Luis de Freitas Branco

Jornalista português radicado carioca procura leitor atento.

Os 10 filmes de 2016 que não viu e a desculpa que usou para não ver

São os dez melhores filmes que você provavelmente não viu este ano, e para não ficar desarmado, ainda indico as desculpas que pode usar para justificar o vacilo.


Imagine. Em frente ao cinema com seus amigos e chega aquele momento de discórdia. Não, não, esse filme tem homem pelado. Sim, por isso mesmo quero ver. Odeio ver filme legendado. Odeio ver filme com você. E assim, se foi eliminando a programação cinematográfica de 2016. Para ajudar você, meu caro amigo indeciso, apresento os dez filmes que estrearam no Brasil e provavelmente não viu, e indico ainda as prováveis desculpas que usou na hora para justificar a recusa. Lembrando que “não tenho dinheiro” e “perdão senhor esse comprovante de estudante não é válido” são as únicas desculpas universais e geralmente aceites em qualquer cinema perto de você.

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1-Demônio de Neon (Nicolas Winding Refn)

Poderíamos supor que no submundo de Satanás existe uma cerimônia de prêmios, entregues diretamente pela mão do capeta. Aceitando essa premissa, é fácil imaginar o sorriso de Nicolas Winding Refn recebendo o Racos (anagrama de Óscar pois claro), fazendo o devido discurso sobre o mundo da moda em LA, e as suas modelos e agências demoníacas. “Demônio de Neon”, com a caçula Elle Fanning, está no universo do terror fantástico, povoado de modelos nuas, simbolismo satânico e baldes de sangue. Aqui temos Nicolas Winding Refn no topo de forma, com a mesma mestria estética do anterior “Só Deus Perdoa”, e conseguindo finalmente não se levar a sério, e quem sabe, até se divertir.

Desculpas que usou para não ver:

-Não gostei da "Guerra dos Mundos".

-Não vejo filmes que foram ao mesmo tempo vaiados e aclamados em Cannes (questão de princípio).

-Já sei que me vou assustar (ou com o terror, ou com as cinturas finas).

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2-O Conto dos Contos (Matteo Garrone)

Louvemos Matteo Garrone. Um bom filme de fantasia é quase tão raro como achar um anel que controla todos os anéis, ou até uma varinha com pena de fênix. “O Conto dos Contos” não tem nada dessa parafernália mágica, mas tem uma pulga gigante, uma Salma Hayek comendo coração de dragão e duas idosas que são constantemente assediadas. Sim, isto não é propriamente Hogwarts. O filme é baseado em três contos do século 17, de Giambattista Basile, atualizados num humor negro desconcertante, com Toby Jones e sua pulga disforme roubando todas as cenas. A estrutura tríptica funciona na perfeição, onde cada universo se adensa ao mesmo tempo numa realidade quase alucinatória, resultando as três histórias num frenesim repugnante. Sim, louvemos Matteo Garrone.

Desculpas que usou para não ver:

-Decidam-se primeiro numa única história e depois me chamem.

-Esses filmes de fantasia é sempre igual, ou tem moleques delinquentes ou anões (e às vezes moleques anões).

-Fiquei desconfiado que alguém ia fazer um trocadilho com pulga atrás da orelha.

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3-Filho de Saul (László Nemes)

Por motivos óbvios , quando você encara um filme sobre o holocausto, existe sempre uma expectativa nefasta. Porém, nada o vai preparar para esta obra-prima de sofrimento do húngaro László Nemes. Esqueça as grandes batalhas, ou atos heroicos de um Spielberg, aqui estamos no verdadeiro inferno do genocídio judaico, dentro das câmaras de gás. Saul é um Sonderkommando, um prisioneiro com a função de retirar os corpos das câmaras e limpar o chão, coisa que ele faz com uma aparente frieza quotidiana. Lendo o título do filme, é fácil entender para onde segue a narrativa, e nada o vai preparar emocionalmente para seu percurso. Se o filme resulta é devido ao diretor, que nos encolhe dentro dos corredores, e foca sempre nosso olhar no rosto de Saul, onde assistimos ao terror de um genocídio em primeira mão.

Desculpas que usou para não ver:

-O holocausto não existiu.

-Gosto de dormir à noite e prefiro pensar que o holocausto não existiu.

-Ok, o holocausto existiu. Mas cinema na Hungria? Duvido muito.

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4-Carol (Todd Haynes)

Natal em Nova Iorque. Se existe tema clássico de cinema norte-americano, é uma cena de Natal na Grande Maçã. Todd Haynes é antes de mais um classicista, um diretor que idolatra Douglas Sirk, e os grandes melodramas de donas de casa. A engenhosidade é saber trabalhar nestes moldes retrô e introduzir sorrateiramente a homossexualidade entre os abajures bege e os casacos de pele. Cate Blanchett já foi Bob Dylan pelas mãos de Haynes, e agora é Carol, uma mulher charmosa que numa noite de Natal em Manhattan conhece Therese (Rooney Mara), uma ingênua aspirante a fotógrafa. Somente pela sua natureza transgressiva, o romance já nasce condenado, e Haynes gere magistralmente nossa expectativa, desde o primeiro beijo ao último. “Carol” é um romance clássico, talvez, um dos últimos.

Desculpas que usou para não ver:

-Qual a razão de fazer um filme de Natal em Nova Iorque se já tem "Esqueceram de Mim 2"?

-Achei estranho o Todd Haynes botar o Bob Dylan como uma loira homossexual.

-Não concordo com a visão cinematográfica nostálgica e a recuperação do melodrama social de Douglas Sirk (ok, eu admito, sou homofóbico)

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5-Isabelle Huppert em Elle (Paul Verhoeven) e O Que Está Por Vir (Mia Hansen-Løve)

Se ainda acreditarmos em justiça, em breve vamos todos protestar nas ruas quando Isabelle Huppert não ganhar o Óscar. Sim, não é propriamente um aumento de tarifa de ônibus, mas veja, a francesa nos entregou duas personagens completamente diferentes este ano, conseguindo até humanizar um violador. Comecemos por aí, em “Ellle”, Huppert é uma heroína de Verhoeven, que após ser violada, aceita o ato com uma indiferença quase assustadora, se não cômica. O filme é obviamente controverso, ao contrário do “O Que Está Por Vir”, uma bela meditação sobre o amor e as suas desilusões, dirigido com sensibilidade pela sempre confiável Mia Hansen-Løve. Resumindo, podem ir preparando vossos cartazes e protestos, que o Óscar só é reconhecido por nos desapontar #OscarsSoNonHuppert.

Desculpas que usou para não ver:

-Francês só o pão mesmo.

-Não gosto de filme controverso, e tenho medo de saber o que está por vir.

-Só tenho espaço para uma Isabelle na vida e a Drummond conquistou meu coração em "Sete Vidas".

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6-As Mil e Uma Noites (Miguel Gomes)

Como diz o outro, vamos começar pelo elefante da sala. Sim, “As Mil e Uma Noites” é um filme com seis horas sobre a crise portuguesa. Seis horas você disse? Isso mesmo meu colega cinéfilo. A crise portuguesa? Certamente, e lhe garanto, não existe qualquer outro tema mais pertinente para o Portugal de hoje. No Brasil, o filme foi repartido em três capítulos, todos dirigidos por Miguel Gomes, o mesmo que romantizou a perspectiva colonial em “Tabu”. Agora o bicho é outro, para os lados do paquiderme. Ao longo das seis horas conhecemos os anônimos que sofrem a crise econômica e social que caracteriza o país, onde pessoas perdidas vagueiam sem rumo, depredadas pelo desemprego e mantendo um desarmante humor cáustico.

Desculpas que usou para não ver:

-É português.

-É português e deprimente.

-É português e deprimente e tem 6 horas.

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7-Amor & Amizade (Whit Stillman)

Em 1790, em plena Inglaterra pré-vitoriana, ser uma mulher independente era um ato de feminismo extremo. Susan Vernon é uma jovem viúva, versátil nas artes de sedução, mirando em qualquer pretendente rico que não seja enfadonho, e já agora, outro igualmente rico para sua filha. Baseado no livro “Lady Susan” de Jane Austen, a heroína interpretada por Kate Beckinsale é maquiavélica nas suas conquistas, demonstrando ao mesmo tempo que existe uma sensibilidade reprimida por anos de destratamento, e que ser uma destemida namoradeira é seu protesto contra um país de misoginia. E depois tem Kate Beckinsale, fazendo esquecer que faz parte de uma franquia de caça ao vampiro, com mais graciosidade e humor que todas aquelas vezes que Keira Knightley se vestiu de época.

Desculpas que usou para não ver:

-Irrita-me que esses filmes de época nunca são sobre a época de hoje.

-Outra vez? O Justin Timberlake provou no "Amizade Colorida" que essas relações não resultam.

-Afe, até Jane Austen está fazendo filme com vampiros!

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8-Anomalisa (Charlie Kaufman e Duke Johnson)

Refletindo no fracasso de “Anomalisa” na bilheteria, e num sentido mais amplo na decepção das eleições norte-americanas, Charlie Kaufman sentenciou o mundo como aterrorizante, destrutivo, desumano e trágico. A vida é, invariavelmente, frustrante e deprimente. Porém, o cinema não. O roteirista e diretor subverte a experiência cinematográfica humana com este “Anomalisa”, retirando-lhe o brilho e até o próprio corpo (o filme é em animação stop-motion). Michael Stone é um palestrante motivacional numa profunda crise existencial, mergulhando progressivamente numa espiral de depressão solitária. A depressão de Michael Stone é o principal personagem de “Anomalisa”, e a sua humanidade é tão chocante e pouco cinematográfica, que o resultado só podia ser um total fracasso de bilheteria.

Desculpas que usou para não ver:

-Não vejo filme de animação, é muito infantil.

-Não vejo filme de animação que não é infantil.

-Não vejo filme nem animação. Kaufman não é uma empresa de venda e locação de apartamentos?

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9-A Bruxa (Robert Eggers)

O fervor religioso é cego e surdo, criando seu próprio mundo de impenetráveis estruturas ideológicas. As personagens neste “A Bruxa” vivem debaixo do manto da religião, num exílio de realidade paralela, imposto pelos habitantes da aldeia. Este é o ponto de partida de “A Bruxa”, quando uma família inglesa do século 17 decide não abdicar das suas interpretações do Novo Testamento, e cair numa armadilha solitária de ilusões, pecados e um terror bem real (ou não!). O filme pode ser um conto de fadas, se não fosse de bruxas, ou até um conto dos irmãos Grimm, se não parecesse quase um Bergman em “Gritos e Sussurros” (1972). Ao lado do “Sob a Sombra”, este é mais um argumento para enxergar o cinema de terror como um meio de enfrentarmos os horrores reais da vida.

Desculpas que usou para não ver:

-Não acredito em bruxas.

-Não acredito em cinema de terror como mecanismo alegórico para questionar a convivência de divergências religiosas (nem em bruxas).

-Nada vai ser melhor que “A Feiticeira”.

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10-Jovens, Loucos e Mais Rebeldes (Richard Linklater)

O que torna Richard Linklater genial não é aparente ao primeiro contato. Tomemos por exemplo o anterior e aclamado “Boyhood: Da Infância à Juventude”. Na superfície é tudo comum, o que percebemos aos poucos é que é tudo extraordinariamente comum e humano. Esses são os momentos que somos catapultados para fora da tela, e estamos sorrindo com as personagens, ou até bebendo e tentando espreitar debaixo da saia de meninas na universidade, como neste “Jovens, Loucos e Mais Rebeldes”. Se não entendeu pelo nome, o filme serve como uma espécie de sequência para “Jovens, Loucos e Rebeldes” de 1993, ou seja, são duas horas de perfeito karaokê de deboche, cerveja e humor adolescente. Quem nunca?

Desculpas que usou para não ver:

-Filmado em três meses!? Agora que o Linklater foi nomeado para Óscar ficou preguiçoso.

-Só os filmes italianos podem ter três adjetivos no título (melhor filme de sempre? "Il Buono, Il Bruto, Il Cattivo"!)

-Serão mesmo mais Rebeldes? Eram bem rebeldes no outro filme...


Luis de Freitas Branco

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