tempo passe, meu sexo sempre é um impasse. É a razão pra me acusar, que é por isso que eu sou histérica. Eu não sou histérica, eu só tou histérica. Que é por isso que eu sou neurótica. Eu não sou neurótica, eu só tou neurótica.”

Mas agora é meio modinha ser selvática...

“Meu bem, eu sempre fui selvática, e é bom que você se cuide, não vai ter quem lhe acude quando eu quiser te capar.”

Uau, calma Salma. Tem razão, não a devia ter julgado tão cedo.

“Na minha língua ela dá sempre sem medo, é sempre assim.”

Fiquei ansioso e cansado com esta entrevista, e você?

“A ansiedade cobra um preço. Pois cansada, acho, mereço um açaí.”

oterno-2016.png

Esse tal de roque enrow vai sobrevivendo de pernas bambas, lutando nos palcos escondidos para não desaparecer abafado. A luta é digna, e em São Paulo se propagam os crentes, com O Terno de Tim Bernardes na liderança. E se você acha que é só outro bando de roqueiro feio, fique sabendo que (alerta trocadilho) é bem “Melhor do Que Parece”.

E aí Tim, me fala, ficou satisfeito com essas músicas maravilhosas?

“Tantas expectativas frustradas, cada uma numa direção projetando uma imagem no outro. Ficou preso na imaginação.”

Mas o álbum tem tido um excelente retorno! Porquê esta frustração?

“Culpa.”

Culpa?

“Parece que eu fico o tempo todo culpado, com culpa eu não sei do quê... Quem vai me desculpar se eu não fiz nada de errado? Que mais que eu posso fazer?”

Será que essa culpa não é um mero reflexo de um dia que se está sentindo meio triste?

“Ou será que a sociedade diz que é para eu ser contente, quando eu fico meio triste? Ou até meio chateado, eu fico mais, pois acho que eu sou o culpado.”

Quê isso cara, mas culpa de quê?

“Culpa de fazer sucesso, culpa de ser um fracasso, culpa sua, culpa de cristão.”

Minha não sei, mas sim, a velha culpa de cristão... Vamos tentar dar uma animada nesta entrevista? Chegou aquela altura das listas dos melhores álbuns do ano, algum favorito?

“Eu tenho achado tudo chato, tudo ruim... Será que o chato aqui sou eu? Será que fiquei viciado em novidade, e agora o tédio me enlouqueceu? Eu não consigo ouvir um disco, ou ver um filme e um livro, eu claramente não vou ler."

Mas o que está faltando para sair desse baixo astral?

“Minha vontade, o meu prazer de conseguir. E a paciência que eu preciso para curtir. Buscar aquilo que vai te fazer feliz.”

Pára com isso cara, tem de se levantar e ter coragem de viver!

“Tanta gente sofrendo sozinha! E a gente machuca, e é machucado, apegado a uma ilusão.”

Ok, chega! Vamos falar de Minas Gerais, vocês adoram Minas!

“Não tem nenhum lugar que eu goste mais do que as montanhas de Minas Gerais. Quando eu for velho, quando eu for avô, é pra lá que eu vou.”

Ah, deu uma animada.

“Tomar cachaça sentado no bar.”

Que gostoso! Agora até está sorrindo! É isto que me fascina em vocês, uma tristeza intrínseca a uma felicidade rompante, seja ele um refrão pop pegajoso ou a memória nostálgica de uma cachaça no bar. Como viver nesta contradição?

“Eu olho e vejo tudo errado, faz tempo que está tudo certo.”

Neste 2016 é difícil viver de nuances e não de extremos, e é inclusive complicado cantar que tudo está melhor do que parece.

“As coisas não estão tão mal assim. Há uma chance de um novo começo! Um tempo bom pra fazer diferente!”

Mas foi um ano de merda, é consenso mundial!

“Mas há por vir muita beleza ainda. Você tem toda uma vida pra viver o que ainda nem chegou, e se não deu, vai dar, ou paciência. Nem sempre o que a gente pensa é realmente o que vai ser melhor.”

“You'll get what you need”, como diziam os Stones.

“E o que a gente quer é gostar de alguém, e quer que esse alguém goste da gente também. É a história mais velha do mundo, um destino que foi desenhado, o que mais alguém pode querer além de amar e ser amado?”

Desculpa Tim, pode apagar o cigarro? O fumo está indo na minha cara.

“Só mais um cigarro, estou perto do fim.”

Ok.

“Você pode chegar em casa tarde e reparar que o coração agora não dói mais e que essa paz de ver que tudo passa, é bom pra gente aguentar firme.”

Vou ser sincero, não parece que estou entrevistando a mesma pessoa, por isso vou refazer a questão: ficou satisfeito com essas músicas maravilhosas?

“Só posso pensar que valeu a pena esperar. Sou feliz como não fui jamais.”

russo-passapusso.jpg

Existe a teoria que depois dos EUA, a Jamaica é o país mais influente no som da música popular. Pelo menos em Salvador isso é uma verdade incontestável, a ilha caribe respira pelas ruas da cidade, seja no axé de pernas desnudas, ou nos becos de sound system. "Duas Cidades" é Baianasystem, é Salvador e é Brasil, mas é sobretudo uma visão de inclusão desenhada por Russo Passapusso.

Gostei do sorriso Russo.

“Tem que ter amor na manhã.”

Parabéns pelos dois prêmios Multishow. Qual o segredo para a conquista?

“Pra conquistar tem que ter bravura. Dignidade em primeiro lugar, dignidade é poder trabalhar.”

Andaram muitos anos na margem e de repente até estão tocando em videogame.

“Eu faço figa pra essa vida tão sofrida terminar bem sucedida.”

Planejaram essa subida?

“Já na descida e não sabe descer dançando, sabe subir na vida e não sabe subir sambando.”

Isso é uma verdade! E como era antes, quando estava nessa batalha da subida?

“Na muvuca, to na prontidão, to na luta! Sem grana há uma semana, mas não vou atolar!”

Como é um dia normal dos Baianasystem?

“Todo dia acorda cedo pro trabalho, bota seu cordão de alho, e segue firme pra batalha.”

Vocês neste álbum estão naquela coisa baiana entre o samba e o reggae. Como se define?

“Samba-dub-reggae. Samba-reggae-reggae. Samba-rock-regga.”

O álbum conversa sobre Salvador em vários prismas. O que o preocupa mais na cidade?

“Especulação imobiliária e o petróleo em alto mar.”

Ao menos agora tem havido muita crítica com o caso do ex-ministro Geddel e os apartamentos em Salvador.

“E na verdade não precisa acreditar na crítica. Não precisa analisar a logística. Toda cidade vai ficar turística e a polícia violenta vai ditar a política. Calamidade toma conta da cidade. Tem buzu pegando fogo. Hoje ninguém está acima do bem e do mal.”

Vocês já são presença constante no carnaval da cidade, o público deve ser bem diferente dos outros shows, alguma particularidade a destacar?

“As meninas de mini saia não conseguem respirar.”

Por fim, qual o segredo para um bom Acarajé?

“Mistura, feijão, farinha e dendê.”

sabotage-04.jpg

Se você acredita em tudo o que lê, é possível que esteja entre os descrentes que decretaram a morte do Sabotage em 2003, na Zona Sul paulista. Não o julgo por isso. Afinal teve um corpo, e até julgamento. Podemos sim, decretar a morte da moda das tranças porco-espinho, mas não de Sabotage, que renasceu este ano em álbum homônimo, cada vez mais urgente, engenhoso e fundamental.

Sabotage, tem aí um boato que você morreu em 2003.

“Boatos são boatos, quem vive é guerreiro.”

O que aprendeu nestes 13 anos de hiato?

“Que só pensamos na moeda como objetivo, que onda agora é abraçar nosso inimigo, sentar na mesa pra jantar e comer caviar, aceitando as migalhas que o sistema nos dá.”

As letras deste álbum já têm mais de uma década, mas estão assustadoramente atuais. O que não mudou no Brasil?

“Aqui não tem paz, aqui não tem sinceridade, não tem nenhum filha da puta sem maldade.”

Podemos concordar que 2016 foi um ano em que a população está ainda mais cética em relação ao futuro e ao nosso sistema político.

“Crime, ouro, dólar, bola fora, esquece, os vermes eleitos querem seus votos.”

Mas temos de votar não? O que nos resta fazer?

“Meu voto? Secam, querem, pedem, porcos! Me disseram que o sol nasceu pra todos, pra quem será que dizem, mano? Pra nós que é pobre, sempre, um simples tolo! Se a gente faz, corre atrás, pede a paz, eles esquecem, sempre assim, crocodilo hoje só rasteja em solo fértil.”

Sabotage é a voz dos oprimidos, da favela, de Brooklin, e hoje temos uma falta de compreensão do que é a periferia brasileira. Como define?

“Onde o preto é bandido, o playboy queima índio e esbanja o prazer, periferia é motivo, sem trabalho ou estudo, botar pra fuder. Na minha vida, favela é meu lar.”

Está prosperando uma nova geração de rappers, que conselhos deixa a estes pupilos?

“Com paciência você consegue vencer, como consequência se pode submeter. Com paciência você consegue vencer, como consequência você só vai se submeter. Sei que as leis são rude, rá ladrão, eu sei que a lei é rude, talvez me escute, é, cordial temos que ser, prevalecer impune. Justiça é feita, mas precisa de ti pra conseguir.”

Acho que depois deste álbum não podemos pedir mais nada de Sabotage.

“É, fiz o melhor que pude.”

ceu.jpg

Todas as gerações cariocas tem sua cantora de estimação, um alicerce básico à sobrevivência, quase tão imprescindível como um bambolê no Parque Lage. Debaixo dos caracóis dos seus cabelos, Céu é idolatrada pela beleza, voz suave e botas brilhantes, e como se não bastasse esse cenário, existe “Tropix”, a trilha definitiva para uma varanda suspensa no Arpoador. E agora, vai continuar teimando em ser paulistana? Fica a questão.

Céu, fabuloso este álbum, pode começar por nos contar um pouco sobre como foi a composição?

“Munida das minhas bics.”

Ah sim, e escreve direto em papel as canções?

“Sou astronauta do amor, engenheira de ilusões, poeta da dor e da paz.”

Aaaa… Ok. Tem tido uma excelente repercussão entre o público, e parece que existe uma sinergia interessante entre você e seus fãs. Como começou essa relação?

“Desatando nós que a distância fez, que confundem, fazem disso tudo um drama.”

O que seus fãs querem de você, quando vão a um show?

“Me despir e ser quem eu sou.”

E o que quer você?

“Mostrar quem eu sou. Eu não quero ter que ser outra. Quero sangrar todos os climas e tempos, já que não posso levar as estações que passam.”

Ok... Tem feito inclusive muito show internacional, como tem sido a recepção desses fãs gringos, e dos jornalistas, que perguntas lhe fazem?

“Do you still hear chico buarque at night?”

Perdão?

“Feche os olhos.”

Agora? Porquê?

“Descansar a vista.”

Ok, já fechei os olhos...

“Calma pra escutar o que tem por trás do eco da minha voz.”

Hmmm, ok…

“Sobre outra, e mais uma, e mais outra, você verá a luz do sol.”

Céu, perdão, mas não estou conseguindo entrevistar você.

“Mesmo não dizendo nem pra onde nem porquê?”

Sim, mesmo assim.

“Meu bem.”

Sim?

“Você meu viu e o mundo também, e o que tava quietinho ali se mostrou.”


Luis de Freitas Branco

Jornalista português radicado carioca procura leitor atento..
Saiba como escrever na obvious.
version 6/s/musica// @obvious, @obvioushp //Luis de Freitas Branco
Site Meter